EDITORIAL – 35 anos de Ferrel contra o Nuclear, tão longe e tão perto
Passaram na passada terça-feira 35 anos desde que os habitantes de Ferrel, sem apoios exteriores à própria povoação e sem directos de televisão nem da rádio, nem jornais, se levantaram contra a ameaça de construírem ali a primeira central nuclear portuguesa.
As autoridades governamentais portuguesas da época foram surpreendidas pela revolta popular, bem como pela contestação que se começou a levantar timidamente em certos meios, especialmente entre ecologistas e ambientalistas, universitários e locais, em que o nosso jornal se transformou num dos principais paladinos.
Foi a seguir à manifestação de Ferrel, em 1976, que a Gazeta das Caldas criou com colaboradores de todo o país um suplemento designado “Pela Vida”, que viria a organizar nas Caldas da Rainha e em Ferrel no início do ano de 1978 o I Festival Pela Vida e Contra o Nuclear.
Nesse fim de semana vieram à região, provenientes de todo o país, alguns milhares de pessoas, que partilharam a experiência do primeiro levantamento nacional contra o nuclear e pela defesa do meio ambiente. O próprio Secretário de Estado do Ambiente do governo socialista da época, Gomes Guerreiro, enviou uma mensagem ao Festival, mas o governo era maioritariamente pró-nuclear, especialmente nos ministérios da Energia e da Indústria.
Na época os contestatários invocavam uma larga argumentação, bebida na rica experiência de luta anti-nuclear que se travava em todo o mundo, como a existência de uma falha sísmica na região e na impossibilidade de Portugal garantir as condições de segurança, acrescentando-se o argumento económico num país em vésperas de sofrer a primeira intervenção do FMI.
Nestes 35 anos muito mudou no mundo, até as recentes mudanças nos comportamentos dos políticos em relação à energia nuclear, com a recente adocicação dos argumentos contra o nuclear e o despertar de certos responsáveis adormecidos, batendo-se novamente a favor do nuclear em Portugal.
Mas mesmo os comentadores dos media e certos jornalistas, que antes não se atreviam a defender o nuclear, começavam a enterrar os argumentos contra e a defender a necessidade de uma central em Portugal, seguindo recentes exemplos da Finlândia, França, Itália, etc…
Infelizmente para o povo japonês, um sismo de alta intensidade, seguido de um tsunami de forte impacto, veio desmontar toda a argumentação benévola e favorável em relação à segurança das centrais nucleares.
Os acontecimento em curso e cujas consequências ainda não se conhecem na totalidade quando escrevemos (noite de terça-feira), uma vez que ainda não estão controlados os reactores da central nuclear de Fukushima, são imprevisíveis.
De qualquer forma corre em todo o mundo a sensação que se está perante um desastre nuclear de consequências imprevisíveis, que estão a levar à fuga de muitos milhares de pessoas, perante a incerteza do que irá acontecer.
Inclusivamente na terça-feira os japoneses estavam a sofrer os efeitos da imprevisibilidade da direcção dos ventos, que poderiam trazer para a grande metrópole Tóquio as poeiras contaminadas que se libertaram da central nuclear acidentada.
Os leitores da Gazeta das Caldas têm o privilégio de conhecer o testemunho de uma portuguesa que pertence a uma família luso-japonesa que tem casa no concelho das Caldas (onde passam habitualmente férias) e que vive em Tóquio. Sónia Ito faz um narrativa dramática do que viveu na passada semana nos longos momentos do sismo e depois de todo o desenrolar que se seguiu nos dias seguintes.
Mais impressionante é a forma como termina, recordando que está preparada para fugir para sul de bicicleta com a família e que pede para rezarem para que a tragédia final provocada pela explosão total de uma central nuclear não ocorra.
Por tudo isto, se justifica dizermos em título que a manifestação de Ferrel está tão longe, porque foi há 35 anos, como tão perto, dada a ocorrência do gravíssimo acidente do Japão.
Houvesse uma central nuclear em Ferrel e, por triste ironia do azar, ocorresse uma acidente do mesmo género, uma vez que aqui temos uma falha sísmica e o mar à porta, estaríamos na zona crítica em todas as dimensões: zona de contaminação nuclear e zona de invasão das águas do oceano.
Não queremos dramatizar e procurar potenciais e hipotéticas desgraças, uma vez que se diz que o último grave maremoto terá ocorrido aquando do terramoto de Lisboa em 1755. Contudo também não esquecemos que os técnicos diziam que as centrais nucleares estavam quase 100% protegidas contra os sismos e os tsunamis.
Provou-se agora que não era verdade e são vários os países do mundo que a seguir à tragédia do Japão, se preparam para voltar a reforçar as defesas das suas centrais nucleares e a interromperem para já os seus novos programas nucleares.
Como se dizia nos anos 70 – que todos éramos habitantes de Ferrel -, também hoje devemos dizer que somos todos habitantes do Japão e estamos solidários com eles e que os acompanhamos na dor e no sofrimento, tanto do grande sismo, como de todas as réplicas que se têm seguido, como do tsunami e da crise nuclear que continuam a viver.






