História

Publicado a 11 de Outubro de 2011 . Na categoria: . Seja o primeiro a comentar este artigo.
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IMPRENSA E PODER LOCAL: A GAZETA DAS CALDAS

(1925-1975)

LUÍS NUNO RODRIGUES

A Imprensa, o Poder e a História

0 relacionamento entre a Imprensa e o Poder e uma questão que tem ganho nos últimos tempos uma acuidade extraordinária. Discute-se sobretudo o tipo de relação que se deve estabelecer entre o jornal, regional ou nacional, e as várias instâncias de poder, também a nível local ou nacional. Como se deverá comportar a imprensa face ao Poder? Deverá adoptar uma posição de submissão, pactuando com o poder estabelecido? Deverá ser uma oposição permanente, um contra-poder eficaz, adoptando neste caso uma posição crítica? Deverá ainda adoptar uma posição de meio termo, conforme o posicionamento dos seus directores e conforme a própria política de quem detém o Poder? Não nos cabe aqui, evidentemente, dar a resposta a esta questão. No entanto, achamos por bem começar o presente artigo, que se debruça, afinal, sobre o relacionamento entre a imprensa e o poder local, numa perspectiva histórica, por uma chamada de atenção para a actualidade deste tema. Como nos ensinou Marc Bloch, devemos procurar compreender o presente pelo conhecimento do passado e também compreender o passado através das interrogações que o presente nos coloca.

Nota introdutória

O nosso trabalho analisa, na verdade, a questão do relacionamento entre a imprensa e o poder. Fá-lo, como dissemos, numa perspectiva histórica e com base num estudo de caso. Trata-se da Gazeta das Caldas, periódico regional, editado em Caldas da Rainha, cuja publicação teve início em 1925 e atingiu em Outubro passado os 64 anos. O que pretendemos é integrar o jornal no meio onde ele se articula, para assim nos apercebermos das suas relações com as diversas instâncias de Poder, sobretudo com as de nível local, mas sem nunca esquecer a conjuntura nacional.

Debruçamo-nos, portanto, sobre um periódico local e não sobre um jornal nacional. O espectro da análise nada perde, contudo, em temos de pertinência. Na verdade, um periódico local desempenha invariavelmente uma função de peso no complexo jogo de luta pelo poder que se desenrola na comunidade em que ele se insere. Esta importância advém-lhe do facto de ser um precioso meio de formação e de manipulação da opinião pública local. Ele pode tornar-se, portanto, numa arma poderosa quando controlado pelo segmento das elites que detém o poder municipal. Funcionará, neste caso, como legitimador da acção desenvolvida por esse segmento e, mais do que isso como um elemento corporizador, que aglutina interesses e vontades em torno de determinado projecto e que lhe confere consistência e capacidade de actuação. Se, pelo contrário, em determinada altura, o jornal for dominado por um sector das elites que não ocupe de momento os orgãos do poder local, ele manterá intactas as  suas possibilidades de pólo convergente e aglutinador, mas passará a funcionar, evidentemente, como um poderoso instrumento de critica e de contra-poder.

Para além de ser um palco privilegiado dos confrontos políticos locais, o periódico local desempenha também uma função não menos importante no relacionamento que a sua localidade estabelece com o espaço exterior. Funciona como uma espécie de filtro em relação à informação nacional que chega à sua localidade, o que reforça ainda mais a sua importância junto da opinião pública local. Esta função de relacionamento é também desempenhada no sentido inverso, isto é, o jornal local constitui um meio privilegiado da comunidade, ou melhor, das suas elites dominantes, se darem a conhecer ao espaço exterior. A imprensa local é, em suma, uma autêntica ponte de informação entre o centro e a periferia1 .

Para além disso, a pertinência do nosso objecto de estudo releva também do modo como o abordamos. O historiador, quando se debruça sobre um jornal, quer seja regional, quer seja nacional, deve saber resistir aquilo a que chamaríamos a tentação factológica. A braços com uma informação tão ampla quanto diversificada, ele deve saber ultrapassar a mera reprodução descritiva dos eventos e das pessoas. Daí que este artigo não pretenda ser uma descrição das páginas da Gazeta, das suas notícias, de quem as fazia. Preocupam-nos questões mais amplas. Analisaremos as primeiras cinco décadas da existência da Gazeta das Caldas procurando descortinar as suas atitudes e comportamentos face ao poder local, procurando avaliar em que medida é que ela se coloca ao lado da Câmara e demais instituições do Concelho ou, pelo contrário, funciona como obstáculo ou adversário da sua política. No fundo, trata-se aqui de saber se um jornal, que durante a maior parte do período que estudamos é único no concelho, se associa directamente aos segmentos da elite local que vão detendo o poder, ou escapa à sua alçada e age de forma autónoma.

1ª fase da vida da Gazeta: 1925-1936

A evolução do jornal caldense no período compreendido entre 1925 e 1975 pode dividir-se em várias fases no decorrer das quais ele experimenta uma orientação noticiosa diversa, quer no que respeita à política local, quer no que respeita à política nacional. Analisemos mais de perto o que se passa na primeira fase da sua vida que balizamos entre 1925 e 1936.

Nestes primeiros onze anos a característica principal do jornal é o seu pendor fortemente regionalista. Desde o número inicial que a Gazeta apresenta o subtítulo de “jornal regionalista”. Na declaração de intenções aí publicada os responsáveis pelo jornal proclamam-no livre em absoluto de toda a política de partidarismos”, afirmando que ele “procurará servir os interesses da região, chamando a si todas as ideias (…) que concorram para o seu progresso incessante” 2.

A Gazeta das Caldas é criada para servir um grupo específico dentro da elite local de Caldas da Rainha, “uma pleíade brilhante de mocidade” como o próprio jornal lhe chama, que domina as principais instituições locais: a Câmara Municipal, a Comissão de Iniciativa e a Associação Comercial e Industrial. É esse grupo que escreve a Gazeta neste período. Assim é óbvio que o jornal funcione como porta voz dos seus anseios e aspirações e da sua acção concreta no seio da comunidade: “A Gazeta das Caldas, jornal regionalista (…) é, por assim dizer, o porta voz de todos que amam esta região. A sua acção ao lado da Câmara Municipal, da Comissão de Iniciativa e das Associações locais (…) muito há-de contribuir para o progresso de uma das mais belas regiões do País”3. Pode-se dizer que contribuiu, de facto, para esse progresso. Vive-se em Caldas da Rainha uma época de expansão e de optimismo, testemunhada pela sua elevação a cidade em 1927.

Concluímos, portanto, que a Gazeta alinha, de modo inequívoco, com as principais instâncias do poder e com o segmento da elite política local que nesta altura as domina. Aliás, prova cabal do que acabamos de dizer, um dos elementos do seu corpo redactorial é o próprio Presidente da Câmara, José Saudade e Silva.

Não é o golpe militar de 28 de Maio que vem alterar, pelo menos de um modo imediato, a linha editorial da Gazeta e a sua orientação regionalista. Ela permanecerá inalterável até 1936. De facto, a Gazeta das Caldas mantém, ao longo destes onze anos, a sua postura de quase completo alheamento aos problemas nacionais. São acima de tudo os problemas locais e regionais que lhe interessam e que ocupam a maioria das suas páginas4.

Repentina e laconicamente, em Novembro de 1936 “esta” Gazeta escreve as suas “Últimas Palavras”5, indicando que passará a ser dirigida por novas mãos e expressando o seu desejo de que a nova administração prossiga a orientação regionalista que desde o início havia caracterizado o jornal.

2ª fase: 1936-1946

Contudo, com a mudança de direcção em 1936 o jornal entra numa nova fase da sua vida. Os ventos de Maio chegavam finalmente ao jornal, reflectindo o clima de crispação fascizante que se vivia por todo o País, nesse ano de 1936. Os dez anos que decorrem até 1946, de um modo mais genérico até ao final da guerra, constituem por isso uma segunda fase na vida da Gazeta das Caldas, que se torna um jornal de cariz vincadamente nacionalista6. 0 periódico caldense vai ser transformado num orgão ao serviço do Estado Novo e da União Nacional nas Caldas da Rainha7 . O regionalismo irá desaparecer de modo quase abrupto apesar das promessas do novo director, Botelho Moniz, em “seguir a orientação que lhe foi dada pelos seus ilustres fundadores (…) isto é, uma orientação regionalista”8.

Na verdade, as notícias sobre a cidade e o concelho ocupam agora um espaço bastante menor em cada edição do jornal. Em seu lugar surge-nos uma abundante propaganda de cariz nacionalista: artigos ou páginas dedicados ao elogio da acção e dos valores políticos de Salazar e de Carmona; editoriais ou artigos de opinião onde se procede a uma cerrada propaganda anticomunista; largo espaço reservado a notícias de comícios e outras actividades promovidas pela Legião Portuguesa, sobretudo através dos artigos assinados por França Borges, futuro director do jornal.

