A famosa Lagoa Azul: o paraíso que afinal é um poço de problemas

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Desde o início do Verão que as redes sociais começaram a divulgar um novo local de paragem, onde a grande atracção é uma pequena lagoa. A tonalidade da água fez com que o local, um antigo areeiro, fosse apelidado de “Paraíso”, uma vez que o azul turquesa, especialmente claro, se assemelha à cor das águas tropicais.
Mas, este local “exótico” esconde afinal um poço de problemas e até situações de risco público. A famosa lagoa é um buraco resultante da extracção de areias e não está devidamente sinalizada. Além disso, em seu redor acumula-se lixo e entulho, ali colocado clandestinamente. Pior: segundo a Câmara das Caldas, esta área nunca obteve licenciamento de exploração extractiva.

Localiza-se entre o Campo e os Casais da Espinheira e o acesso é possível através da Estrada do Areeiro, uma das primeiras saídas da estrada municipal que liga as duas localidades, assim que se sai do Campo, em direcção à Serra do Bouro. Este areeiro, juntamente com outro que se encontra a poucos metros, são conhecidos como “Pedreiras de Cortelos”.
O caminho em terra batida é perfeitamente acessível a qualquer automóvel e, saídos da estrada municipal, a chegada à lagoa faz-se em cerca de três minutos. Já com o carro imobilizado não se encontra qualquer sinal de perigo, indicação de propriedade privada ou algum tipo de vedação.
É que estes alertas estão apenas do outro lado do areeiro, pelo qual o acesso também é permitido. Contudo, a vedação em plástico já não está de pé e conta-se apenas um sinal triangular que adverte para possíveis trabalhos de pedreira, cuja cor amarelada já há muito foi comida pelo sol. Mais visível está o aviso de entrada proibida, já que o terreno é propriedade privada.
Sentimo-nos à vontade para explorar o espaço e descer até à lagoa que – não se pode negar – salta à vista de qualquer um. Observando agora os limites do areeiro, é visível algum lixo depositado. Gazeta das Caldas apurou que as pessoas se aproveitam do facto do terreno estar abandonado e próximo de uma estrada, ainda mais com acesso facilitado, para ali largar resíduos, alguns deles com propriedades tóxicas. Mais de perto, percebemos que entre os materiais depositados se encontra um garrafão de óleo de 20 litros (sem tampa), detritos de telhas, elementos ferrosos oxidados, latas e plásticos. Resíduos estes que, em dias de fortes rajadas de vento, podem muito bem chegar à lagoa.
Um especialista em pedreiras contactado pela Gazeta das Caldas e que conhece bem este local, diz que entre as pessoas que visitam esta lagoa, há mesmo quem nela dê uns mergulhos. “Esta água está parada, não tem circulação e é água da chuva, que fica depositada sem qualquer tipo de controlo e tratamento. As pessoas deviam entender que tomar banho aqui pode ser perigoso para a saúde”, alertou-nos, acrescentando que já chegou a ver baterias de carros aqui depositadas.
Outro dos elementos potencialmente perigosos são os hidrocarbonetos, presentes nos óleos das máquinas que realizam as extracções. Está já provado que alguns compostos de hidrocarbonetos são cancerígenos. A tudo isto, acresce a ameaça de afundamento, revelou a mesma fonte, pois as “areias são saibrosas, ou seja, quando submetidas a uma elevada carga de água fazem lama, o que aumenta o risco de afundamento para quem entra na água”.

Areeiro está ilegal

Gazeta das Caldas contactou a Câmara das Caldas, tendo o chefe da Divisão de Gestão Urbanística e Planeamento, José Crespo dos Reis, informado que a respectiva zona extractiva não se encontrava afecta ao Plano Director Municipal (PDM). Conclusão: o areeiro, que apresenta indícios de exploração (não só pela profundidade do terreno como pela sinalização exposta) nunca teve autorização legal para iniciar a extracção das areias. Mais: conforme o nº 2 do artigo 55º do Regulamento do PDM é proibida a expansão de áreas extractivas já existentes e a criação de novas.
Confrontada com a situação, a autarquia enviou um mail à Gazeta das Caldas no qual garante que já accionou “todos os meios para a correcção da situação, notificando as entidades competentes nos licenciamentos e fiscalizações destas actividades, tendo em vista a rápida reposição da legalidade”. Notificações que foram feitas depois do contacto do nosso jornal expondo a situação de possível ilegalidade. A autarquia revelou também que o “Comandante Operacional Municipal e o Técnico de Protecção Civil se deslocaram ao local, confirmando a precariedade da segurança” do areeiro.
Gazeta das Caldas apurou ainda que já foi apresentada uma queixa ao Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) expondo este caso, mas que a entidade não respondeu.
O passo seguinte da nossa reportagem foi o contacto com os proprietários do areeiro. Tínhamos a informação que o responsável era Manuel Pinheiro, membro da administração do Grupo Parapedra – Sociedade Transformadora de Pedras, sediada em Rio Maior. Contudo, efectuado o telefonema à empresa, revelaram-nos que este se encontrava no estrangeiro, não adiantando qualquer data de um possível regresso. Contactado o seu filho, o empresário Gonçalo Pinheiro, este respondeu que “não há interesse em fazer publicidade ao local pois já surgiram vários problemas com a vizinhança e a zona está em processo de licenciamento”, solicitando ainda que a Gazeta enviasse as questões por escrito.
Assim o fizemos, mas não recebemos qualquer esclarecimento. Gonçalo Pinheiro alegou também que a gestão do terreno estava agora entregue à empresa Lusosílica que, no entanto, pertence ao Grupo Parapedra, do qual ele próprio também é membro.
Lençol freático em risco?
No caminho para a Lagoa Azul cruzámo-nos com outro areeiro, devidamente vedado e identificado, cuja placa indica que a zona obtém licenciamento da Direcção Regional de Lisboa e Vale do Tejo. Até aqui, tudo certo. O problema surge quando outra fonte, que também não quis ser identificada, e com formação em geologia e minas, colocou a possibilidade desta área extractiva já ter chegado ao seu limite de exploração, como sugere a tonalidade da água da lagoa (quase negra), o que poderá indicar uma elevada profundidade. Neste dia, era evidente a presença de pelo menos uma pessoa no terreno e de uma máquina escavadora.
Motivo de preocupação – à parte de um possível incumprimento da lei – é que esta zona extractiva se encontra sob um aquífero, constituindo-se assim uma zona de risco pois existem vários furos de captação de água nas proximidades. Aliás, a menos de 500 metros pode ser avistada uma estação elevatória de água que capta o precioso liquido do subsolo para a superfície a fim de ser distribuído.
A Câmara das Caldas informou-nos que os Serviços Municipalizados não têm informação sobre a qualidade da água da lagoa, embora assegurem que, até à data, “as características da água dos furos de captação se mantêm constantes, para a maioria dos parâmetros analisados”, descartando assim a possibilidade de contaminação.
Contudo, a autarquia caldense acrescenta que já manifestou à APA (Agência Portuguesa do Ambiente) as suas preocupações sobre uma eventual ultrapassagem dos limites de extracção.