“Da técnica: do design: 4 Perspectivas da Joalharia Contemporânea” designa a exposição que se encontra patente no Centro de Design de Interiores (CDI), em Óbidos, até ao final do ano.
Quatro artistas, três dos quais das Caldas da Rainha, apresentam a sua visão de um mesmo conceito - a joalharia contemporânea. “Apesar de apresentarem formas, técnicas, materiais e mesmo opções distintas, denotam um aspecto comum, que é a preocupação com o design enquanto disciplina”, refere Ana Calçada, responsável pelo CDI.
A mostra, com trabalhos de Liliana Alves, Patrícia Franco, Sara Cardina e Sofia Vacas Silva, estará patente até ao dia 31 de Dezembro e exibe objectos do quotidiano e peças de adorno, produzidos em materiais que estabelecem uma ligação com as artes tradicionais portuguesas, conjugadas com a utilização de novas técnicas e materiais.
Diariamente, entre as 10 e as 18 horas, é feita uma vídeo-projecção, com demonstrações do trabalho da brasileira Ângela Baduel-Crispim sobre o material Precious Metal Clay (PMC). Relativamente novo no mercado, este foi desenvolvido e patenteado no Japão pela Mitsubishi Materials, no principio da década de 90 do século XX. Trata-se de uma pasta não tóxica, composta por 92% de metal em estado puro (ouro, prata ou platina) e 8% de aglutinante de origem orgânica e água. “Depois de seca e de ser submetida a altas temperaturas, o aglutinante orgânico e a água desaparecem e ficamos com uma peça de 99,9% de prata pura ou ouro”, explica a artista Sara Cardina que também trabalha este material.
É também exibido um vídeo sobre a artista da República Checa, Blanka Sperkova, que trabalha a joalharia com uma técnica semelhante à utilizada no crochet.
Na inauguração, que decorreu no dia 31 de Outubro, o presidente da Câmara, Telmo Faria, lembrou a aposta feita no edifício pela designer Maria José Salavisa e defendeu que o espaço, situado junto à muralha, precisa agora ser descoberto.
“Cada vez mais as coisas especiais não se fazem na Rua Direita”, disse, acrescentando que estão sucessivamente a criar novas soluções para mostrar o trabalho dos novos criadores, além dos espaços expositivos.
Segundo Telmo Faria estão a “crescer para criar ateliers e habitações criativas, onde os jovens possam viver e trabalhar ao vivo”. Com estes projectos a autarquia pretende também dar mais vida ao centro histórico e não apenas fazer ali eventos temporários.
“Quem aposta na criatividade como uma forma de se realizar profissionalmente terá, cada vez mais, um lugar em Óbidos”, garantiu o autarca.
Ana Calçada referiu ainda que pretendem continuar a reflectir sobre esta área e permitir que designers ali possam fazer as suas demonstrações com alguma periodicidade. O objectivo é “criar uma rede, um centro de tertúlia para falar sobre a relação do design com as outras áreas”, explicou a responsável.
Incluída nesta mostra está também a experimentação, com a realização de trabalho ao vivo e workshops.
Amanhã, entre as 10 e as 12 horas, haverá demonstrações de trabalho ao vivo de filigrana. A 15 de Novembro será dado destaque ao PMC (Precious Metal Clay) e, 6 de Dezembro à Cravação.
Nos dias 22 e 29 de Novembro, entre as 14 e as 19 horas, irá decorrer um workshop de iniciação ao PMC (módulo I), que terá um custo de 75 euros. A 13, 20 e 27 de Dezembro irá decorrer o módulo II do workshop, com um custo de 60 euros.
Os cursos destinam-se a interessados com mais de 15 anos, que poderão efectuar as suas inscrições para cdi@cm-obidos.pt ou através do 262955500 (ext. 486).
O Centro de Design de Interiores fica situado na Rua do Facho, nº 5, em Óbidos.
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Testemunhos
“Qualquer pessoa pode fazer as suas jóias”
Sara Cardina, residente nas Caldas da Rainha, apresenta nesta mostra várias peças feitas em PMC (Precious Metal Clay), uma prata com um grau de pureza de 99%, em pó. Trata-se de uma novidade em Portugal, e que devido à sua maleabilidade, permite ser trabalhada manualmente.
Este metal pode ser utilizado em conjunto com outros materiais, como por exemplo vidro, cerâmica ou cobre. Também existe o ouro, platina e recentemente começou a ser comercializado o bronze.