França Borges assume a direcção do periódico caldense a 10 de Março de 1938. 0 mais destacado membro da Legião Portuguesa na cidade imprime a Gazeta, durante os quatro anos em que a dirige, uma tónica definitivamente fascizante, de apoio ao Estado Novo, que se reveste, por vezes, de um cariz panfletário. Os vectores dominantes já nos anos de 36 a 38 com Botelho Moniz, consolidam-se e são levados a um ponto extremo. Aliás, o novo director não tem pejo, antes faz questão, em definir, no seu Programa em poucas palavras”, a orientação do jornal: “atacamos o comunismo por ser uma doutrina contra a pátria e anticristã (. . .) Integrado o nosso espírito na doutrina criada por Salazar, sob o alto comando de Carmona impomos a toda a nossa conduta futura, este conceito belo, expressivo, conciso e construtivo: Tudo pela Nação, nada contra a Nação!”9.

Como já vinha sendo hábito, de 38 a 42 a Gazeta procede a uma verdadeira apologia de Salazar e de Carmona, da obra do Estado Novo, da União Nacional, da Legião e da Mocidade Portuguesa, do anticomunismo e dos valores do nacionalismo. Salazar ocupa uma grande quantidade de primeiras páginas. A sua efígie e excertos de textos da sua autoria, dos seus discursos, ou pequenas citações são frequentemente incluídos. Continuam a ser privilegiados os artigos e notícias sobre a Legião e sobre a Mocidade, cuja morada coincide, curiosamente ou não, com a da Gazeta. Por outro lado, as comemorações dos centenários da Nacionalidade e da Restauração e a Exposição do Mundo Português em 1940 recebem um tratamento noticioso alargado e sempre em termos elogiosos. O mesmo acontece com o prolongamento regional da Exposição do Mundo Português, materializado, neste caso, pela realização da Exposição da Província da Estremadura, em Agosto de 1940 nas Caldas da Rainha. A propaganda eleitoral nas vésperas de eleições é também frequente. Em 1938 indica-se o voto no governo de Salazar, “como portugueses previdentes e justos amantes da Pátria e da Família”10.

O espaço concedido à informação local e regional é, sem dúvida, bastante diminuto. De facto, o posicionamento do jornal face ao poder local neste período prima pela ausência de informação directa. No entanto, as indicações que conseguimos obter não transmitem qualquer sinal de hostilidade. Muito pelo contrário o Presidente da Câmara, Júlio Lopes, editor do jornal desde 1938 é seu futuro director, é referido sempre em termos elogiosos, não fosse ele também o Presidente da Comissão Concelhia da União Nacional. O mesmo acontece aliás com Botelho Moniz, director do jornal de 36 a 38 e simultaneamente Administrador do Concelho ou, mais tarde, Vice-Presidente da Câmara.

Entretanto, sensivelmente a partir de 1944, e de novo com Botelho Moniz na direcção, a Gazeta parece começar a viver um período de crise. O jornal perde aos poucos a chama e o fulgor nacionalista que o caracterizaram nos anos imediatamente anteriores e torna-se por vezes desinteressante e falho de conteúdo. A crise da Gazeta parece ser sobretudo de cariz económico, digamos, uma crise do pós-guerra. O jornal deve ter atravessado um mau período financeiro como o provam as frequentes interrupções na sua publicação e a periodicidade incerta que o caracteriza desde finais de 1944. A Gazeta lamenta-se das dificuldades que na hora presente a pequena imprensa atravessa”11, dificuldades que estariam certamente na origem na suspensão da publicação do jornal em 1946.

3ª fase: 1948-1974

A Gazeta das Caldas só voltaria a ser editada em 1948. Este interregno marca, quanto a nós, a transição do jornal para uma nova fase da sua vida: até 1974 a tónica dominante da Gazeta será a síntese ou combinação entre uma renovada tendência regionalista, idêntica a dos primeiros anos da sua vida, e um verniz nacionalista que continua a cobrir as paginas do jornal e que faz com que ele nunca abandone a fidelidade ao regime vigente: “uma orientação (…) sempre em obediência a dois princípios que constituem o nosso ideal: servir uma nação remoçada e engrandecida por (…) Salazar e servir os interesses gerais de uma região”12.

O que significa esta mudança na orientação da Gazeta em termos do seu posicionamento face ao poder municipal e às elites locais? Trata-se de um reforço da sua ligação íntima com o segmento da elite local que controla o poder. A Gazeta continua a ser um jornal situacionista, mas o que a caracteriza doravante é, acima de tudo, a sua conexão com o grupo de notáveis locais, que domina as instituições políticas do Concelho e que, simultaneamente, dirige o próprio jornal. Já não é tanto o vinculo ao Estado Novo que sobressai mas sim o modo como o jornal se converte de novo num instrumento poderoso nas mãos desse sector da elite local que detém o poder político. Digamos que a Periferia readquire preponderância sobre o Centro, nas páginas do jornal caldense.

Apesar de tudo, esta poderosa oligarquia local que domina a Gazeta perde o controlo do poder na cidade durante a década de 50. É aqui que a ligação do jornal a esses homens se revela em toda a sua amplitude, sobrepondo-se, inclusivamente, a própria fidelidade ao regime e fazendo intervir a censura. De facto, em 1951 a Presidência da Câmara escapa àqueles que a controlavam habitualmente: o Estado Novo nomeará um homem vindo da capital do Distrito, o leiriense Fernando Pais de Almeida e Silva. A reacção do partido local faz-se sentir e em 1956 o Conselho Municipal, orgão local composto pelas personalidades mais importantes da cidade, rejeita as bases do orçamento da Câmara. A Gazeta das Caldas, onde pontificam os próprios elementos do Conselho Municipal, move então uma forte campanha contra o Presidente da Câmara. Fala-se no índice de deficiência que caracteriza a administração municipal”, em erros de administração” e em inércia e incúria municipal”. Carlos Saudade e Silva, então subdirector da Gazeta e também membro do Conselho Municipal, é quem vai mais longe, acusando directamente o próprio Governo de abandonar a nossa terra    (…) às mãos inábeis e inexperientes (…) de quem não sabe dirigir política e administrativamente os destinos locais, com desprestígio para o Estado Novo”13. A intervenção da censura era inevitável e é a própria Gazeta que declara que “por motivos de ordem superior, e contrários à nossa vontade não podemos publicar a continuação dos comentários aos ofícios camarários”14.

É muito óbvio aquilo que está em jogo: o sector da elite local que controlava o poder municipal sente-se usurpado de um cargo que habitualmente era sua pertença e reage violentamente através da imprensa local, que controla, ou melhor, que possui, contra a nomeação de um Presidente da Câmara estranho à cidade. O jornal desempenha o seu papel na perfeição, sendo um espaço onde as críticas à Câmara se sucedem e funcionando assim como uma arma poderosa na persecução das estratégias e objectivos políticos do segmento da elite local que o domina.

Só em 1960 a Gazeta respiraria de alivio Fernando Pais de Almeida e Silva termina o seu mandato O periódico caldense formula desde logo, votos para que o próximo Presidente da Câmara seja caldense. É-o, de facto: Botelho Moniz, antigo director da Gazeta. O jornal não esconde a sua satisfação elogiando o novo Presidente e pondo em destaque a  escolha do Governo Civil, por indicação do seu director Júlio Lopes: “será  talvez escusado definir a posição da Gazeta ante a escolha do governo até porque (…) cabe ao nosso director, exclusivamente, a responsabilidade da nomeação”15.

Durante o período que Botelho Moniz ocupa a presidência da Câmara, a Gazeta mantém uma posição relativamente crítica. No entanto, essa crítica não é feita já no tom hostil e desaprovador em que era feita anteriormente. Elogia-se, por vezes, o que é bem feito, embora não se deixe de apontar aquilo que é mal feito, ou que fique por fazer. Digamos que nesta década de 60, apesar da presença de Botelho Moniz à frente dos destinos da cidade, continua a não haver uma perfeita e total concordância entre o director da Gazeta das Caldas, que é agora Carlos Saudade e Silva, e o Presidente da Câmara. Das páginas da Gazeta transparece esse conflito, sinónimo de divergências no seio do próprio segmento da elite local que ocupa o poder. Nada se compara, porém, ao que se passará nos anos conturbados da década de 50. De certo modo, tudo havia voltado à normalidade pois, apesar das pequenas divergências a que fizemos referência, o poder local regressará às mãos do grupo que sempre o dominará durante o Estado Novo.

4ª fase: 1974…

O advento da Revolução do 25 de Abril de 1974 e a nova ordem política estabelecida trouxeram, como não podia deixar de ser, reflexos importantes para a Gazeta das Caldas. Uma vez mais, o jornal não fica alheio aos acontecimentos da vida nacional, sentindo-os de uma forma profunda. Daí que consideremos que o período pós-74 merece ser abordado como uma nova fase da sua vida.

O 25 de Abril começa por ser como que abafado das páginas da Gazeta, tal como o havia sido a tentativa frustrada dos militares caldenses a 16 de Março. É só em Maio que se notam os primeiros indícios da viragem que o jornal vai sentir. A Gazeta diz-nos que “o director deste jornal deu a um representante das forças democráticas caldenses garantias da integração imediata da Gazeta das Caldas no espírito e na acção da Junta de Salvação Nacional” e Carlos Saudade e Silva garante a introdução no periódico caldense da “estrutura adequada a torná-lo num arauto do povo”16.

