MANUEL SOUSA – “O quartel das Caldas foi a minha segunda casa”

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notícias das Caldas
78 ANOS
VIÚVO
DOIS FILHOS, DOIS NETOS E UMA NETA
Quando cheguei às Caldas da Rainha fiquei decepcionado. Vinha de Tavira, com guia de marcha para o Regimento de Infantaria 5 (RI5). Tinha apanhado no Algarve o comboio para o Barreiro, depois o barco para o Terreiro do Paço e depois outro comboio do Rossio para as Caldas. Saí da estação, vejo a avenida… Claro que isto antigamente era muito diferente. Mas pensei: ‘onde eu me vim meter’. Não era por acaso que eu tinha pedido para ir para Lisboa ou para Évora. Pus Caldas em terceiro lugar e foi para cá que a tropa me mandou.
Mas hoje, aos 78 anos, esta é a minha terra e posso dizer que este quartel foi a minha segunda casa pois, tirando as vezes em que fui para o Ultramar, o RI5 (hoje ESE) foi a unidade militar onde servi durante mais anos.
Nasci no Alentejo, em S. Vicente da Ventosa, em 23 de Agosto de 1937. Fiz a escola primária na aldeia e o curso comercial em Elvas. Até aos 20 anos vivi por ali. O meu pai era feitor numa quinta, onde eu também trabalhei, mas a agricultura não era o meu futuro. Tínhamos um primo que era sargento no Batalhão de Caçadores 8, de Elvas, e o meu pai convenceu-me a meter os papéis para eu ir para a tropa.
E fui aceite. Há datas que não se esquecem. Assentei praça no dia 29 de Março de 1957 em Elvas. Foi lá que fiz a recruta. Aquilo era duro. A ginástica nas muralhas naquelas manhãs de geada, as marchas a pé até ao campo de tiro, a disciplina rigorosa. Uma vez fiquei de fim-de-semana no quartel a cortar erva porque tinha a cama mal feita.
Três meses depois jurei bandeira e como era voluntário, fiquei em Elvas durante três anos, onde fiz o curso de cabos. Ao fim desse tempo, ou vinha embora ou pedia para entrar no quadro, mas como a ideia era continuar no Exército fui enviado para o BC9. Mas não: o BC9 não ficava ao lado do BC8. Ficava em Viana do Castelo, para onde fui durante cinco meses. Diga-se que foram dos melhores tempos da minha vida. Gente boa. Gozavam com o meu sotaque alentejano, mas era malta amiga. Bebia-se vinho verde. Eu estava habituado ao maduro, mas o verde também marchava.
Em Setembro acabou-se a festa. Fui despachado para Tavira. Vida de militar isto, uma volta a Portugal de quartel em quartel. E ainda viria África, mas já lá vamos.
Em Tavira tirei o curso de sargento miliciano (se fosse hoje seria na ESE) e depois pedi para ir para Lisboa, Évora ou Caldas da Rainha. Só tive vaga nas Caldas e lá vim eu, directamente de Tavira para aqui. Foi no dia 29 de Janeiro de 1961 que pus pela primeira vez os pés nesta terra. E como já disse fiquei um bocado decepcionado. Eu tinha 24 anos, era solteiro e bom rapaz e queria era pândega. Lisboa…! Eu queria era ter ido para Lisboa.
Curiosamente o meu primeiro serviço nas Caldas foi fazer a “ronda da cidade”, que era uma coisa que se fazia na altura: um graduado e dois soldados a patrulhar as ruas.  Fiquei logo a conhecer o burgo que, diga-se de passagem, para mim parecia-me coisa pequena com meia dúzia de casas.
Entretanto tinha rebentado a guerra no Ultramar. Quando eu fui para a tropa não havia guerra, mas eu sabia que, sendo militar, poderia um dia ser chamado a combater. Nem me passou pela cabeça ser desertor. Pensei: ‘és um profissional, tens de ir”.
Calhou-me a Guiné. Um dos piores teatros de guerra. Em 1965 eu já tinha sido promovido a furriel e em 1966 embarquei para África. Nem vi Bissau. O navio ancorou ao largo da cidade e depois fomos para a ilha do Como, que estava praticamente ocupada pelo inimigo. Só lá havia uma companhia para que os terroristas [nome atribuído aos guerrilheiros do PAIGC que combatiam as tropas portuguesas] não dissessem que aquilo era independente.
Mas a verdade é que nós nem saímos do quartel. E de quartel aquilo tinha pouco. Passamos seis meses dentro do arame farpado, só capim à nossa volta. Éramos abastecidos com água potável por uma lancha de Marinha, que às vezes falhava porque a maré não permitia atracar. Tomar banho e lavar roupa era só quando chovia. Às vezes o rio subia e quase invadia o quartel e à noite o barulho das rãs era insuportável. Ao fim de meio ano, sem nunca sairmos, sempre metidos dentro do perímetro do arame farpado, estava a ver que dávamos todos em malucos.
