Como a Gazeta das Caldas noticiou na passada edição, a Câmara deliberou re-adjudicar o Complexo multiusos das Caldas da Rainha (CMCR) à empresa Mota-Engil S.A., que concorreu com um projecto do arquitecto Ilídio Lopes da Cunha.
Esta foi a proposta que o júri do concurso colocou em primeiro lugar na nova ordenação, que ocorreu depois de o Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria ter anulado a adjudicação anteriormente feita ao projecto de Souto Moura proposto pelo consórcio FDO-Ensul.
Em rigor formal e administrativo, a Câmara deliberou na reunião de 6 de Fevereiro, a intenção de adjudicação, cabendo agora aos “preteridos” reclamar caso entendam.
Conheça agora em pormenor a maior obra pública alguma vez feita na cidade: terá dois auditórios, um para 660 e outro para 150 lugares, estacionamento coberto para 350 viaturas, um café-concerto e áreas de exposição, além dos vários espaços de apoio.
O acesso à praça na entrada do complexo será exclusivamente pedonal – o rodoviário vai destinar-se apenas para cargas, descargas e ambulâncias – e feito através de uma delicada ponte pedonal, que se elevará sobre espaços verdes e espelhos de água, contrastando com a estética fechada e rigorosa dos dois volumes.
A proposta sugere ainda a construção de uma faixa de prédios com 45 fogos e lojas junto às traseiras dos edifícios da Rua Diário de Notícias.
Pena que neste projecto não apareça como elemento marcante a ligação da cidade à cerâmica e às termas. Certamente a escolha privilegiou bastante o preço mas perdeu na relação com a economia local.
Rui Tibério
rtiberio@gazetacaldas.com
Salas com grande versatilidade
O centro destina-se a espectáculos variados, desde ópera ao teatro, circo, cinema, música ou qualquer outro tipo de acontecimento político e cultural, uma vez que as suas salas apresentam uma grande versatilidade, quer em termos de tipo de evento, quer em termos de lotação.
Com estacionamento de apoio, o acesso viário às saídas da cidade de Caldas da Rainha será feito, preferencialmente, para Norte, através de via rápida em área de expansão recente da cidade.
De acordo com a memória descritiva da proposta, pretende-se que o CMCR seja “um pólo de atracção por si só, dado tratar-se de uma peça singular, constituindo o elemento de referência da envolvente mais próxima, criando ele também, directrizes e padrões de qualidade dentro dos quais o tecido urbano se poderá reorganizar e reinterpretar futuramente”.
A entrada principal do edifício, exclusivamente pedonal, será feita pelo alçado Sul, a partir da plataforma nivelada que configura a praça de chegada.
Contudo, o acesso de artistas e o cais de carga será feito pelo alçado Norte a partir de um amplo espaço de manobra de veículos de carga, “retirando este trânsito da já complicada Rua Dr. Leonel Sotto Mayor”. Mas será a partir desta rua o acesso aos três pisos cobertos de estacionamento.
A referida praça, virada para a Rua Dr. Leonel Sotto Mayor, é fruto da apropriação da cobertura do piso -2 de estacionamento do CMCR. Foi idealizada com carácter “francamente urbano”, para que os habitantes possam desenvolver actividades de permanência e usufruto longe do intenso tráfego automóvel local, graças ao desfasamento de cotas existente entre eles.
O acesso principal ao multiusos será feito através de uma “delicada ponte pedonal, que se elevará sobre espaços verdes e espelhos de água, contrastando com a estética fechada e rigorosa dos volumes”. Será permitido, no entanto, o acesso de emergência automóvel bem como de bombeiros.
Será criado, de acordo com o projecto, um acesso urbano pedonal que chegará ao nível da Rua de Olivença por meio de escadaria adjacente ao CMCR, com criação de uma faixa verde ajardinada de usufruto e protecção aos edifícios novos previstos. “O espaço definido entre o Complexo multiusos e a banda construída proposta permite o seu total atravessamento longitudinal público constituindo um percurso urbano totalmente pedonal como alternativa aos canais viários presentes na envolvente”, explica a memória descritiva.
Pequeno auditório será imagem de marca
O edifício do multiusos apresenta-se como “um conjunto de volumes paralelepipédicos justapostos, cuja lógica formal se baseia num desenho de grandes traços”. Os volumes dos auditórios são assumidos com toda a sua dimensão, em formas puras de horizontalidade predominante que se dispõem ortogonalmente entre si e com a envolvente.
O volume de referência deste conjunto será o grande auditório, “uma massa construída profundamente enraizada no terreno”, ao passo que o pequeno auditório será “um volume de percepção imediata, de materialidade e peso indiscutíveis, que, no entanto, contraria a sua própria natureza aparecendo desligado do terreno, suspenso sobre um espelho de água que o iluminará com reflexos sempre em movimento e recorrência à memória da água. É um efeito de quase contra-senso, um insólito, que se tornará a imagem visual de marca do CMCR”.