Apesar disto, a 22 de Maio Carlos Saudade e Silva pede a exoneração do seu cargo à Empresa Gazeta das Caldas, proprietária do jornal, que convida para o substituir Adérito Amora. É a partir desta altura que a Gazeta é definitivamente integrada no processo de democratização em curso no País. O seu título é adquirido pela recém criada Cooperativa Editorial Caldense que se responsabiliza doravante pela sua publicação. Em Maio de 1975, Adérito Amora abandonará a direcção da Gazeta, assumida então pelo actual director José Luis de Almeida e Silva, que irá manter a mesma linha de orientação do jornal: “a linha amplamente democrática que o nosso jornal vem assumindo desde Maio de 74 não sofre alteração: continuamos a ser uma voz livre, ao serviço do povo e dos trabalhadores do concelho”17 .

De 1974  até  1976, aproximadamente, a Gazeta das Caldas caracteriza-se por ser um reflexo dos tempos que se viviam nessa altura. Imbuído dos ideais revolucionários que fermentavam na época e vivendo intensamente os acontecimentos do País, a Gazeta torna-se um jornal polémico, exaltado, agressivo e, por vezes, radical. Pela segunda vez durante a sua existência dissipa-se o vínculo profundo que o ligava a um segmento da elite política local. O jornal sucumbe ao peso das alterações vividas a nível nacional. Deixa de ser um “baluarte” da sua região, deixa de ser a arma e o suporte poderoso dos detentores do poder local.

Assim, durante esta fase, a orientação da Gazeta encontra-se subordinada aos próprios condicionalismos da vida nacional. São esses condicionalismos que se projectam no posicionamento do jornal em relação ao poder local. Só em Novembro de 1974 é que toma posse a primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal. A Gazeta havia aconselhado “à frente da Câmara do nosso concelho pessoas de comprovado espírito democrático (..) uma lista claramente democrática”18. Esta passa a ser a única exigência feita pelo jornal em termos de poder municipal. A Gazeta exime-se, inclusivamente, de avaliar a acção da Comissão, limitando-se a noticiar aqui e ali algumas obras empreendidas. Em termos locais o maior destaque é reservado para as actividades partidárias do concelho. São noticiados os primeiros comícios de partidos políticos na cidade e apresentados comunicados, tomadas de posição e notícias diversas da vida política local.

Conclusões

Em 1975 passavam, portanto, os primeiros 50 anos da vida do jornal. Foi esse período que escolhemos para limitar cronologicamente o presente estudo. Tal como explicitamos no início do nosso trabalho, o que pretendemos fazer foi uma análise da articulação do jornal com o poder e com as elites locais, sobretudo com o sector das elites que dominava as instituições do Concelho. A conexão entre o jornal e a conjuntura nacional foi igualmente focada, sobretudo nos momentos em que esta se tornou preponderante em relação aos rumos seguidos pela Gazeta das Caldas.

Assim, tivemos oportunidade ver como, durante o período final da primeira República e os anos iniciais do novo regime, a criação do jornal obedece a uma estratégia muito clara de um grupo de jovens regionalistas, que controla as principais instâncias de poder na cidade e que coloca o jornal ao serviço da sua causa. Depois, a definitiva consolidação do regime salazarista e os momentos de grande exaltação e crispação fascizante vividos na década de trinta, em contraste com o relativo alheamento da Gazeta das Caldas, fizeram com que o jornal mudasse de mãos. Nessa altura o seu vínculo as elites locais e ultrapassado pela ligação do jornal ao regime salazarista. A Gazeta das Caldas é então o orgão da União Nacional nas Caldas da Rainha. Mas, em 1916, uma nova alteração no rumo seguido pelo periódico caldense: tempo de crise para o jornal, interrupção da sua publicação e retomar da tradição regionalista dos primeiros tempos. De novo se assiste a uma quase perfeita simbiose entre o jornal e a oligarquia local, temporariamente usurpada do poder municipal, durante a década de 50, mas que o voltaria a ocupar já nos anos 60, após todo um processo de ataque e de critica que, como vimos, se materializou em grande parte nas páginas da Gazeta. Só o 25 de Abril trouxe alterações na orientação do jornal que alinha então com os valores saídos da Revolução, tornando-se um jornal democrático e pluralista, sem nenhum vinculo especial aos homens que assumem então o poder local. Ao longo de todo o período por nós estudado a Gazeta é, portanto, um jornal empenhado e comprometido. Seja na defesa das aspirações de jovens regionalistas, na consolidação do regime fascista, no apoio à elite local num complicado processo de reconquista do poder ou ainda na divulgação dos novos ideais libertados pela Revolução de Abril, a Gazeta é um jornal através do qual se sente o pulsar do seu tempo, é um jornal sempre envolvido, de uma forma ou de outra, com a sociedade que o rodeia e, muito especialmente, com o Poder.

Procedemos, portanto, a uma perspectivação histórica, com base num case-study, do problema que constituiu o nosso ponto de partida: as relações entre a imprensa e os diversos pólos de poder que a rodeiam. Não pretendíamos, evidentemente, chegar a uma resposta para este problema. Limitamo-nos a fazer uma breve incursão pelo passado, a buscar nele algumas pistas para a compreensão do presente. Se alguma conclusão trazemos ela é, sem dúvida, a da impossibilidade de alheamento da Imprensa face ao meio que a rodeia. A Imprensa deve ter um compromisso de seriedade e de honestidade para com a sociedade; mas, não pode perder em acutilância, em vivacidade e em envolvimento: deve elogiar ou criticar, apoiar ou desprezar, defender ou atacar, construir ou destruir, tomar partido por a ou por b nos problemas que envolvem o espaço por ela abrangido, porque até o seu próprio alheamento é, no fundo, uma tomada de posição. Quando se fala em relações entre Imprensa e Poder esta ideia ganha ainda uma maior consistência. Não é a Imprensa ela própria um Poder?

Luis Nuno Rodrigues,

Caldas da Rainha,

9 de Dezembro de l989.

1 – Dos vários estudos existentes sobre a imprensa local em Portugal apraz-nos destacar, pelas perspectivas adoptadas, alguns deles: para Almada, Alexandre M. Flores – A imprensa periódica almadense – séculos XIX e XX, Lisboa, 1985; para Portalegre, António Ventura – A importância das fontes jornalísticas na História Local – Portalegre no século XIX, Vila Nova de Gaia, 1983; para Santarém, o estudo de Jorge Custódio incluído em “As linhas de força da História Social de Santarém no século XIX” in Santarém. A cidade e os homens, Santarém, 1977; para Caldas da Rainha, o trabalho de João B. Serra intitulado “Um século de imprensa caldense – Jornais, Elites, Poder Local in Gazeta das Caldas, 3 de Maio de 1985.

2 – Gazeta das Caldas, 1 de Outubro de 1925, p.1.

3 – Idem, p.1.

4 – Para este primeiro período da Gazeta ver o estudo de João B. Serra em Gazeta das Caldas, 3 de Janeiro de 1986, pp.5-8, intitulado “A Gazeta das Caldas, 1ª fase: 1 de Outubro de 1925 – 31 de Outubro de 1936″.

5 – Gazeta das Caldas, 14 de Novembro de 1936, p.1

6 – A Gazeta ao assumir sua vertente situacionista alinha com a maioria dos jornais portugueses da altura. A.H. de Oliveira Marques informa-nos que, em 1934, cerca de 60% dos jornais portugueses eram situacionistas, enquanto que somente 22,7% eram de oposição e 17,4% se mantinham neutros. Cf. História de Portugal, vol. 3, 2ª ed., Lisboa, Palas Editores, 1981.

7 – Em 1931, Leiria era dos seis distritos do País onde existiam já comissões da União Nacional em todos os concelhos. Veja-se Arlindo M. Caldeira – “A União Nacional antecedentes, organização e funções” in Análise Social, nº 94, Lisboa, 1986

8 – Gazeta das Caldas 14 de Novembro de 1936. p.1

9 – Idem, 10 de Março de 1938, p.1

10 – Gazeta das Caldas, 20 de Outubro de 1938, p 1. Analisando o Diário de Notícias nos anos de 1939 e 1940, Fernando Rosas mostra-nos um quadro em tudo idêntico ao que viemos a constatar para a Gazeta das Caldas: “Nele sucedem-se como notícia dominante as inaugurações, paradas e juramentos legionários (…) as inúmeras e piedosas expressões de caridade pública (…) a glorificação do Império (…) a mobilização maciça para Fátima (…) Em suma, pouco pão, algum circo, muita fé e sobretudo ordem.”. Fernando Rosas – O Salazarismo e a Aliança Luso Britânica. Estudos sobre a política externa do Estado Novo nos anos 30 e 40. s I., Editorial Fragmentos, 1988, pp. 138-139.

11 – Gazeta das Caldas, 20 de Janeiro de 1945, p.1.

12 – Idem, 2 de Outubro de 1956 p. 1.

13 – Idem, 3 de Junho de 1958, p. 5.

14 – Idem, 2 de Junho de 1959, p. 1.

15 – Idem, 16 de Agosto de 1960, p. 1 .

