Professora finlandesa viveu últimos meses nas Caldas e na Foz e promete regressar

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Leena Kvorokosi chegou às Caldas da Rainha em Setembro e só partiu no início do mês de Dezembro. Esta professora finlandesa está encantada com Portugal e com esta região, que já conhecia por ter participado num intercâmbio europeu coordenado pela Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro.
Agora veio com uma bolsa da sua Câmara Municipal para estagiar naquela escola secundária caldense e a experiência não poderia ter corrido melhor. A família veio com a docente e escolheram a Foz do Arelho para morar durante esta temporada. Leena Kvorokosi promete regressar já no próximo ano, num novo intercâmbio europeu já que a sua escola, em Jyvaskyla, é uma das que integra o programa que há mais de 20 anos une alunos e professores de toda a Europa.  Para o ano, voltam a reunir-se nas Caldas da Rainha.

Gazeta das Caldas (GC): O que pensa sobre Portugal?
Leena Kvorokosi (LK):
Tinha uma diferente imagem do vosso país. Estou mesmo muito impressionada com a História das terras lusas e dos vossos reis; estudei os legados e os reinados e é uma bela história. Nós na Finlândia só temos cinco castelos ao todo.
O que aprecio sobretudo é simpatia das pessoas portuguesas, a própria terra e também a paisagem.

GC: Como surgiu esta oportunidade de vir para as Caldas?
LK:
Vivo e lecciono numa escola em Jyvaskyla – cidade que é sétima maior da Finlândia e que  possui 130 735 habitantes – e que tem um programa de intercâmbio, financiado pela própria autarquia, destinado a profissionais de várias áreas. A Câmara financia estadias dos seus cidadãos noutros países da Europa. Como eu já conhecia as Caldas pois a minha escola já fez intercâmbios europeus com a Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, a minha candidatura foi aceite. Já cá tinha vários contactos e saberia onde poderia integrar-me. Creio que ganhei uma oportunidade rara, digo mesmo que ganhei a lotaria por ter podido realizar esta experiência!
Jyvaskyla caracteriza-se por ser uma cidade que se dedica à educação, à arquitectura e aos desportos, além da indústria de madeira e de papel. É uma região que possui mais de 30 lagos e pequenos lagos.

GC: O que acha da comida e do clima portugueses?
LK:
A comida portuguesa é óptima! Gostei sobretudo do peixe. Comprámos peixe fresco e amêijoas no mercado e as senhoras que nos venderam ensinaram-nos como deveríamos cozinhar. As pessoas foram nossas amigas.
Entre as minhas comidas favoritas estão as torradas, marisco e…sardinhas assadas.
O clima é ameno, mas estava mais quente quando chegámos.

 

GC: Foi fácil para si viver e trabalhar durante alguns meses no estrangeiro? A adaptação foi boa?
LK:
Para mim viver fora é importante. Conhecer  outras culturas faz parte da minha vida. Eu nasci na Finlândia mas os meus pais viveram vários anos na Lapónia, local onde adorei viver. Depois estudei em Inglaterra e só depois me instalei, como professora de Artes, em Jyvaskyla,.
Era importante para mim dar a oportunidade de passar aos meus três filhos a experiência do que é morar num outro país. Além dos meus três filhos – que têm 12, 10 e sete anos – vieram também os meus pais, para me ajudar. O meu marido, que tem um negócio próprio, veio a Portugal pelos menos três vezes durante a nossa estadia. Toda a família teve uma óptima adaptação a esta região. Os meus filhos tiveram aulas acompanhadas em casa.

GC:O que aproveitou para conhecer, além desta região?
LK:
Fomos várias vezes a Lisboa e assistir a eventos específicos, a pedido dos meus filhos. Estivemos no Festival de Banda Desenhada da Amadora a pedido do meu filho, na Fundação Gulbenkian por causa da minha filha que  gosta de  artes  e ao Jardim Zoológico a pedido da mais nova. Fomos aos Doces Conventuais, evento que decorreu no Mosteiro de Alcobaça e gostámos de tudo!.
Ainda fomos visitar familiares a Cascais e estivemos nas Berlengas, local português que é o favorito do meu filho.

GC: Gostou de morar na Foz do Arelho? Se a Lagoa de Óbidos fosse na Finlândia, acha que seria diferente?
LK:
Todos adorámos morar na Foz do Arelho, onde aluguei um apartamento. Vai-nos custar regressar à Finlândia, onde está a nevar…
Gostámos de morar na Foz pois é uma terra verdadeira, menos turística. Temos localidades na Finlândia muitos turísticas e que para mim tornam-se menos atraentes.
Gosto dos sítios naturais e não creio que a localidade e a Lagoa estejam “estragadas” e não acho que haja excessiva construção. Estivemos em Faro e não gostava nada que transformassem a Foz do Arelho naquele género de localidade.
Se a Lagoa fosse na Finlândia talvez pudesse contar com mais medidas de protecção. De qualquer modo não conheço os factos sobre este ecossistema mas  não me parece que a Lagoa esteja mal, demos por lá muitos passeios e vimos os pássaros e os peixes. Apreciamos muito as caminhadas e os passeios por sítios naturais.

