Não foram só refugiados – na sua maioria judeus – que foram encaminhados para as Caldas da Rainha durante guerra. Um livro agora publicado conta que vários pilotos ingleses e americanos ficaram internados na cidade durante meses depois dos seus aviões terem aterrado ou se terem despenhado em território português.
“Aterrem em Portugal – Aviões e aviadores beligerantes em Portugal na II Guerra Mundial”, de Carlos Guerreiro, revela-nos que durante o conflito houve pelos menos 140 aviões de combate que acabaram ou interromperam as suas missões em território nacional. Alguns caíram no mar a poucas milhas da costa, outros despenharam-se em vários sítios e outros ainda tiveram a sorte de, após momentos dramáticos, aterrar intactos com as suas tripulações salvas.
Na sua maioria eram aviões aliados, sobretudo britânicos, já que os pilotos tinham indicações para, em caso de necessidade, aterrarem em Portugal por este ser considerado um “país amigo”.
Para as autoridades portuguesas, as regras que ditavam o tratamento de tripulações beligerantes no território eram simples, tendo em conta a neutralidade do país: os aviadores “náufragos”, cujos aviões caíam no mar, eram considerados, por transposição das leis marítimas, “marinheiros em apuros” e eram repatriados. Mas os que realizassem aterragens forçadas e tocassem o solo português eram considerados combatentes e só poderiam regressar a casa no fim da guerra.
Mas a prática contradisse sempre a posição oficial e não houve uma única tripulação que ficasse internada até ao fim do conflito. Carlos Guerreiro explica que “no máximo a estada prolongou-se por alguns meses e quando as aterragens forçadas se transformaram quase numa rotina – nomeadamente a partir de fins de 1942 – a permanência em Portugal chegou a reduzir-se a poucas semanas”.
A história de Tommy Thompson
E é aqui que entra o papel das Caldas da Rainha. A cidade já acolhia, tal como a Figueira da Foz, Estoril e Ericeira, milhares de refugiados. Tinha instalações hoteleiras e era um bom local para manter as tripulações afastadas dos olhares curiosos dos espiões que operavam em Lisboa.
Por isso, foram encaminhados para a cidade termal os primeiros aviadores, como foi o caso de Tommy Thompson, um aviador que integrava um esquadrão de aviões Blenheim que se dirigia da Inglaterra para Malta em 27 de Agosto de 1941. Uma avaria mecânica obrigou-o a aterrar perto de Aveiro, tendo sido escoltado para a base área de S. Jacinto e, no dia seguinte, acompanhado por uma gente da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, antecessora da PIDE) enviado de comboio para as Caldas da Rainha, juntamente com os outros dois tripulantes do seu avião.
Para seu espanto, encontra à chegada outra tripulação que levantaram voo de Inglaterra no mesmo esquadrão, e que fora obrigada a uma aterragem forçada no Estoril.
O seguinte extracto do livro conta como era a vida na cidade:
“Nas Caldas da Rainha, os dias passaram rapidamente, apesar de haver pouco que fazer. Um representante da embaixada inglesa forneceu-lhe dinheiro para comprarem roupas civis. “O casaco e as calças desportivas não eram a última moda, mas não podíamos andar fardados na rua devido à neutralidade portuguesa”, explica Thompson. O aviador salienta ainda o facto de o mesmo homem lhes ter feito notar num café, a presença de dois elementos pertences ao corpo diplomático alemão, “que possivelmente estavam de olho” neles. Mais tarde surigu outro alemão “com aspecto estranho” e voltaram a ser avisados por alguém da policia local para ficarem em “alerta”.
O hotel onde estavam alojados ficava numa “larga avenida na zona este da cidade”. “Estávamos perto da rua principal que tinha vários restaurantes, onde nos sentávamos a beber café e a ver as pessoas passar. Não havia muito para fazer, mas depois de termos estado continuamente em combate, nos meses anteriores, esta calma era bem vinda”, afirma o piloto.