Funcionária pública de profissão, Sara Cardina tem um gosto especial pela área das manualidades, que a levou a ir tirar formação a Inglaterra, na Mid Cornwall School of Jewellery. Dedica-se a este trabalho há cerca de um ano e, além da criação de peças, também dá formação em workshops.
“Há muita gente interessada nesta área” afirma Sara Cardina, acrescentando que os seus cursos são frequentados por mulheres e homens. Através deste material, “qualquer pessoa pode fazer as suas jóias, é muito fácil”, conta.
Em Agosto deste ano começou a ser comercializado o cobre em PMC e em Janeiro Sara Cardina pretende ir a Londres para fazer formação neste material.
Nesta mostra Sara Cardina apresenta algumas peças feitas em conjunto com Patrícia Franco.
Arte feminina na sua essência
Patrícia Franco trabalha o cobre através da técnica de crochet e malha. Realiza um trabalho que considera arte feminina na sua essência e procura tratar temas que tenham a ver com a mulher e com a memória.
Para esta mostra trouxe peças cuja temática se prendem com uma memória recente, a altura em que foi mãe, há dois anos. Os objectos de joalharia expostos procuram mostrar as “alterações que esse estado trouxe na minha vida, assim como pelas coisas que fascinam uma criança tão pequena”
Patrícia Franco também apresenta séries de trabalhos anteriores, onde trabalhava mais a forma. “Achei interessante esta oportunidade para exagerar, ultrapassar o limite da jóia comum que a pessoa utiliza normalmente”, conta.
Nos seus trabalhos utiliza sobretudo o cobre porque permite-lhe trabalhar a cor. “Também utilizo muito o ouro mas em banhos de ouro, não ouro puro”, acrescenta.
Natural e residente no Porto, Patrícia Franco é formada em Línguas e Literaturas Modernas e, desde há 11 anos que é produtora cultural. Considera-se designer de jóias e não joalheira pois não possui formação na área, diz a criadora autodidacta.
Natureza inspira trabalho minucioso de cravação
Formada em joalharia pelo Escola Profissional CINDOR, em Gondomar, Sofia Vacas Silva, expõe no CDI o tipo de trabalho que pode ser feito através da cravação. Trata-se de um “trabalho mais minucioso e delicado”, onde a jovem artista, natural das Caldas da Rainha, utiliza o ouro e a prata, metais aos quais mistura outros materiais.
“Baseio-me muito na natureza e utilizo sobretudo materiais naturais, muito poucos sintéticos”, explica Sofia Vacas Silva, acrescentando que este gosto advém-lhe do seu contacto próximo com a natureza, desde criança.
A jovem caldense vive e trabalha actualmente em Gondomar, onde desde 2005 que iniciou uma actividade própria. Trabalha em joalharia com uma linha “muito própria e delicada”. Em Julho de 2006 organizou e produziu a sua primeira exposição em S. Cristóvão, no Alentejo.
“A joalharia pode ser mais que um simples adorno”
A filigrana é apresentada nesta mostra caldense Liliana Alves. “Trouxe um trabalho que mostra um pouco a minha personalidade”, conta a jovem que, em 2005, concluiu o curso de ourivesaria no Centro de Formação Profissional da Indústria da Ourivesaria e Relojoaria, em Gondomar.
Referindo-se à filigrana, área em que se especializou, refere que a pretende “explorar, inovar e criar novas leituras. É um trabalho intuitivo”, acrescentou.
Recentemente Liliana Alves fez um trabalho baseado no tecto da Igreja de Santa Maria para a empresa municipal Óbidos Patrimónium, e entregou em Alcobaça um outro baseado nos tecidos de chita com introduções de filigrana.
A artista considera que antigamente a filigrana era muito carregada, mas ela pretende passar a ideia de que “um pequeno apontamento é suficiente”, permitindo-lhe assim ter mais espaço para harmonizar com outros materiais, como as pedras semi-preciosas, madeiras exóticas, ou o ébano.
Em exposição estão também duas peças que Liliana Alves apelidou de “Metamorfoses”, e que já descobriu seis maneiras diferentes de usar.
“A joalharia pode ser mais que um simples adorno, é uma maneira de estar”, conta a jovem artista que possui o seu atelier nas Caldas da Rainha e comercializa as suas peças em ourivesarias na cidade e noutros locais do país.
“Estamos sempre a concorrer no mercado e se não somos diferentes e tentamos inovar não é uma mais valia”, afirma Liliana Santos, acrescentando que os seus produtos têm uma boa receptividade. A jovem destaca ainda que é possível conjugar esta área com outras, como a do vídeo arte ou fotografia.
Ainda este irá expor em Aveiro e, em meados de 2009, em Vila Franca de Xira.