16- Idem, 4 de Maio de 1974, p.1.

17- Idem, 3 de Maio de 1975, p.1.

18 – Idem, 7 de Agosto de 1974, p.1

PÁGINAS COM HISTÓRIA – A GAZETA DAS CALDAS

1ª FASE: 1 DE OUTUBRO DE 1925-31 DE OUTUBRO DE 1936

Por João B. Serra

FALSA PARTIDA

A primeira Gazeta das Caldas antecedeu em 3 anos aquela que acaba de perfazer o seu 60º aniversário. Tratava-se de um quinzenário. Surgiu a 8 de Outubro de 1922. Autoclassificava-se de “quinzenário noticiário, humorístico e desportivo”. Proprietários e directores eram João de campos e Abel Augusto dos Santos Simões. O cabeçalho era, como se pode ver pela reprodução junta, graficamente semelhante ao da actual Gazeta, aparecida em 1925.

Os propósitos enunciados pela redacção eram, nas suas próprias palavras, “fazer a propaganda do desporto, ser um pouco humorístico e dar… (aos leitores) as notícias mais pormenorizadas desta região: enfim, um bocadinho de cada coisa”. O projecto editorial era, segundo os seus responsáveis, modesto. “O corpo da redacção – escrevem – é formado por rapazes de 14 anos, jornalistas que buscam o ar livre dos campos e as flores da primavera”.

Na ficha técnica do nº1 figuravam como administrador João J. Pagero, como redactores F. Gouveia e F. Ferreira, como secretário de redacção J. Gualdino e como editor A.P. Simões. No nº2 há, porém, alterações: o editor passou a ser Carlos Gueifão de Oliveira e o secretário de redacção Hermínio M. Santos. A 1ª edição foi vendida a 20 centavos, mas a 2ª já o foi a 30. Os custos haviam ultrapassado as expectativas.

Aparentemente o jornal morreu logo após a sua 6ª edição, datada de 15 de Janeiro de 1923. Não encontrei nenhuma outra posterior a essa data.

O mais saliente facto noticioso da parca colecção disponível é a referência circunstanciada aos principais clubes desportivos da vila, na sua maioria exclusivamente virados para a prática do futebol. Eram eles então o Caldas Sport Club, o Caldas Sporting Club, o Lusitânia Sport Club Caldense, o Grupo Militar Oficial do 5, o Vitória Sport Caldenses, Onze Foot-Ball Club, o Oceano Sport Caldas, o Águia Sport Caldas.

Esta Gazeta, de efémera vida, parece ter tido relações estreitas com a Associação de Empregados de Comércio e Indústria caldense cujo presidente da Assembleia Geral era na altura Carlos da Silva Pardal, sendo presidente da Direcção e do Conselho Fiscal, respectivamente, Artur Valeriano dos Santos e António de Sousa Júnior.

“AO QUE VIMOS”

A 1 de Outubro de 1925, impressa (tal como a antecessora homónima) na tipografia Caldense de José da Silva Dias, sai a A Gazeta das Caldas. No cabeçalho, em complemento do título, uma classificação que se manteria até aos anos 40: “jornal regionalista”. Com sede nos pavilhões do Parque, a redacção compunha-se de José Saudade e Silva, José F. Fialho Júnior, António Montês, Manuel Carvalho, António Leitão e César Coelho da Silva. O administrador e editor era Guilherme Nobre Coutinho.

Na declaração de intenções inaugural, intitulada “Ao que vimos”, a Gazeta afirmava-se “livre, em absoluto, de toda a política de partidarismos” e manifestava o propósito de “servir os interesses da região, chamando a si todas as ideias, venham de onde vierem, que concorram para o seu progresso incessante”. Havia razões de optimismo, de acordo com o editorialista, pois “no seu horizonte, limpo, porventura, das nuvens borrascosas que o têm enegrecido, surge uma plêidade brilhante de mocidade que… enfileira na estrada do progresso e tenta arrancar da conhecida indiferença que por aí campeia, a terra que a viu nascer, ou que lhe tem, nobremente, servido de mãe”.

Pode talvez desde já afirmar-se que, esta sua primeira fase, a Gazeta foi o órgão desse grupo cujo projecto regionalista procurou que se revestisse de um carácter apartidário. O referido grupo, parcialmente acolhido aliás no próprio corpo redactorial, pontuava, desde 1924 na Câmara, na Comissão de Iniciativa, criada pela mesma altura, e na associação Comercial e Industrial. Nesse sentido, esperavam os responsáveis pelo novo semanário, que “a sua acção, ao lado da Câmara Municipal, da Comissão de Iniciativa e das Associações locais, no que elas de bom fizerem, muito há-de contribuir para o progresso duma mais belas regiões do nosso país”.

EVOLUÇÃO ORGÂNICA

A 7 de Fevereiro de 1926, Manuel Carvalho, aliás Manuel Augusto de Carvalho, advogado, abandona a Gazeta. O seu nome desaparece do cabeçalho, sendo substituído, a 28 do mesmo mês, pelo de António V. França Borges, na altura tenente no RI5.

Em Maio de 1926, a 15, e por imposição da lei de imprensa em vigor, ocorre uma alteração na orgânica do semanário. Guilherme Nobre Coutinho mantém as funções de administrador e editor, mas a lista dos membros do corpo redactorial é retirada. Em seu lugar, aparece justificada pelo jornal com o facto de António Leitão ser, de todos os redactores, o que se encontra menos sobrecarregado com outras funções.

Ao mesmo tempo, a sede da Gazeta passa dos pavilhões do parque para o Largo Dr. Barbosa, 17, 1º D., onde se manterá por largo tempo.

Presumivelmente António Leitão não se houve, no desempenho do cargo, de forma consensual, sendo certo que as circunstâncias terão deposto nas suas mãos um poder de influência na orientação do semanário relativamente acentuado. Não esqueçamos que nos encontrávamos num ano e um mês que teve um dia 28 a amanhecer em Braga com uma ditadura no ventre. Os meses seguintes foram de agitação política. A maior parte dos homens que tinham sido o suporte político da Gazeta viram-se arrastados pela nova situação.

António Montês foi o primeiro redactor a manifestar divergências com António Leitão, demitindo-se a 4 de Julho de 1926. A 23 de Agosto foi a vez de Nobre Coutinho que invocou razões pessoais para abandonar a administração. Tratou-se naturalmente, neste caso, de uma baixa de vulto. António Leitão acumulou os cargos de editor e director. Por pouco tempo. A 5 de Setembro de 1926, a Gazeta das Caldas suspende a publicação.

Ressurgirá, porém, 4 meses volvidos, a 1 de Janeiro de 1927, já com a indicação obrigatória de “visado pela comissão de censura”. Guilherme Nobre Coutinho regressa, agora nas funções de director. O novo administrador e editor é João da Silva cruz.

Até esta data, a colaboração assinada inclui, além dos nomes do corpo redactor principal: António Leitão. A escolha é editorial tem noms como os de Mário Gonçalves Viana, um dos mais prolixos e regulares colaboradores da Gazeta, Luis Teixeira, Tito de Sousa Larcher, Mendes Nazaré e Branco Lisboa. No campo literário, registe-se, com colaboração original, os nomes do romancista Tomás de Figueiredo e dos poetas Edmundo de Bettencourt e de José Régio.

A impressão que se colhe do conjunto das edições da Gazeta, entre 1927 e 1935 é a de que um figurino e um estilo editorial foi finalmente encontrado, após quase um ano de experiência. Dois notáveis jornalistas muito jovem um, o outro mais experiente, Luis Teixeira e Pires Machado, constituirão, com Guilherme Nobre Coutinho, a espinha dorsal do periódico caldense. Eles assinam os artigos de fundo e colaboração variada índole, sempre de invulgar qualidade e pertinência. A Gazeta atinge, sob o seu comando, momentos altos da sua vida como projecto jornalístico de uma comunidade. Assinam ainda colaboração vária, neste período, além de muitos dos nomes que vêm de 1925-1926, os de Teófilo Saguer, Hermínia Telles da Gama, Adriano da Conceição Carmo, José Pedro Ferreira e Joaquim Manuel Correia.

Na sua edição de 10 de Novembro de 1934, a Gazeta noticia a morte de Nuno Infante da Câmara, ocorrida a 7. Nuno Infante da Câmara – que nunca, até então, fora dado como colaborador e que, aparentemente, não desempenhava qualquer cargo no jornal – é referido como seu fundador. Será talvez legítimo supor que o seu contributo para a Gazeta tenha sido basicamente financeiro. O certo é Nuno Infante da Câmara, que na data do seu falecimento contava 66 anos, era um abastado proprietário ribatejano, em vale Figueira, no Cartaxo. Radicara-se nas Caldas precisamente em 1925. Uma filha sua casara nesta vila com Carlos Martins Pereira.

A 17 de Novembro, a Gazeta insere no cabeçalho a menção de Nuno Infante da Câmara como fundador. Pouco tempo depois tal menção figuraria já no plural, acrescida de outro nome. Precisamente o de Guilherme Nobre Coutinho.