Thompson relata ainda que passava muito tempo a vaguear pelos arredores da cidade ou na praia, mas que não tomava banho porque a água era “terrivelmente fria” (apesar de ele ser inglês e se estar em Agosto). Tanto os militares como os refugiados tinham pouco dinheiro para gastar e a semanada que o aviador recebia do consulado não dava para grandes divertimentos, mas lembra-se que foi ao cinema (ao Ibéria ou ao Pinheiro Chagas?) rever o filme Men with Wings que já tinha visto em Inglaterra umas semanas antes.
O internamento destes aviadores só durou dez dias. De forma secreta foram enviados para a Base de S. Jacinto e repatriados por via marítima para Inglaterra.
Thompson sobreviveu à guerra, bem como R. Martin, mas o terceiro elemento da tripulação, morreria no Norte de África em Dezembro desse ano. Estes foram dos primeiros aviadores a passar pelas Caldas, mas entre os finais de 1942 e 1943 não houve internamentos na cidade, tendo o governo passado a enviar as tripulações sobreviventes para Elvas.
ELVAS SUBSTITUI CALDAS
Um episódio curioso está na origem dessa decisão. Em 9 de Novembro de 1942 o “jovem e inexperiente” primeiro-tenente americano Jack Ilfrey aterra o seu P-38 no aeroporto da Portela quando seguia da Inglaterra para a Argélia, depois de um dos tanques de combustível se ter desprendido da asa.
Mal aterra, é interrogado pelas autoridades portuguesas e um oficial da Força Aérea informa-o que ele e o avião ficam internados e que vai levar o aparelho para a base militar mais próxima. Mas é nesse momento que, subitamente, aterra um segundo P-38 que também tivera dificuldades no voo. Aproveitando a confusão gerada, Ilfrey mete-se aos comandos e levanta voo, acabando por aterrar em Gibraltar.
Esta fuga irritou os portugueses e criou até um problema diplomático com os Estados Unidos. Uma das consequências imediatas foi que, a partir de agora, as tripulações provenientes de aterragens forçadas já não iriam para as Caldas, mas sim para a fronteiriça e amuralhada cidade de Elvas.
Contudo um ano depois o governo revogaria essa decisão e voltou a enviar as tripulações para as Caldas da Rainha. As tais que, supostamente, deveriam ficar internadas até ao fim da guerra, mas que voltavam ao seu país algumas semanas depois. Por isso, alguns destes pilotos que matavam o tempo a passear pela Praça da Fruta (e se queixavam do tédio que era viver nas Caldas) viriam a morrer meses depois, abatidos em combate.
O livro de Carlos Guerreiro faz ainda um levantamento dos aviões que aterraram ou se despenharam em Portugal durante o conflito. Curiosamente, a região Oeste é das menos afectadas pelas aterragens de emergência, apesar da maioria se verificar junto à costa pois os aviões contornavam o território português quando se dirigiam a Gibraltar ou Malta (a maioria dos destinos). Normalmente, quando tinham problemas procuravam de imediato uma praia para poderem aterrar. E quando o conseguiam, não raras vezes os pilotos deitavam fogo ao aparelho para este não vir nunca a cair em mãos inimigas.
A maioria das aterragens de emergência deram-se na costa algarvia, embora haja também alguns relatos no interior, sobretudo no Alentejo (uma das tripulações que ficou internada nas Caldas aterrou no concelho de Grândola).
Não surpreende também que a maioria dos aviões beligerantes com problemas fossem dos aliados (britânicos e americanos, sobretudo) e poucos os alemães pois estes últimos preferiam aterrar em território espanhol, já que a “neutralidade” de Franco pendia mais para as tropas do Eixo do que a “neutralidade” de Salazar, amarrado ao compromisso da mais velha aliança do mundo com a Inglaterra.
Pelo menos três aviões na Foz do Arelho
Dos 140 aviões beligerantes registados neste livro, poucos tocaram o solo da região Oeste. No entanto, Hermínio de Oliveira, que tem boas memórias dessa época, disse à Gazeta das Caldas que tem a certeza de, pelos menos três, terem aterrado no areal da lagoa de Óbidos, recordando-se, inclusivamente, de ter visto um dos aparelhos (ver caixa).