Ambos contrastam com o volume do átrio de entrada, um volume com uma presença discreta, apagando-se face ao impacto provocado por aqueles. Contrastando com o acentuado encerramento dos volumes brancos, a abertura do grande vão da entrada principal neste volume “constitui uma surpresa”.
Mais explica o documento que para contrastar com os volumes quase monolíticos dois auditórios, aí se abrem grandes envidraçados, para que o edifício interpele o utente, “desafiando-o a entrar e descobrir o que aí se encerra”.
Visto a partir da Rua Dr. Leonel Sotto Mayor, o edifício aparece num plano superior (cerca de 7 metros de desnível), estando o pequeno auditório, paralelo à rua, em 1° plano, o único volume do edifício do CMCR visível a partir da praça, pela grande distância a que se encontra o volume do grande auditório.
“Assim, a praça é definida pelo edifício do Complexo multiusos mas não sofre a opressão que poderia ser causada por uma grande massa construída. O troço de rua de onde é visível o Grande Auditório é o ponto de acesso aos percursos pedonais que levam à entrada principal, pelo que a visualização do seu volume à distância, que vai sendo embebido pelo terreno, e de todo o percurso que leva até lá, é chamativa para o utente atento e curioso”, indica o documento.
810 lugares sentados
Em termos funcionais, o multiusos será constituído por um auditório para 660 pessoas (e seus apoios), uma sala estúdio para 150 pessoas (ou pequeno auditório), um café-concerto, uma sala de exposições, um conjunto de salas polivalentes e estacionamento automóvel coberto.
O átrio, “foyer”, auditórios e café concerto, no piso O, têm acesso pedonal directo a partir do exterior. O acesso às salas de apoio e de exposições (no piso -1) também será feito a partir destes espaços, delimitando com clareza os locais de acesso de público ao edifício. “Estando localizadas no piso -1, as Salas de Apoio prestam-se a eventos algo díspares sem perturbar o normal funcionamento público do edifício”.
Já a administração irá localizar-se num piso superior aos espaços de público, sem acesso através destes, para que se minimizem ao máximo as possibilidades do seu devassamento.
O funcionamento dos espaços do CMCR baseia-se numa ampla circulação de serviço que atravessa todo o edifício, ligando núcleos de circulação vertical, cais de carga, sala estúdio, café concerto, palco, armazéns e oficinas (todos localizados à mesma cota). A montagem de um espectáculo será realizada sem recurso a elevadores ou monta-cargas, com o movimento de cargas a ser sempre feito de nível, o que agilizará todo o processo.
Os camarins e espaços de estar dos artistas localizam-se no piso superior, protegidos do barulho e agitação eventualmente gerados.
A proposta assegura que o conjunto de meios mecânicos móveis, elevatórios, painéis acústicos rotativos e deslizantes, entre outros, permitem alterar tanto o número e posição relativa dos espectadores face à cena, como o comportamento acústico e cénico da sala, satisfazendo os requisitos, por vezes antagónicos, necessários à apresentação de variados tipos de eventos.
Nesta sala foi criado um ambiente "institucional", através de uma convencional disposição das plateias, balcões e camarotes ou da escolha de materiais normalmente associados a estes espaços. Este auditório possui um desenho arquitectónico definido pela inclinação das paredes, aberturas dos camarotes ou curvatura do tecto que o tomará reconhecível e identificável como “a sala de espectáculos do Complexo multiusos das Caldas da Rainha”.
Já o mais pequeno será uma sala de grande versatilidade, incluindo, para além de uma configuração tradicional palco/plateia, a possibilidade limite de retirar todas as cadeiras para melhor se adaptar à criatividade do encenador. Será “um espaço regular e neutro, que se poderá transformar em seja o que for e desaparecerá quando se apagarem as luzes, transportando o espectador/interveniente para um outro mundo”.
Átrio, “foyer” e café-concerto muito personalizados
Por outro lado, o átrio, “foyer” e café-concerto serão locais de recepção, espera e encontro de público onde o espaço arquitectónico, modelação da luz e contacto com o exterior podem ser mais presentes, “pelo que se definiu cuidadosamente um carácter espacial distinto para cada um”: átrio será um espaço radial cujo centro, definido por uma clarabóia de presença escultórica, se apresenta como a confluência de percursos e distribuições, como o acesso do exterior, os percursos de público para o foyer (grande auditório e sala de exposições), café concerto (sala estúdio) e salas de apoio.
Será um espaço acolhedor, amplo, funcional, de fácil percepção, cujo ambiente será dominado pela luz zenital.