Hospitalizado em Lisboa, em Dezembro de 1934, Guilherme Nobre Coutinho veio a falecer no Hospital da Estrela, após uma delicada intervenção cirúrgica, a 26 de Janeiro de 1935. A Gazeta noticia o infausto acontecimento a 2 de Fevereiro. Nobre Coutinho contava então 56 anos. Era escrivão de Direito, natural de S. João das Areias, concelho de Tábua. Uma sua filha casara, nas Caldas, com o tenente Ruben Gomes, membro da Comissão Administrativa da Câmara.

Em consequência, tem lugar uma nova alteração da orgânica interna do semanário. O editor e administrador, João da Silva Cruz, passa a acumular o cargo de director.

Entra-se numa espécie de interregno, embora a Gazeta mantenha integralmente o figurino anterior. Novos colaboradores, entretanto, despontam, regressando alguns que por razões profissionais ou outras se haviam afastado. Entre os primeiros, saliente-se José Bonifácio da Silva, Eurico Bonifácio da Silva, Virgílio Amaral e Paulino de Figueiredo. Entre os segundos, destaque para António Montês.

A 31 de Outubro de 1936, João da Silva Cruz, que era funcionário dos Correios, abandona o jornal. Fora nomeado chefe da estação telégrafo-postal de Viana do Castelo.

A Gazeta das Caldas entrou numa nova fase. A empresa foi adquirida por uma sociedade de que Augusto de Carvalho era o administrador. Ele será também o editor do semanário. João Artur Botelho Moniz ocupa o cargo de director. A edição da Gazeta de 28 de Novembro de 1936 inaugura um novo perfil gráfico, como se pode ver pela reprodução que acompanha este artigo. Como veremos, em próxima edição desta “Página de História”, inaugura também uma orientação diferente, uma mudança significativa de projecto jornalístico. Em certa medida, poder-se-á dizer que, 10 anos, depois, o 28 de Maio chega finalmente à Gazeta das Caldas. O seu regionalismo, mau grado as afirmações em contrário, já não será apartidário.

TEMAS E PROBLEMAS

O que, porventura, mais impressiona o leitor de hoje destes primeiros 11 anos da Gazeta das Caldas é a grande concentração dos temas e problemas trazidos às páginas do jornal e a extraordinária persistência posta na chamada de atenção dos poderes públicos para eles. A Gazeta surge como que absorvida por um conjunto de grandes desafios, face aos quais se não se pode nem deve deixar dispersar, como não pode nem deve deixar esquecer.

Tentaremos sumariá-los.

Cinco associações voluntárias caldenses são alvo de uma permanente e desvelada preocupação por parte da Gazeta. São elas a Misericórdia, à frente de todas as outras, o Lactário-creche Rainha D. Leonor, a Associação de Socorros Mútuos Rainha D. Leonor, o Orfeon Caldense e os Bombeiros. o semanário dispensou-lhes, sem um desfalecimento ou uma hesitação, indefectível apoio.

Outras tantas instituições locais constituíram o objecto preferencial de informação e atenção. Salvo uma excepção, a sua actividade recebeu da Gazeta aplauso e estímulo. Tratou-se da Câmara Municipal, do Hospital Termal, da Comissão de Iniciativa (que virá a ser designada por Comissão de Turismo), a Associação Comercial e Industrial e, depois de 1934, o Museu José Malhoa. No que respeita à Câmara Municipal, jamais a Gazeta deixou de patentear a José Saudade e Silva, Presidente da respectiva Comissão Executiva e, depois do 28 de Maio, Presidente da Comissão Administrativa, um inabalável crédito de confiança. esse crédito tinha efectivamente muito de pessoal.

Mais crítica será a atitude da Gazeta  para com a administração hospitalar. Ao tempo da gestão protagonizada pelo Major Oliveira Franco (1927-1931), o periódico não esconderá até uma crescente hostilidade, acompanhando nela, a evolução conflitual das relações entre o Hospital e a Câmara, a Associação Comercial e Industrial e a Comissão de Iniciativa. Em 1932, a Gazeta manifestará a sua concordância com proposta de José Saudade e Silva no sentido de entrega do Parque, Mata e Clube de Recreio à administração da Comissão de Iniciativa, da cedência do Hospital de Santo Isidoro à Misericórdia e da nomeação de uma Comissão Administrativa para o Hospital Termal constituída por um Presidente, nomeado pelo Ministro do Interior, e dois vogais, um em representação da Câmara Municipal e o outro em representação da Comissão de Iniciativa.

No período em análise, a Gazeta abordou ainda, de forma sistemática o que considerou as grandes necessidades do concelho. A respectiva definição foi naturalmente evoluindo não tenha registado mudanças bruscas.

Em 1925 e 1926, no tocante à vila, as carências apontadas são: mercado fechado, água canalizada, rede telefónica, fornecimento de energia e iluminação pública, a ausência de equipamentos básicos no bairro Além-da-Ponte. No que respeita à globalidade do concelho, as preocupações de maior relevância são: a ligação ferroviária Setil-Peniche, as estradas interregionais, o assoreamento da Lagoa de Óbidos, a degradação da praia da Foz do Arelho.

Em 1927, a elevação da vila a cidade parece introduzir novas ou pelo menos mais diversificadas exigências ao nível urbano. Entre elas, destacam-se a da construção dum novo bairro (ideia perfilhada pelo vereador Severino Lage, que o arquitecto Paulino Montês é encarregado de projectar), uma nova Igreja, mais escolas primárias e um estabelecimento para o ensino secundário e a atribuição às Caldas do estatuto de zona temporária de jogo.

No concelho, além das anteriores reivindicações, uma outra ganha audiência: mais escolas e mais professores, condição indispensável para o combate ao elevadíssimo índice de analfabetismo.

Em finais de 1928, a redacção da Gazeta redefine o que considera a prioridade da acção dos poderes públicos relativamente a Caldas da Rainha: liceu, telefones, linha Setil-Peniche, pavimentação das ruas, modernização do Hospital, melhoramento do Parque e da Mata, iluminação, instalação dos Correios em edifício próprio.

É provável que a atribuição do estatuto de cidade à vila criada por D. Manuel tenha originado uma reacção desfavorável por parte da sede do distrito, Leiria. Assim, em 1929, a Gazeta surge a apoiar a pretensão caldense de ver o concelho integrado no distrito de Lisboa. Tal pretensão era, aliás, na altura, comum a outros concelhos do sul do distrito de Leiria, como Peniche, Óbidos e Bombarral.

Nesse mesmo ano, dois serviços são inaugurados: a rede telefónica urbana e a água ao domicílio. Persistem os problemas restantes. A Gazeta acrescenta dois: novo edifício para a cadeia, criação de um museu.

A partir de 1930, faz entrada na Gazeta um problema que se arrastará durante anos e anos: o da estrada de Santa Catarina. Na cidade, entretanto, as instalações de certos serviços públicos, como o Tribunal, o Registo Civil e a Repartição da Fazenda tinham-se degradado ou mostravam-se cada vez mais insuficientes. Há quem proponha a aquisição, para tal efeito, do Hotel Lisbonense. A sugestão é bem recebida no semanário. Datam igualmente dos primórdios da década de 30 as preocupações com o trânsito na cidade. E ainda com a rede de esgotos urbanos.

Em 31,32, 33 o jornal repisa, semana a semana, estas necessidades. No último destes anos, surge também em defesa da pretensão do Nadadouro ser elevado a freguesia.

Em 1934 é, finalmente, criado o Museu José Malhoa. A partir de então, a Gazeta inscreve no seu rol de batalhas regionais, a batalha em prol da instalação do Museu em edifício próprio. Tal batalha aparece em paralelo com a criação duma Biblioteca Pública que deveria albergar-se num anexo do Museu. Continua a sua campanha por mais escolas e reparação das existentes. Reivindica ainda uma escola de ginástica para as crianças caldenses. Apoia a construção do Campo da Mata. Interessa-se pelo projecto de abertura da estrada da Barosa e respectiva urbanização. Advoga a urgência de conclusão do Bairro Maria Carolina. No final do ano, faz a resenha das grandes necessidades do concelho: conclusão das obras do Hospital, edifício dos Correios, edifício da Misericórdia, mercado fechado, edifício para as repartições públicas, luz eléctrica, escolas, desassoreamento da Lagoa, estrada de Santa Catarina.

Em 1935 volta a agitar o problema da nova Igreja, pede a extensão da rede telefónica às freguesias e a criação de uma Estação de Fruticultura. Lembra a degradação do Teatro caldense, do Parque e da Mata. Finalmente, em 18 de Abril de 1936, a redacção da Gazeta apela ao comércio local para que não deixe de se interessar pelas grandes causas do progresso das Caldas; a linha Setil-Peniche, a estrada de Santa Catarina, a Estação de Fruticultura, o edifício dos Correios, a luz eléctrica, as escolas, o Teatro, o concurso hípico, a avenida da Estação.

Existem, por um lado, iniciativas lançadas pela própria Gazeta das Caldas ou nela acolhidas e nas quais a sua direcção e redacção se empenhou com entusiasmo, embora com sucesso desigual.