Segue-se uma lista dos locais mais próximos das Caldas, citados no “Aterrem em Portugal”:
Azambuja – 08-10-1942
Um Handley Page Halifax II da RAF, com sete tripulantes, fez uma aterragem bastante acidentada, tendo o avião sido incendiado pela tripulação.
Torres Vedras – 31-03-1943
Aterrou na praia de Sta. Rita um bombardeiro Consolidated Catalina IB da RAF com dez tripulantes. Depois de várias tentativas foi possível desencalhá-lo da areia e levá-lo para o Centro de Aviação Naval de Lisboa, onde ficou a degradar-se.
Entre Leiria e Marinha Grande – 23-08-1943
Despenham-se dois planadores ingleses naquela zona da costa. O relatórios da polícia desse dia falam em três pilotos detidos.
Peniche – 07-09-1943
Um planador com três tripulantes aterra numa praia de Peniche depois do avião que o rebocava ter sofrido uma avaria no motor. Os três militares foram repatriados um mês depois.
Vieira de Leiria (no mar) – 25-10-1943
Um Martin B-26C Marauder caiu no mar depois de um tiroteio. Testemunhas em terra ouviram uma forte explosão. Os corpos dos sete tripulantes foram dando à costa nos dias seguintes e sepultados em Vieira de Leiria. Mais tarde seriam exumados e transladados para o Lorraine Americain Cemetery em St. Avold (França).
Uma vida aborrecida
Nas 52 páginas do capítulo “Caldas da Rainha”, o livro conta como viviam os tripulantes durante o internamento da cidade. Eis algumas das partes mais interessantes (subtítulos da responsabilidade da redacção)
De um modo geral, a vida nas Caldas da Rainha era aborrecida para os tripulantes que ali passaram o seu tempo de internamento. "Não havia nada para fazer e a barreira da língua era intransponível. As pessoas passavam e sorriam. Nós sorriamos também, e era tudo", resume De Paolis.
Os quatro ingleses e cinco americanos passaram a maior parte do tempo juntos, divagando pela cidade, em visitas aos campos ou a uma lagoa próxima, onde tomavam banho e apanhavam sol. "Se tivéssemos conseguido contactar com a população, a nossa vida teria sido mais interessante. Assim fez-se o que se pôde", salienta ainda De Paolis.
Howell também não fez grandes contactos com a população e a tripulação do outro aparelho surgiu, naturalmente, como a principal interlocutora. "Conversávamos bastante com os americanos. O facto de em África eu e o meu piloto termos voado em Liberators deu-nos tema comum de conversa. Estávamos interessados em saber quais os problemas que tinham tido, além de outras coisas. Demo-nos bastante bem ao longo tempo”, explica Don Howell, que criou laços especiais com De Paolis, pelo facto de este também ser navegador. “Ele costumava dizer, de uma forma muito séria mas como piada, que era um ser celestial. De facto era esse o nosso trabalho. Viver com os olhos nas estrelas.”
Quando havia mercado, levantavam-se cedo para passear pelas bancas. Todo aquele movimento quebrava a monotonia. “À sexta-feira o mercado estava cheio de gente. Havia peixe fresco e uma grande variedade de produtos. Lembro-me muito bem de ver bacalhau. Apesar de ter nascido nos EUA, sou de origem italiana e, por isso, sabia o que era. Em casa comíamos bacalhau de vez em quando", explica Thomas.
Don também gostava de fazer visitas nestes dias movimentados. Foi no mercado que fez a maior parte das compras que levou quando regressou. "Quando voltei a casa, levava um cesto de fruta fresca que, devido à guerra, era difícil de conseguir em Inglaterra. Ao desembarcar no aeroporto, o fiscal da alfândega não despregava os olhos do cesto.
Convidei-o a retirar algumas peças. Escolheu três bananas e duas laranjas", recorda HoweIl que, além da fruta, levava outros presentes, nomeadamente para a namorada: vários pares de meias de nylon. Outro luxo numa Inglaterra em guerra.