Fomos então transferidos para Empada, que já tinha melhor alojamento. E foi nessa altura, quando uma vez fui de serviço a Tite que apanhei o meu baptismo de fogo. Fomos atacados e estivemos a apanhar com bazucadas durante meia hora. Morreu um cabo e um soldado.
Em 1968, já como 2º sargento, voltei ao Puto, como se chamava na tropa a Portugal. Vim no navio Niassa e cheguei às Caldas, curiosamente, no feriado de 15 de Maio. Mas no ano seguinte fui mobilizado para Angola, para Mamarosa, junto à fronteira com o Congo. Um ano depois fui transferido para Cuímba, que era ali perto. E quando chegou a vez de voltar a Metrópole (como também era designado Portugal), decidi que não valia a pena porque voltaria a ser enviado para África. Por isso, optei por ficar em Angola e mandar vir a família ter comigo.
Ah! Porque eu entretanto tinha casado em 1963! Foi logo depois de ter chegado às Caldas que conheci a Maria Leonor, quando ela ia ver televisão com a mãe no café do espanhol que havia ali na avenida da estação. Eu frequentava o café e comecei a reparar nela. Depois houve os bailes no Lisbonense (hoje Hotel Sana) e aí começou o namoro.
Quando em 1969 mandei vir a família para Angola eu já tinha dois filhos. Ficamos a viver em São Salvador (hoje M’Banza Kongo), mas em 1971 fui colocado no Quartel General em Luanda e fomos todos para a capital.
Vivi em Luanda até 1974. Apanhei lá o 25 de Abril. Nessa altura eu já era 1º sargento. Ficámos todos de prevenção porque tinha acontecido qualquer coisa em Lisboa. Não havia televisão e notícias concretas de que realmente tinha havido uma revolução só as tivemos ao fim do dia.
O REGRESSO ÀS CALDAS 
Para os portugueses em Angola foi o princípio do fim. A situação começou a ficar perigosa. Regressámos a Portugal em 21 de Dezembro de 1974, ainda a tempo de passar o Natal nas Caldas, na Rua da Feira, onde fomos viver.
Depois disso, estive ainda dois anos em Lisboa na Direcção de Armas, mas o resto da minha carreira de militar passei-a no RI5, que depois se chamaria Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha e depois Escola de Sargentos do Exército. Fui eu que montei o Centro Gráfico da escola e foi lá que fiquei a trabalhar até passar à reserva, em 1987, quando fiz 50 anos.
No Centro Gráfico da ESE passava toda a documentação relacionada com as aulas e as actividades dos alunos dos cursos de sargentos. Os manuais eram lá impressos, bem como milhares de fotocópias e documentação variada.
Posso dizer que depois de ter andado na guerra, acabei a vida militar numa actividade bem pacífica. De resto, comparar o antigo RI5 com a ESE é como o dia da noite. Quando cá cheguei havia mais de 600 homens no quartel e uma disciplina férrea, com malta preparada para ir para África. Naquele tempo não havia convivência entre um oficial e um sargento, nem entre um sargento e um soldado. Era tudo muito restrito. Hoje há uma grande misturada e acho que há menos disciplina. Por outro lado, também é certo que se come melhor do que antigamente.
Sou do tempo em que não havia mulheres na tropa. Podem dizer que sou antiquado, mas eu acho que as mulheres degradam um pouco o Exército. Às vezes penso como é que era se houvesse duas ou três mulheres na ilha do Como no meio de 180 homens. E depois não é só isso. Elas vão quase todas para Enfermagem, Transmissões… Então que vão também para atiradoras e artilheiras.
Seja como for, posso dizer que o quartel das Caldas foi a minha segunda casa. Foi aqui que passei mais anos na minha vida profissional. Ainda hoje me sinto militar e orgulho-me dos oito louvores que obtive ao longo da minha carreira, bem como da Medalha de Mérito Militar de 4º classe e da Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar que me atribuíram.
Quando passei à reserva fui para dirigente do núcleo das Caldas da Rainha da Liga dos Combatentes, onde estive 20 anos. Também estive na direcção do Caldas durante 15 anos. Há seis perdi a minha mulher. Foi um duro golpe. Tenho dois filhos e três netos que me dão muitas alegrias. Ocupo os meus dias, às vezes no Facebook e outras vezes em almoços e jantares com a malta amiga.

E já não estou decepcionado com as Caldas, embora tenha muito orgulho em ser alentejano. Já perdi foi o sotaque. Quando me dizem mal das Caldas, digo que sou alentejano e quando dizem mal do Alentejo digo que sou das Caldas. Mas gosto de viver cá porque, tirando as deslocações para África, foi aqui que fiz a minha vida e é aqui que tenho os meus amigos.

Testemunho recolhido por: Carlos Cipriano