Entre elas, avultam: a criação do Museu das Artes (como era designado nos anos 20 o que mais tarde viria a ser oficialmente chamado Museu José Malhoa) e o levantamento dum monumento à Rainha D. Leonor. Esta propostas surge ainda em 1925. A Gazeta abre uma subscrição pública nas suas páginas em 1927. O monumento, porém, só virá a ser oficialmente inaugurado em 1935, após peripécias diversas que rodearam a sua concepção e a escolha do local de implantação.

Outra subscrição pública aberta pela Gazeta foi a que teve lugar, por proposta de Guilherme Nobre Coutinho, secundado por Luis Teixeira e Luis Sangreman Proença, em favor das famílias dos deportados políticos pela Ditadura Militar. Anunciada a 17 de Janeiro de 1928, foi porém proibida pela Censura.

A criação de Branco Lisboa, apesar de aplaudida, não parece ter despertado vontades. A ideia surgirá mais tarde, em 1935, quando a Gazeta propõe a formação de uma Liga Regional Caldense. Também não foi bem sucedido o projecto de efectuar nas Caldas, em 1933, um congresso da Estremadura.

No campo das artes, sublinhe-se ainda a participação da Gazeta na homenagem nacional ao pintor José Malhoa, em 1928, e a organização que levou a cabo de dois salões de arte, durante este período: o primeiro em Outubro de 1928 e o segundo em Setembro de 1935.

REGIONALISMO APARTIDÁRIO

Já o disse atrás: a orientação da Gazeta nestes seus primeiros 11 anos de existência é de matriz regionalista. Tal regionalismo é entendido de forma linear: defesa intransigente do que se julga serem os interesses globais do concelho. A perspectiva desse juízo é, como também já acentuei, fortemente (se bem que não exclusivamente) institucional. Entre as instituições que a Gazeta reconhece como portadoras da legitimidade própria para definir quais são os interesses do concelho, está, em primeiro lugar, a Câmara Municipal, e, na Câmara, o seu Presidente, José Saudade e Silva.

Nesta ordem de ideias, o apartidarismo resulta de que para a Gazeta nenhuma corrente de opinião partidária se podia arrogar, no concelho, a uma equivalência nessa legitimidade. Tratava-se, afinal, de uma legitimidade pragmática, obtida pela eficácia da acção camarária, mas também sufragada pelo voto popular.

É certo que a Câmara, após o 28 de Maio, passou a ser da nomeação do Governo. Inclusivamente, o seu Presidente virá também a presidir à comissão concelhia da União Nacional. Será até deputado, na primeira legislatura do Estado Novo. Mas não é menos certo que a lista encabeçada por Saudade e Silva, a denominada “lista do concelho”, foi eleita, ainda ao tempo da República, em Abril de 1924 e reeleita em Janeiro de 1926, disputando o terreno aos partidos. Quase todos os seus membros são confirmados pela Ditadura, mas, nesse caso, eles já haviam passado, e pouco tempo antes, pela prova das urnas.

Ora, se tal lista se havia proclamado como lista apartidária, nada mais lógica que a Gazeta, projecto jornalístico saído do mesmo grupo e respectivos companheiros de estrada, se reclamasse de idêntico apartidarismo e continuasse a defender a sua manutenção, para lá das vicissitudes políticas do tempo.

Os cuidados postos pela Gazeta na preservação dessa imagem são abundantes e detectáveis à primeira vista. Absteve-se, antes como depois do 28 de Maio, de todo e qualquer noticiário político, mesmo quando de âmbito puramente concelhio. AS referências à situação emergente do golpe de estado de Gomes da Costa são discretas e, se não são de hostilidade, também não são de incondicional adesão. Por outro lado, colaboram na Gazeta alguns homens cujo republicanismo, embora conservador, era proverbial: Luis Teixeira (nesta fase), Joaquim Manuel Correia, Pires Machado, Branco Lisboa, José Pedro Ferreira.

Nos anos 30, quando se inicia o processo de institucionalização do Estado Novo e ganha corpo a divisa “quem não é por mim é contra mim”, a “neutralidade” da Gazeta pode inclusivamente assumir alguns laivos de rebeldia ou de inconformismo. Nem uma palavra se lê nas suas páginas de então sobre Salazar, a União Nacional, a Mocidade Portuguesa, a Legião. Nenhum comentário é desenvolvido à Constituição de 1933, apenas brevemente referia. Valeu-lhe o facto, por isso, algumas insinuações pouco lisonjeiras por parte do órgão oficial do regime, o Diário da Manhã, em 1933.

E se a Gazeta apoiou a eleição de Saudade e Silva e de Paulino Montês, nas listas da União Nacional, o partido único, em Dezembro de 1934, foi ainda por considerar, como escreveu, serem aqueles os melhores representantes das Caldas da Rainha na futura Assembleia Nacional.

J.B.S.

PÁGINAS COM HISTÓRIA – A GAZETA DAS CALDAS

1ª FASE: 1 DE OUTUBRO DE 1925-31 DE OUTUBRO DE 1936

Por João B. Serra

FALSA PARTIDA

A primeira Gazeta das Caldas antecedeu em 3 anos aquela que acaba de perfazer o seu 60º aniversário. Tratava-se de um quinzenário. Surgiu a 8 de Outubro de 1922. Autoclassificava-se de “quinzenário noticiário, humorístico e desportivo”. Proprietários e directores eram João de campos e Abel Augusto dos Santos Simões. O cabeçalho era, como se pode ver pela reprodução junta, graficamente semelhante ao da actual Gazeta, aparecida em 1925.

Os propósitos enunciados pela redacção eram, nas suas próprias palavras, “fazer a propaganda do desporto, ser um pouco humorístico e dar… (aos leitores) as notícias mais pormenorizadas desta região: enfim, um bocadinho de cada coisa”. O projecto editorial era, segundo os seus responsáveis, modesto. “O corpo da redacção – escrevem – é formado por rapazes de 14 anos, jornalistas que buscam o ar livre dos campos e as flores da primavera”.

Na ficha técnica do nº1 figuravam como administrador João J. Pagero, como redactores F. Gouveia e F. Ferreira, como secretário de redacção J. Gualdino e como editor A.P. Simões. No nº2 há, porém, alterações: o editor passou a ser Carlos Gueifão de Oliveira e o secretário de redacção Hermínio M. Santos. A 1ª edição foi vendida a 20 centavos, mas a 2ª já o foi a 30. Os custos haviam ultrapassado as expectativas.

Aparentemente o jornal morreu logo após a sua 6ª edição, datada de 15 de Janeiro de 1923. Não encontrei nenhuma outra posterior a essa data.

O mais saliente facto noticioso da parca colecção disponível é a referência circunstanciada aos principais clubes desportivos da vila, na sua maioria exclusivamente virados para a prática do futebol. Eram eles então o Caldas Sport Club, o Caldas Sporting Club, o Lusitânia Sport Club Caldense, o Grupo Militar Oficial do 5, o Vitória Sport Caldenses, Onze Foot-Ball Club, o Oceano Sport Caldas, o Águia Sport Caldas.

Esta Gazeta, de efémera vida, parece ter tido relações estreitas com a Associação de Empregados de Comércio e Indústria caldense cujo presidente da Assembleia Geral era na altura Carlos da Silva Pardal, sendo presidente da Direcção e do Conselho Fiscal, respectivamente, Artur Valeriano dos Santos e António de Sousa Júnior.

“AO QUE VIMOS”

A 1 de Outubro de 1925, impressa (tal como a antecessora homónima) na tipografia Caldense de José da Silva Dias, sai a A Gazeta das Caldas. No cabeçalho, em complemento do título, uma classificação que se manteria até aos anos 40: “jornal regionalista”. Com sede nos pavilhões do Parque, a redacção compunha-se de José Saudade e Silva, José F. Fialho Júnior, António Montês, Manuel Carvalho, António Leitão e César Coelho da Silva. O administrador e editor era Guilherme Nobre Coutinho.

Na declaração de intenções inaugural, intitulada “Ao que vimos”, a Gazeta afirmava-se “livre, em absoluto, de toda a política de partidarismos” e manifestava o propósito de “servir os interesses da região, chamando a si todas as ideias, venham de onde vierem, que concorram para o seu progresso incessante”. Havia razões de optimismo, de acordo com o editorialista, pois “no seu horizonte, limpo, porventura, das nuvens borrascosas que o têm enegrecido, surge uma plêidade brilhante de mocidade que… enfileira na estrada do progresso e tenta arrancar da conhecida indiferença que por aí campeia, a terra que a viu nascer, ou que lhe tem, nobremente, servido de mãe”.

Pode talvez desde já afirmar-se que, esta sua primeira fase, a Gazeta foi o órgão desse grupo cujo projecto regionalista procurou que se revestisse de um carácter apartidário. O referido grupo, parcialmente acolhido aliás no próprio corpo redactorial, pontuava, desde 1924 na Câmara, na Comissão de Iniciativa, criada pela mesma altura, e na associação Comercial e Industrial. Nesse sentido, esperavam os responsáveis pelo novo semanário, que “a sua acção, ao lado da Câmara Municipal, da Comissão de Iniciativa e das Associações locais, no que elas de bom fizerem, muito há-de contribuir para o progresso duma mais belas regiões do nosso país”.