CINEMA EM PORTUGUÊS
Para quebrar a rotina diária, fazia-se de tudo, mas nem sempre com os melhores resultados. "Uma sexta ou um sábado decidimos ir ao cinema. Só que o filme, a preto e branco, era em português. Mais um programa falhado", lembra De Paolis. Americanos e ingleses passaram também pelo casino, mas a falta de dinheiro não permitiu grandes apostas. A maior parte do tempo estiveram a observar.
A missão principal destes nove homens pode resumir-se em poucas palavras: encontrar forma de ocupar o tempo, e cada um encontrou a sua. HoweIl chegou a visitar uma fábrica de tijolos e o resto do tempo ocupava-o com a leitura nos parques da cidade, actividade que outros aviadores também gostavam de fazer. O piloto Don Lewís, pelo seu lado, gostava de passar os dias sentado nos cafés das Caldas.
Havia, no entanto, horas em que se encontravam todos. A meio da manhã era normal uma reunião no café, "localizado ao topo da praça que pertencia ao Hotel Rosa, para beber chocolate quente e comer torradas", explica Don Howell.
Os pequenos-almoços também eram feitos em comum. "Oficiais e sargentos comiam todos juntos numa sala de jantar antiga, lindíssima, com mesas e cadeiras de mogno", afirma De Paolis que recorda também o facto de, no hotel, só conhecerem uma maneira de preparar os ovos: "Comíamos sempre ovos cozidos. Aliás, o frango também era sempre cozido."
O momento alto de cada dia era o jantar. "Descíamos à sala, mal esta abria, e só saíamos quando eles nos expulsavam para fechar tudo. Comíamos numa longa mesa coberta com uma toalha de linho e havia garrafas de vinho, branco e tinto, espalhadas pela mesa. Durante a refeição consumíamos o vinho todo e continuávamos a pedir garrafas ao longo da noite enquanto contávamos histórias", relembra o americano.
UMA FUGA Á PRAIA
Todas as movimentações eram observadas ou por agentes da GNR ou por polícias à civil. "Como tínhamos o quartel mesmo em frente ao hotel, sempre que saíamos éramos seguidos por dois homens armados. Iam connosco para todo o lado e, pelo menos uma vez, arranjámos maneira de fugir à sua vigilância. Não foi por malícia ou querermos brincar com as autoridades. Queríamos apenas estar sós e poder ir um pouco mais longe do que aquilo a que estávamos autorizados. Queríamos ver o oceano ou a lagoa de Óbidos e isso ficava fora dos limites que nos tinham imposto", explica Don HowelI, que deu forma a um cuidado plano de fuga.
"Seguimos pela rua principal, como fazíamos sempre, e fomos até ao mercado, onde comprámos umas frutas. Separámo-nos em dois grupos, que foi seguido cada um pelo seu guarda. Mais à frente voltámos a separar-nos e misturámo-nos com a multidão. Quando os despistámos, seguimos até ao portão da zona do peixe e, com uma rápida corrida, fomos até à praia, onde demos uns mergulhos."
Estavam já a secar-se quando avistaram ao longe um jipe, com quatro guardas armados. A viatura parou e saiu um oficial que se dirigiu ao grupo. "Olhou para nós com um ar meio sério e meio divertido e disse-nos: You must not treat my boys like that (Não podem tratar os meus rapazes desta forma). Explicámos-lhe que não era nossa intenção causar problemas mas que queríamos ter um pouco mais de liberdade. Ele acabou por dizer que bastava pedir autorização e mais nada." Uma atitude que tomaram da segunda vez que foram ao local. (...)
Os americanos conseguiram algum material desportivo “Telefonámos à jovem da embaixada e pedimos algum equipamento. Enviaram-nos material de softball, algo muito parecido com basebol, e ocupámos bastante tempo jogando. Para que fosse possível fazer equipas, ensinámos alguns jovens da guarnição militar a jogar. Pouco tempo depois eles já nos conseguiam bater neste jogo tipicamente americano”, salienta De Paolis.