O “foyer” possuirá uma franca ligação ao átrio, tendo estes dois espaços complementares um do outro: “de um espaço acolhedor e concêntrico, o utente passará a um espaço de desenvolvimento vertical e de grande permeabilidade visual”. Será um espaço longitudinal, onde a simetria de dois acessos às plateias é quebrada pelo posicionamento descentrado de um único elevador.
“O pé direito de três níveis, que possibilita a percepção de escadas e varandins de acesso a camarotes e tribunas, o estreito contacto visual com o duplo pé direito da sala de exposições (Piso -1) e a abertura de vãos para a envolvente exterior ampliam o foyer para além dos seus limites físicos”, indica o documento. “Um pequeno rasgo para o exterior ao nível do peão funcionará como breve vislumbre interior/exterior. Um grande envidraçado abre-se ao nível dos varandins, iluminando com generosidade o “foyer” sem o seu devassamento e dará outro sentido de usufruto aos varandins”, acrescenta.
Também do átrio se fará o acesso ao café-concerto, que terá uma imagem pouco convencional: “para além de uma completa inversão de lógica na escolha dos materiais presentes, o ambiente quase introspectivo ligado ao grande auditório é totalmente abandonado, surgindo um grande envidraçado que abarca o espaço urbano fronteiro (praça criada sobre os pisos de estacionamento e Rua Dr. Leonel Sotto Mayor) numa lógica cosmopolita de ver e ser visto”, explica a memória do projecto.
Proposta “chave na mão”
Faz parte da proposta, assegura o concorrente, “todo o mobiliário e equipamentos necessários à imediata utilização do edifício do CMCR”. Para o grande e pequeno auditório foram escolhidas cadeiras estofadas, com área de absorção sonora equivalente estando vazia ou ocupada, com assento rebatível e pé único fixado por parafusos ao pavimento, agrupadas em pequenos grupos facilmente transportáveis. Para as salas de apoio estão previstas cadeiras de quatro pés, com possibilidade de ligação entre cadeiras da mesma fila, num total de 160 cadeiras utilizáveis em qualquer configuração.
Para o átrio e “foyer” foram previstos sofás, “de forma a definir espaços de espera confortáveis, cuja disposição representada nas peças desenhadas constituintes deste processo é meramente indicativa”. Já para o café-concerto foram definidas duas áreas de mesas distintas com peças do mesmo modelo visual, com alturas diferentes.
Para os restantes compartimentos foi escolhido o mobiliário mais adequado à sua função (por exemplo, cadeiras rodadas nas regies e cabines de tradução) procurando sempre a versatilidade de utilização (por exemplo, peças de mobiliário de escritório modular).
Foi procurada a uniformidade de materiais e peças em todo o edifício, de forma a possibilitar a sua utilização em qualquer compartimento sem risco de choque visual.
Proposta urbana de 45 fogos junto ao multiusos
O projecto que ficou agora em 1º lugar contempla ainda um conjunto de edifícios urbanos que rematará em oposição, a banda existente virada à Rua Diário de Notícias e complementará o edificado adjacente da Rua Dr. Leonel Sotto Mayor.
Serão edifícios destinados à habitação, comércio e serviços, com volumetrias entre os 3 e os 5 pisos, com uma área de construção acima do solo de 8.031,95 m2, sendo desta 6.246,35 m2 de habitação (cerca de 45 fogos) e 1.785.60 m2 de comércio e serviços.
A nova banda edificada poderá usufruir dos espaços urbanos criados como envolventes do CMCR (esplanadas, ajardinados e praças pavimentadas) e do “movimento de utentes previsível para um equipamento desta natureza, criando todas as condições para uma grande valorização dos seus espaços comerciais”, refere a memória descritiva do projecto.
“No encontro com a Rua de Olivença, a banda de edifícios termina, criando um espaço de envolvência e enfoque à moradia de gaveto já referida, que importa reabilitar por, em nosso entendimento, constituir uma das poucas peças arquitectónicas de valor da Rua Diário de Notícias. A nova frente urbana criada na zona consolidada deverá possuir um tratamento plástico de grande qualidade e de desenho contemporâneo, valorizador do Complexo multiusos ("parede espelho").”, sugere o documento.
Os conselhos não ficam por aqui: “no futuro, os logradouros das construções viradas à Rua Diário de Notícias, devem ser libertos de construção e ajardinados (permitindo-se também um eventual alargamento da via de sentido único ora proposta) e as construções existentes reabilitadas e ampliadas (de acordo com o PDM) ou eventualmente substituídas por construções novas, se assim a Câmara Municipal das Caldas da Rainha o permitir”.
Por agora, “enquanto esta sugestão não for tornada possível, sugere-se a criação de uma fachada falsa adoçada aos limites dos logradouros de tardoz das construções viradas à Rua Diário de Notícias, de desenho cuidado - eventualmente em tijolo maciço - que permita um tapamento equilibrado do actual desequilíbrio e eventualmente a criação de um verde apropriado (trepadeiras)”.