EVOLUÇÃO ORGÂNICA

A 7 de Fevereiro de 1926, Manuel Carvalho, aliás Manuel Augusto de Carvalho, advogado, abandona a Gazeta. O seu nome desaparece do cabeçalho, sendo substituído, a 28 do mesmo mês, pelo de António V. França Borges, na altura tenente no RI5.

Em Maio de 1926, a 15, e por imposição da lei de imprensa em vigor, ocorre uma alteração na orgânica do semanário. Guilherme Nobre Coutinho mantém as funções de administrador e editor, mas a lista dos membros do corpo redactorial é retirada. Em seu lugar, aparece justificada pelo jornal com o facto de António Leitão ser, de todos os redactores, o que se encontra menos sobrecarregado com outras funções.

Ao mesmo tempo, a sede da Gazeta passa dos pavilhões do parque para o Largo Dr. Barbosa, 17, 1º D., onde se manterá por largo tempo.

Presumivelmente António Leitão não se houve, no desempenho do cargo, de forma consensual, sendo certo que as circunstâncias terão deposto nas suas mãos um poder de influência na orientação do semanário relativamente acentuado. Não esqueçamos que nos encontrávamos num ano e um mês que teve um dia 28 a amanhecer em Braga com uma ditadura no ventre. Os meses seguintes foram de agitação política. A maior parte dos homens que tinham sido o suporte político da Gazeta viram-se arrastados pela nova situação.

António Montês foi o primeiro redactor a manifestar divergências com António Leitão, demitindo-se a 4 de Julho de 1926. A 23 de Agosto foi a vez de Nobre Coutinho que invocou razões pessoais para abandonar a administração. Tratou-se naturalmente, neste caso, de uma baixa de vulto. António Leitão acumulou os cargos de editor e director. Por pouco tempo. A 5 de Setembro de 1926, a Gazeta das Caldas suspende a publicação.

Ressurgirá, porém, 4 meses volvidos, a 1 de Janeiro de 1927, já com a indicação obrigatória de “visado pela comissão de censura”. Guilherme Nobre Coutinho regressa, agora nas funções de director. O novo administrador e editor é João da Silva cruz.

Até esta data, a colaboração assinada inclui, além dos nomes do corpo redactor principal: António Leitão. A escolha é editorial tem noms como os de Mário Gonçalves Viana, um dos mais prolixos e regulares colaboradores da Gazeta, Luis Teixeira, Tito de Sousa Larcher, Mendes Nazaré e Branco Lisboa. No campo literário, registe-se, com colaboração original, os nomes do romancista Tomás de Figueiredo e dos poetas Edmundo de Bettencourt e de José Régio.

A impressão que se colhe do conjunto das edições da Gazeta, entre 1927 e 1935 é a de que um figurino e um estilo editorial foi finalmente encontrado, após quase um ano de experiência. Dois notáveis jornalistas muito jovem um, o outro mais experiente, Luis Teixeira e Pires Machado, constituirão, com Guilherme Nobre Coutinho, a espinha dorsal do periódico caldense. Eles assinam os artigos de fundo e colaboração variada índole, sempre de invulgar qualidade e pertinência. A Gazeta atinge, sob o seu comando, momentos altos da sua vida como projecto jornalístico de uma comunidade. Assinam ainda colaboração vária, neste período, além de muitos dos nomes que vêm de 1925-1926, os de Teófilo Saguer, Hermínia Telles da Gama, Adriano da Conceição Carmo, José Pedro Ferreira e Joaquim Manuel Correia.

Na sua edição de 10 de Novembro de 1934, a Gazeta noticia a morte de Nuno Infante da Câmara, ocorrida a 7. Nuno Infante da Câmara – que nunca, até então, fora dado como colaborador e que, aparentemente, não desempenhava qualquer cargo no jornal – é referido como seu fundador. Será talvez legítimo supor que o seu contributo para a Gazeta tenha sido basicamente financeiro. O certo é Nuno Infante da Câmara, que na data do seu falecimento contava 66 anos, era um abastado proprietário ribatejano, em vale Figueira, no Cartaxo. Radicara-se nas Caldas precisamente em 1925. Uma filha sua casara nesta vila com Carlos Martins Pereira.

A 17 de Novembro, a Gazeta insere no cabeçalho a menção de Nuno Infante da Câmara como fundador. Pouco tempo depois tal menção figuraria já no plural, acrescida de outro nome. Precisamente o de Guilherme Nobre Coutinho.

Hospitalizado em Lisboa, em Dezembro de 1934, Guilherme Nobre Coutinho veio a falecer no Hospital da Estrela, após uma delicada intervenção cirúrgica, a 26 de Janeiro de 1935. A Gazeta noticia o infausto acontecimento a 2 de Fevereiro. Nobre Coutinho contava então 56 anos. Era escrivão de Direito, natural de S. João das Areias, concelho de Tábua. Uma sua filha casara, nas Caldas, com o tenente Ruben Gomes, membro da Comissão Administrativa da Câmara.

Em consequência, tem lugar uma nova alteração da orgânica interna do semanário. O editor e administrador, João da Silva Cruz, passa a acumular o cargo de director.

Entra-se numa espécie de interregno, embora a Gazeta mantenha integralmente o figurino anterior. Novos colaboradores, entretanto, despontam, regressando alguns que por razões profissionais ou outras se haviam afastado. Entre os primeiros, saliente-se José Bonifácio da Silva, Eurico Bonifácio da Silva, Virgílio Amaral e Paulino de Figueiredo. Entre os segundos, destaque para António Montês.

A 31 de Outubro de 1936, João da Silva Cruz, que era funcionário dos Correios, abandona o jornal. Fora nomeado chefe da estação telégrafo-postal de Viana do Castelo.

A Gazeta das Caldas entrou numa nova fase. A empresa foi adquirida por uma sociedade de que Augusto de Carvalho era o administrador. Ele será também o editor do semanário. João Artur Botelho Moniz ocupa o cargo de director. A edição da Gazeta de 28 de Novembro de 1936 inaugura um novo perfil gráfico, como se pode ver pela reprodução que acompanha este artigo. Como veremos, em próxima edição desta “Página de História”, inaugura também uma orientação diferente, uma mudança significativa de projecto jornalístico. Em certa medida, poder-se-á dizer que, 10 anos, depois, o 28 de Maio chega finalmente à Gazeta das Caldas. O seu regionalismo, mau grado as afirmações em contrário, já não será apartidário.

TEMAS E PROBLEMAS

O que, porventura, mais impressiona o leitor de hoje destes primeiros 11 anos da Gazeta das Caldas é a grande concentração dos temas e problemas trazidos às páginas do jornal e a extraordinária persistência posta na chamada de atenção dos poderes públicos para eles. A Gazeta surge como que absorvida por um conjunto de grandes desafios, face aos quais se não se pode nem deve deixar dispersar, como não pode nem deve deixar esquecer.

Tentaremos sumariá-los.

Cinco associações voluntárias caldenses são alvo de uma permanente e desvelada preocupação por parte da Gazeta. São elas a Misericórdia, à frente de todas as outras, o Lactário-creche Rainha D. Leonor, a Associação de Socorros Mútuos Rainha D. Leonor, o Orfeon Caldense e os Bombeiros. o semanário dispensou-lhes, sem um desfalecimento ou uma hesitação, indefectível apoio.

Outras tantas instituições locais constituíram o objecto preferencial de informação e atenção. Salvo uma excepção, a sua actividade recebeu da Gazeta aplauso e estímulo. Tratou-se da Câmara Municipal, do Hospital Termal, da Comissão de Iniciativa (que virá a ser designada por Comissão de Turismo), a Associação Comercial e Industrial e, depois de 1934, o Museu José Malhoa. No que respeita à Câmara Municipal, jamais a Gazeta deixou de patentear a José Saudade e Silva, Presidente da respectiva Comissão Executiva e, depois do 28 de Maio, Presidente da Comissão Administrativa, um inabalável crédito de confiança. esse crédito tinha efectivamente muito de pessoal.

Mais crítica será a atitude da Gazeta  para com a administração hospitalar. Ao tempo da gestão protagonizada pelo Major Oliveira Franco (1927-1931), o periódico não esconderá até uma crescente hostilidade, acompanhando nela, a evolução conflitual das relações entre o Hospital e a Câmara, a Associação Comercial e Industrial e a Comissão de Iniciativa. Em 1932, a Gazeta manifestará a sua concordância com proposta de José Saudade e Silva no sentido de entrega do Parque, Mata e Clube de Recreio à administração da Comissão de Iniciativa, da cedência do Hospital de Santo Isidoro à Misericórdia e da nomeação de uma Comissão Administrativa para o Hospital Termal constituída por um Presidente, nomeado pelo Ministro do Interior, e dois vogais, um em representação da Câmara Municipal e o outro em representação da Comissão de Iniciativa.

No período em análise, a Gazeta abordou ainda, de forma sistemática o que considerou as grandes necessidades do concelho. A respectiva definição foi naturalmente evoluindo não tenha registado mudanças bruscas.