GC: Gostaria de deixar uma mensagem para o presidente da Câmara?
LK:
Sim… Acho que este parque (D. Carlos I) deve permanecer assim, tal e qual como está. Adoramos cá vir passear. Também acho que era bom preservar todos os edifícios antigos da cidade. Não se devem destruir.
A Lapónia foi totalmente destruída na 2ª Guerra Mundial. As casas antigas são lindas e adorava que fossem preservadas até porque a nova arquitectura, por ser tão barata e usar materiais tão pouco nobres, torna-se muito pouco interessante em relação ao que já se construiu anteriormente.

“Creio que o sistema de ensino português é bom”

GC: Qual é a sua área de ensino? O que fez durante este intercâmbio?
LK:
Ensino Artes e durante esta estadia tive a oportunidade de conhecer o sistema escolar português e várias técnicas de ensino das artes. Foi também possível fazer visitas de estudo a escolas de arte em Portugal.

GC: O que acha da Escola Secundária Bordalo Pinheiro?
LK:
A escola é boa e foi alvo de intervenção que a deixou como nova. Na Finlândia construíram-se muitas escolas nos anos 70 e depois devido a má construção tiveram que ser agora renovadas, algumas reconstruídas quase de raiz. Foi o que aconteceu à minha. Assim tal como na Bordalo, também foi renovada.
Creio que a diferença é que na Bordalo, os computadores são mais recentes.

GC: Qual a sua opinião sobre o sistema educativo português?
LK:
Acho que o sistema português é bom e em muitas coisas similar ao finlandês.
Eu trabalho numa escola secundária mas aqui os alunos são mais velhos. Eu só ensino arte e nota que aqui é uma espécie de especialização enquanto que na Finlândia, toda a gente estuda arte. Os meus alunos têm entre 13 a 15, enquanto que cá são mais velhos. Na Bordalo Pinheiro têm a oferta de mais especializações.

GC: O que acha sobre a avaliação dos professores?
LK:
Acho que a avaliação dos professores é algo horrível. Não temos isso na Finlândia. Creio que o sistema existente não leva a nada, a não ser à tristeza e isso não é bom. Não se avalia o trabalho de um professor mas sim a pessoa e a sua personalidade. Acho que até pode existir um sistema de avaliação mas contando com o próprio professor. No mundo das Artes, os professores são muito motivados e acho mal e acho que existam um sistema como há aqui em Portugal. Gostaria de saber de onde vem isto pois deve ser de alguém que nunca esteve numa sala de aula.

GC: Como é a sua escola?
LK:
É uma escola acolhedora, tem uma boa atmosfera e nós gostamos de fazer iniciativas com os estudantes. Ao todo são 500 alunos e os que viveram o intercâmbio na Bordalo Pinheiro gostaram tanto que foram para casa a chorar.
GC: Vê-se a leccionar em Portugal?
LK:
Talvez, se fosse artes mas a minha pronúncia portuguesa ainda precisaria de muito treino, mas seria muito bom. Seria um desafio…De qualquer modo gosto de ter trabalho na Finlândia pnde há muito  desemprego, mas tenho muita sorte em ter emprego.

GC: Sentiu a crise durante a estadia nesta região?
LK:
Sim, da mesma forma que toda a gente sente, pois a crise é generalizada.
Os custos de vida em Portugal não são tão altos como na Finlândia. Para dar uma ideia um café pode custar entre dois euros e cinco euros enquanto  que o custo de uma sopa varia entre os cinco e os sete euros.
Os salários são de facto melhores mas os custos são bem mais elevados. Temos, por exemplo, um Inverno muito prolongado e temos que comprar combustível. Temos que nos aquecer e os custos energéticos são verdadeiramente elevados…

GC: Vai querer regressar a Portugal e à região? Como sintetiza esta experiência?
LK:
Quero voltar e não apenas em contexto escolar. Vou regressar já no próximo ano, em novo contexto de programa europeu e como fiz amigos, logo vou querer mesmo voltar a esta região.
Foi uma óptima experiência para toda a família e sobretudo para os meus filhos. Eles  estão felizes e percebem que é importante conhecer outras culturas e falar outras línguas. Creio que vão querer viver mais tempo no estrangeiro connosco.

 

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