Soprano Elisabete Matos encantou plateia no encerramento do Festival de Ópera

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Soprano Elisabete Matos

Cerca de um milhar de pessoas assistiu, na noite de sábado (21 de Agosto), à gala de encerramento do Festival de Ópera de Óbidos, tendo por cenário a própria lagoa. A conceituada soprano portuguesa Elisabete Matos foi a figura da noite com as suas interpretações de Cármen, Tosca, Turandot e Macbeth.

O Festival começou a 31 de Julho, com a interpretação da Nona Sinfonia de Beethovan, na Casa das Gaeiras, seguindo-se as óperas “Barbeiro de Sevilha” e “La Bohème”, na cerca do castelo, em Óbidos.

Durante duas horas de espectáculo Elisabete Matos, acompanhada pelo Coro e Orquestra do Norte, interpretou árias de óperas de Bizet, Verdi, Mascagni, Piccini e Ponchielli, encerrando em apoteose o Festival de Opera de Óbidos. As cerca de mil pessoas renderam-se à voz da soprano e, no final, aplaudiram-na, de pé, durante mais de cinco minutos.

Antes, Elisabete Matos já tinha voltado ao palco por duas vezes, respondendo assim ao pedido do público e para cumprimentar uma outra diva da ópera que se encontrava a assistir ao espectáculo. “Foi uma ousadia interpretar Carmen, de Bizet, com a maior Carmen de todos os tempos a assistir na plateia”, disse, referindo-se a Teresa Berganza, a meio soprano espanhola, que veio a Portugal para assistir a este espectáculo.

Elisabete Matos interpretou as diversas personagens com tal dedicação que por diversas vezes arrancou diversos “bravos” entre a plateia.

Dias antes, na conversa que teve com os jornalistas após o primeiro ensaio em Óbidos, dizia que é mais difícil “criar ambiente” num concerto desta natureza do que numa ópera inteira, onde há os fatos, há um personagem a interpretar e interacção entre os personagens.

A soprana destaca MacBeth como uma das personagens que mais gosta de interpretar, dado tratar-se de uma “mulher absolutamente perversa e malvada, mas não em essência”. E adianta que uma das coisas mais belas desta profissão é, sob a responsabilidade de compositores como Puccini ou Bizet, vencer a timidez e interpretar personagens tão ricas.

“O palco permite sermos o que não somos na realidade”, afirmou.

Também o facto de cantar para uma plateia repleta não é caso de admiração para Elisabete Matos, que há muito se deu conta que a que a ópera não tem um público tão reduzido quanto vulgarmente se pensa. “Há um público, até muito jovem, que da mesma maneira que vai a um concerto de jazz ou de rock, também pode ir à ópera”, disse, desdramatizando a ideia de que a ópera é para uma elite. A soprano, que ao longo da sua carreira já estreou mais de 70 personagens operáticas por todo o mundo, revelou que os concertos ao ar livre, “à la perto”, como lhes chamou, são importantes para a captação de um novo tipo de público.

“O lugar idóneo para se interpretar uma ópera é no teatro, mas nem toda a gente, e menos em Portugal, tem acesso a um teatro de ópera”, disse, acrescentando ser “uma vergonha” que apenas exista um teatro destes no país (Teatro de S. Carlos em Lisboa).

Para a soprano, trata-se de uma questão educacional e Portugal “não está preparado”, pois o ensino não está direccionado para que um jovem, assim como estuda Matemática ou línguas, tenha contacto com a música e depois, mas tarde, possa escolher a sua vocação.

“É necessário pensar na educação como o pilar da construção de uma sociedade rica, para a qual, depois, a música e o canto lírico não pareçam uma coisa elitista, mas que tem de estar ao alcance de todos”, resumiu Elisabete Matos, que deixou Braga para prosseguir os seus estudos em Espanha.

Relativamente ao festival de ópera de Óbidos, a soprano considera que a sua participação e a do maestro José Miguel Pérez Sierra (que dirigiu ao Orquestra do Norte), podem ser uma contribuição para consolidar este evento. “O importante nestas coisas não é fazer por fazer, mas fazer cada vez melhor e que as escolhas sejam acertadas”, deixa em jeito de conselho.

Sexta edição do evento com quase 4000 espectadores

Cerca de 4000 pessoas assistiram, de acordo com a organização – Óbidos Patrimonium –, ao VI Festival de Ópera de Óbidos. De acordo com o administrador da empresa municipal, José Parreira, já existe um público fiel a este evento, não só local, como também oriundo de vários pontos do país e também estrangeiro, sobretudo do norte da Europa e a passar férias na região.

O responsável explica que a criação de público para este género musical é um dos objectivos do festival, que está a ser conseguido, a par da internacionalização do próprio evento e da marca de Óbidos e do Oeste.

“Estes objectivos não são atingidos de um ano para o outro, mas estamos a dar passos nesse sentido”, afirmou.

A edição de 2011 já está a ser preparada sendo certo que se mantém a aposta na Orquestra do Norte. Há também a intenção de encadear o programa da SIPO – Semana Internacional do Piano neste festival, possivelmente com a realização de um espectáculo conjunto de um pianista com a orquestra para abertura do festival.

As óperas ainda não estão decididas, mas José Parreira adianta que poderá haver alguma repetição de anos anteriores, como este ano aconteceu com o “Barbeiro de Sevilha”, pois a aposta recai em títulos mais conhecidos do grande público. É que, explica, “o objectivo é fazer um festival parecido na forma, mas com novidades”.

Orçado em cerca de 300 mil euros, o festival é organizado pela Obidos Patrimonium e conta com a colaboração do Turismo de Portugal através do Programa de Investimento ao Turismo e da RTP, que fez a sua promoção.

“O Ministério da Cultura continua a não apoiar os eventos em Óbidos”, disse ainda o responsável.