Confraria do Príapo quer lançar livro sobre o falo das Caldas até ao final do ano

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“Símbolos Fálicos do Mundo” foi inaugurada a 12 de Julho na galeria do CCC. O seu autor, Zica Capristano, falecido poucos dias antes, foi cremado em Lisboa, tendo as suas cinzas sido colocadas em cerimónia familiar íntima no início da passada semana, no jazigo da família no cemitério das Caldas da Rainha.Durante o jantar da Confraria – que contou com a participação de 60 pessoas – foram lidos poemas eróticos e apresentados projectos artístico-empresariais inspirados na tradição fálica caldense. Segundo Edgar Ximenes, presidente da Confraria, esta última será tema de um livro de investigação que será editado até ao final deste ano. Será “o primeiro livro de qualidade sobre o falo das Caldas”, disse.

Foi com emoção que decorreu a inauguração da exposição de “Símbolos Fálicos do Mundo”. A morte de Zica Capristano – o autor das fotografias que revelam o tema dos falos em várias culturas por todo o mundo – acabou por marcar esta iniciativa, tendo o antropólogo sido homenageado durante a abertura da mostra. Ricardo Capristano, filho de Zica, deixou palavras de agradecimento à Confraria por ter trabalhado com o seu pai nos seus últimos dias, em especial, porque o erotismo “era um dos muitos temas que o interessava nas suas viagens”. A concretização desta mostra “foi algo muito importante para o meu pai pois ele via imensas possibilidades no desenvolvimento deste tema”. Ricardo Capristano, 40 anos, deixou votos para que a colecção da Confraria possa crescer e deixou o desejo de que, no futuro, “possa estar na origem de um museu”.   “Quem deveria aqui estar era o meu pai…”, disse Ricardo Capristano à Gazeta das Caldas acrescentando que o projecto dos símbolos fálicos era algo que Zica gostaria de ampliar. “Ele queria transformar este projecto em algo mais arrojado, juntando não só o artesanato das Caldas como outras peças de outros países… O meu pai nunca pensou nada em pequeno”, disse. Ricardo Capristano trabalha em televisão e cinema e, tal como o seu pai, é antropólogo. Recorda-se das muitas  férias que passava nas Caldas e sobretudo das viagens realizadas  em companhia paterna. “O meu pai proporcionou-me uma vida fantástica”, rematou.
Peças do mundo inteiro
De “Símbolos Fálicos do Mundo”  faz parte um conjunto de fotografias do antropólogo, que documentam cultos e rituais fálicos em todos o mundo, incluindo países tão longínquos como a Tailândia ou o Benim. As imagens  fazem parte do seu trabalho de pesquisa dedicado ao erotismo, tema que, como o próprio Zica Capristano afirmava “tem perturbado algumas figuras supostamente bem pensantes que se apresentam como acérrimas defensoras dos bons costumes”. Além das imagens, a mostra é constituída por outros objectos e documentos que pertencem a vários coleccionadores caldenses. Destacam-se várias peças de cerâmica local, da autoria de Umbelina Barros e Vítor Lopes.Um dos seus conjuntos de Umbelina Barros fez parte da instalação que tanta polémica gerou na Bienal de Aveiro. Esta integrava um falo com mais de dois metros de altura e que a autora teve que retirar porque, “pelos vistos, assustaram a cidade de Aveiro”, disse Edgar Ximenes. Entre as peças da mostra há, por exemplo, um traje cerimonial de uma tribo da Amazónia  que tem um falo e que serve para as cerimónias de iniciação de raparigas. Há também duas vitrines com literatura erótica. Uma dedica-se a várias edições do Kamasutra e na outra há livros de várias épocas com representações fálicas e referencias a Príapo, o deus que deu nome à Confraria caldense. Podem ainda ser apreciados outro  tipo de peças fálicas, feitas em madeira, amuletos de origem romana, entre obras de interpretações contemporânea.
“Uma nova era para a cerâmica erótica local”
A Confraria do Príapo vai lançar até ao final de 2012 um livro sobre a origem fálica caldense. “A nossa intenção não é fazer uma obra definitiva que estabeleça a origem do falo das Caldas, mas sim analisar as várias abordagens possíveis tendo em conta que a tradição fálica é antiga e comum a vários povos”, disse Edgar Ximenes. O livro deverá mostrar também o falo tradicional produzido pelos artesãos, “que se manteve até à actualidade e que acabou remetido a um gueto”, tendo em conta que o mesmo tema tem sido trabalhado recentemente por artistas e designers que lhe têm dado novas abordagens.Para o presidente da Confraria, a realização de Símbolos Fálicos do Mundo” é um marco importante” para a cidade pois “é a prova de como é possível trabalhar o tema com uma abordagem cultural e antropológica”. Seis dezenas de convivas reuniram-se à mesa do “Tons, Sons e Sabores”, o restaurante do CCC, e durante a refeição, vários confrades leram poesia erótica de autores portugueses.A Confraria pretende apoiar as forças criativas locais a comercializar os seus produtos – apostando por exemplo em novas embalagens. Durante o jantar foram apresentadas duas, que podem agora beneficiar o “Falo Sempre em Pé”, símbolo da Confraria do Príapo.Conceição Colaço, investigadora caldense, deu a conhecer o seu trabalho sobre formas fálicas presentes em percursos em Lisboa, como é o caso de varandas de ruas antigas. Foram também apresentados projectos relacionados com o falo das Caldas. Maria José Rocha deu a conhecer novos produtos da linha “Ú das Caldas”, onde o falo em vários padrões marca presença em produtos tão variados como as t-shirts aos relógios. Marina Ximenes apresentou pinturas que lembram falos em lenços de seda, enquanto que Umbelina Barros e Rudolfo Santos apresentaram peças de joalharia onde os falos marcam presença. Trata-se de um projecto novo que alia a ceramista e a empresa de joalharia Santos Pessoa.

Decisão sobre Museu do Erotismo nas Caldas está para breve

O Museu do Erotismo das Caldas da Rainha ainda não está decidido pela autarquia. Continuam as negociações com o coleccionador de Coimbra, Paulo Moura, que gostaria de ceder a sua colecção à cidade (com opção de compra para a Câmara após um período de dez anos).“O problema é o custo da instalação do museu, pois é necessário um edifício de alguma dimensão, várias salas e vitrines e esses encargos, segundo o coleccionador, devem ser a cargo da Câmara”, disse Fernando Costa. As peças continuarão a pertencer ao coleccionador por 10 anos e há em seguida uma opção de compra para a Câmara, mas segundo o edil o valor pedido de 300 mil euros “é muito elevado”.De qualquer forma, Fernando Costa afirmou que “a Câmara municipal vai decidir a curto prazo se vai haver museu ou não”.

Natacha Narciso

nnarciso@gazetadascaldas.pt