Alem das autoridades portuguesas, que naturalmente se mostravam interessados nos aviadores, havia outros olhos que também não os perdiam de vista. “No primeiro interrogatório, feito na embaixada inglesa, fomos avisados de que existiam agentes alemães por toda a parte, e isso veio a confirmar-se quando chegámos às Caldas da Rainha. Conseguíamos vê-los nos cafés e nas ruas, por vezes mostrando bastante interesse naquilo que fazíamos ou dizíamos”, lembra Don Howell.
Os aviadores ingleses
Durante a guerra passavam muitos aviões, perto da nossa costa. (...)
Na Inglaterra, à medida que os aviões iam saindo das fábricas, voavam para África, em reforço dos que lá iam combatendo, numa angustiante minoria que a educação inglesa, descrente de milagres, iria fortalecer, pelo trabalho e pelo valor. Um desses aviões caiu uma vez na Foz, na Lagoa. Uma festa para a rapaziada daquele tempo, que iam a pé, à Foz, "ver o avião” creio que se não avariou, ficou foi atolado na areia. Trazia 3 homens.
Um deles ficou sempre de guarda. Não deixava, para nosso grande desgosto, que fossemos coscuvilhar lá dentro.
Dois dos aviadores vieram às Caldas estabelecer os necessários contactos com as autoridades militares inglesas.
Um dos poucos telefones que havia nas Caldas era o do Café Central, onde eles se dirigiram e de onde apelaram ao adido militar da RAF em Lisboa, que presto mandou resolver o caso do avião.
Não sei como foi, só sei que um dia fomos a Foz e já lá não 1180 estava nada. Nem nunca soubemos como é que o avião saiu de lá. Mas os dois aviadores ficaram cá.
A educação escolar do nosso tempo não privilegiava a língua inglesa. O francês era a língua "diplomática", dizia-se, e esperava-se que como tal ganhasse os louros do internacionalismo. Por isso é que os currículos das escolas médias só abordavam a língua de Voltaire e só nos liceus se ensinava a língua inglesa.
Não percebíamos nada do que nos diziam os jovens aviadores, nem eles a nós, está bem de ver. Só um ou outro dizia uma ou outra frase e sabia pedir “que falassem devagarinho”. Mas a verdade é que nos entendíamos.
Os seus sorrisos largos, o brilho dos seus olhos, o carinho das suas mãos ao apertar suavemente as nossas; havia um calor de humanidade tão grande que era como uma emanação de fé, de alegre perseverança, de certeza num futuro de tranquilidade e de paz, que aquela juventude imperativamente construiria. O Café Central era o poiso, mas paravam lá também muitos homens afectos os regime, germanófilos, que olhavam para os jovens aviadores como se de diabo se tratasse.
Foi uma coisa estranha que a maioria dos afectos ao regime de Salazar fossem simpatizantes dos alemães, mas explicável pela ideia dos governos fortes sem parlamentarismo com oposições. Salazar tinha tido com os alemães grandes convívios. Os dirigentes da Pide tinham sido muito influenciados pelo que tinham lá visto da juventude hitleriana. (...)
Os aviadores eram muito jovens. Mostravam-nos os seus bilhetes de identidades como se se despissem. Eram rituais de amizade, que nós aceitávamos com muita satisfação. As fardas ficavam-lhes bem. Eram cinzento-azuladas com uns bivos muito vermelhos, ao longo das pernas, casaco fechado com uma fieira de botões amarelos, até ao pescoço, e gola curta com a insígnia da RAF de cada lado. Da parte de baixo cada insígnia tinha um número, que no caso dos dois era o mesmo. Devia ser o número da sua unidade.
Um dia foram-se embora e no dia da despedida arrancaram os botões da farda e deram um a cada um de nós. Eram em relevo, com a insígnia da RAF a vermelho. Mas o que eles marcaram foi um sentimento ecuménico da amizade, da fraternidade, da perenidade dos mais profundos e significantes sentimentos do homem, que subsistem mesmo que as Torres de Babel queiram fomentar guerras pela diferença de línguas.
*Hermínio de Oliveira
In Crónicas do Meu Pequeno Mundo