Em 1925 e 1926, no tocante à vila, as carências apontadas são: mercado fechado, água canalizada, rede telefónica, fornecimento de energia e iluminação pública, a ausência de equipamentos básicos no bairro Além-da-Ponte. No que respeita à globalidade do concelho, as preocupações de maior relevância são: a ligação ferroviária Setil-Peniche, as estradas interregionais, o assoreamento da Lagoa de Óbidos, a degradação da praia da Foz do Arelho.

Em 1927, a elevação da vila a cidade parece introduzir novas ou pelo menos mais diversificadas exigências ao nível urbano. Entre elas, destacam-se a da construção dum novo bairro (ideia perfilhada pelo vereador Severino Lage, que o arquitecto Paulino Montês é encarregado de projectar), uma nova Igreja, mais escolas primárias e um estabelecimento para o ensino secundário e a atribuição às Caldas do estatuto de zona temporária de jogo.

No concelho, além das anteriores reivindicações, uma outra ganha audiência: mais escolas e mais professores, condição indispensável para o combate ao elevadíssimo índice de analfabetismo.

Em finais de 1928, a redacção da Gazeta redefine o que considera a prioridade da acção dos poderes públicos relativamente a Caldas da Rainha: liceu, telefones, linha Setil-Peniche, pavimentação das ruas, modernização do Hospital, melhoramento do Parque e da Mata, iluminação, instalação dos Correios em edifício próprio.

É provável que a atribuição do estatuto de cidade à vila criada por D. Manuel tenha originado uma reacção desfavorável por parte da sede do distrito, Leiria. Assim, em 1929, a Gazeta surge a apoiar a pretensão caldense de ver o concelho integrado no distrito de Lisboa. Tal pretensão era, aliás, na altura, comum a outros concelhos do sul do distrito de Leiria, como Peniche, Óbidos e Bombarral.

Nesse mesmo ano, dois serviços são inaugurados: a rede telefónica urbana e a água ao domicílio. Persistem os problemas restantes. A Gazeta acrescenta dois: novo edifício para a cadeia, criação de um museu.

A partir de 1930, faz entrada na Gazeta um problema que se arrastará durante anos e anos: o da estrada de Santa Catarina. Na cidade, entretanto, as instalações de certos serviços públicos, como o Tribunal, o Registo Civil e a Repartição da Fazenda tinham-se degradado ou mostravam-se cada vez mais insuficientes. Há quem proponha a aquisição, para tal efeito, do Hotel Lisbonense. A sugestão é bem recebida no semanário. Datam igualmente dos primórdios da década de 30 as preocupações com o trânsito na cidade. E ainda com a rede de esgotos urbanos.

Em 31,32, 33 o jornal repisa, semana a semana, estas necessidades. No último destes anos, surge também em defesa da pretensão do Nadadouro ser elevado a freguesia.

Em 1934 é, finalmente, criado o Museu José Malhoa. A partir de então, a Gazeta inscreve no seu rol de batalhas regionais, a batalha em prol da instalação do Museu em edifício próprio. Tal batalha aparece em paralelo com a criação duma Biblioteca Pública que deveria albergar-se num anexo do Museu. Continua a sua campanha por mais escolas e reparação das existentes. Reivindica ainda uma escola de ginástica para as crianças caldenses. Apoia a construção do Campo da Mata. Interessa-se pelo projecto de abertura da estrada da Barosa e respectiva urbanização. Advoga a urgência de conclusão do Bairro Maria Carolina. No final do ano, faz a resenha das grandes necessidades do concelho: conclusão das obras do Hospital, edifício dos Correios, edifício da Misericórdia, mercado fechado, edifício para as repartições públicas, luz eléctrica, escolas, desassoreamento da Lagoa, estrada de Santa Catarina.

Em 1935 volta a agitar o problema da nova Igreja, pede a extensão da rede telefónica às freguesias e a criação de uma Estação de Fruticultura. Lembra a degradação do Teatro caldense, do Parque e da Mata. Finalmente, em 18 de Abril de 1936, a redacção da Gazeta apela ao comércio local para que não deixe de se interessar pelas grandes causas do progresso das Caldas; a linha Setil-Peniche, a estrada de Santa Catarina, a Estação de Fruticultura, o edifício dos Correios, a luz eléctrica, as escolas, o Teatro, o concurso hípico, a avenida da Estação.

Existem, por um lado, iniciativas lançadas pela própria Gazeta das Caldas ou nela acolhidas e nas quais a sua direcção e redacção se empenhou com entusiasmo, embora com sucesso desigual.

Entre elas, avultam: a criação do Museu das Artes (como era designado nos anos 20 o que mais tarde viria a ser oficialmente chamado Museu José Malhoa) e o levantamento dum monumento à Rainha D. Leonor. Esta propostas surge ainda em 1925. A Gazeta abre uma subscrição pública nas suas páginas em 1927. O monumento, porém, só virá a ser oficialmente inaugurado em 1935, após peripécias diversas que rodearam a sua concepção e a escolha do local de implantação.

Outra subscrição pública aberta pela Gazeta foi a que teve lugar, por proposta de Guilherme Nobre Coutinho, secundado por Luis Teixeira e Luis Sangreman Proença, em favor das famílias dos deportados políticos pela Ditadura Militar. Anunciada a 17 de Janeiro de 1928, foi porém proibida pela Censura.

A criação de Branco Lisboa, apesar de aplaudida, não parece ter despertado vontades. A ideia surgirá mais tarde, em 1935, quando a Gazeta propõe a formação de uma Liga Regional Caldense. Também não foi bem sucedido o projecto de efectuar nas Caldas, em 1933, um congresso da Estremadura.

No campo das artes, sublinhe-se ainda a participação da Gazeta na homenagem nacional ao pintor José Malhoa, em 1928, e a organização que levou a cabo de dois salões de arte, durante este período: o primeiro em Outubro de 1928 e o segundo em Setembro de 1935.

REGIONALISMO APARTIDÁRIO

Já o disse atrás: a orientação da Gazeta nestes seus primeiros 11 anos de existência é de matriz regionalista. Tal regionalismo é entendido de forma linear: defesa intransigente do que se julga serem os interesses globais do concelho. A perspectiva desse juízo é, como também já acentuei, fortemente (se bem que não exclusivamente) institucional. Entre as instituições que a Gazeta reconhece como portadoras da legitimidade própria para definir quais são os interesses do concelho, está, em primeiro lugar, a Câmara Municipal, e, na Câmara, o seu Presidente, José Saudade e Silva.

Nesta ordem de ideias, o apartidarismo resulta de que para a Gazeta nenhuma corrente de opinião partidária se podia arrogar, no concelho, a uma equivalência nessa legitimidade. Tratava-se, afinal, de uma legitimidade pragmática, obtida pela eficácia da acção camarária, mas também sufragada pelo voto popular.

É certo que a Câmara, após o 28 de Maio, passou a ser da nomeação do Governo. Inclusivamente, o seu Presidente virá também a presidir à comissão concelhia da União Nacional. Será até deputado, na primeira legislatura do Estado Novo. Mas não é menos certo que a lista encabeçada por Saudade e Silva, a denominada “lista do concelho”, foi eleita, ainda ao tempo da República, em Abril de 1924 e reeleita em Janeiro de 1926, disputando o terreno aos partidos. Quase todos os seus membros são confirmados pela Ditadura, mas, nesse caso, eles já haviam passado, e pouco tempo antes, pela prova das urnas.

Ora, se tal lista se havia proclamado como lista apartidária, nada mais lógica que a Gazeta, projecto jornalístico saído do mesmo grupo e respectivos companheiros de estrada, se reclamasse de idêntico apartidarismo e continuasse a defender a sua manutenção, para lá das vicissitudes políticas do tempo.

Os cuidados postos pela Gazeta na preservação dessa imagem são abundantes e detectáveis à primeira vista. Absteve-se, antes como depois do 28 de Maio, de todo e qualquer noticiário político, mesmo quando de âmbito puramente concelhio. AS referências à situação emergente do golpe de estado de Gomes da Costa são discretas e, se não são de hostilidade, também não são de incondicional adesão. Por outro lado, colaboram na Gazeta alguns homens cujo republicanismo, embora conservador, era proverbial: Luis Teixeira (nesta fase), Joaquim Manuel Correia, Pires Machado, Branco Lisboa, José Pedro Ferreira.

Nos anos 30, quando se inicia o processo de institucionalização do Estado Novo e ganha corpo a divisa “quem não é por mim é contra mim”, a “neutralidade” da Gazeta pode inclusivamente assumir alguns laivos de rebeldia ou de inconformismo. Nem uma palavra se lê nas suas páginas de então sobre Salazar, a União Nacional, a Mocidade Portuguesa, a Legião. Nenhum comentário é desenvolvido à Constituição de 1933, apenas brevemente referia. Valeu-lhe o facto, por isso, algumas insinuações pouco lisonjeiras por parte do órgão oficial do regime, o Diário da Manhã, em 1933.

E se a Gazeta apoiou a eleição de Saudade e Silva e de Paulino Montês, nas listas da União Nacional, o partido único, em Dezembro de 1934, foi ainda por considerar, como escreveu, serem aqueles os melhores representantes das Caldas da Rainha na futura Assembleia Nacional.

J.B.S.

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