«Arte Portuguesa – História essencial» de Paulo Pereira

Publicado a 10 de Fevereiro de 2012 . Na categoria: Breves Crónicas semanais Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Este volume compacto de 872 páginas tem como antepassado o livro «2000 anos de Arte em Portugal» publicado em 2000 pelo mesmo autor. Onze anos depois, todo o texto foi reescrito. O autor procura alcançar uma síntese, rejeitando o simplismo e, ao mesmo tempo, a excessiva erudição.
O ponto de partida é a Gruta do Escoural: «A primeira descoberta de arte paleolítica foi feita em 1963, na Herdade da Sala (Montemor-o-Novo), em pleno Alentejo. O tiro de uma pedreira revelou uma gruta que os operários exploraram, surpreendendo um cenário reverencial de ossadas e restos cerâmicos».
O ponto de chegada são os anos 80 e alguns dos artistas da época: «Joaquim Bravo, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa, João Cutileiro, Rui Sanches, José Pedro Croft, Gérard Castello-Lopes, Paulo Nozolino, Eduardo Batarda, Pedro Calapez, Pedro Casqueiro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Jorge Molder, João Penalva, Paula Rego e Joana Vasconcelos».
Ao todo são centenas de ilustrações em 16 capítulos na busca da síntese, actualizando conhecimentos essenciais, incontornáveis e fundamentais. O mesmo é dizer – um manual de consulta imediata. Vejamos um exemplo: «O corpo pobre e despojado (o exterior) contrasta com a alma preenchida dos dons de Deus, rica e feérica (o interior). Nossa Senhora dos Cardais é um caso extremo, oferecendo por fora fachadas chãs e indistintas para depois se abrir num coro celestial de cor e celebração».
(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Revisão: João Pedro Tapada)

José do Carmo Francisco

«Sauvons le Roi du Plateau»

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Quando há algumas semanas aqui falámos dos apertados regulamentos que os diversos municípios da região metropolitana de Montreal estão em vias de implantar no sentido de reduzir a emanação de partículas finas na atmosfera, resultantes da combustão de madeira e carvão nas nossas lareiras, estávamos longe de imaginar voltar ao assunto nesta altura. E ainda menos, que os nossos velhos amigos Michel, Mónica e a filha de ambos, Katja (escrito assim mesmo, apesar das origens algarvias), fizessem parte do enredo
Como já mencionámos anteriormente também, os melhores e mais válidos embaixadores de Portugal no Canadá, são indubitavelmente os profissionais que confecionam os gostos e os sabores da nossa cozinha (não foi por acaso que o ministro Álvaro ventilou a possibilidade de Portugal exportar os saborosos pastéis de nata), representada em Montreal por variadíssimos restaurantes, dos mais caros e refinados  aos pequenos mas simpáticos negócios de tipo familiar. É dentro do grupo dos últimos, que se enquadra o restaurante do Michel. Está situado em pleno centro do bairro português, defronte da nossa mais importante igreja (a igreja católica de Santa Cruz, edificada de raíz, e cujo complexo inclui uma escola portuguesa que lecciona o ensino primário e secundário aos luso-descendentes, e um pequeno bloco de apartamentos para os nossos idosos autónomos) e no coração do Plateau Mont-Royal. Quando aqui chegámos em finais de 1975, este bairro era apenas  para nós, o local onde estava maioritariamente localizada a nossa comunidade, e onde se agrupavam praticamente todos os nossos comércios. No nosso caso pessoal, e por questões culturais, era ainda o local onde, praticamente na altura da nossa chegada, um dos monstros da música e da poesia da nossa geração, e de todas as gerações – Leonard Cohen -, tinha acabado de adquirir uma residência, que aliás ainda mantém. E era, e é ainda afinal, o local onde desenvolvemos praticamente toda a nossa actividade profissional.
Assistimos assim, ao vivo e in-loco, à transformação dum bairro, na altura habitado sobretudo por operários, e onde o custo da habitação era facilmente acessível a um imigrante português acabado de chegar a este maravilhoso país. Costumávamos dizer que, estando na grande cidade, tínhamos acesso aos pequenos prazeres da vida da aldeia.
No entanto, durante a última década, enquanto os filhos da primeira geração de imigrantes portugueses se iam a pouco e pouco estabelecendo nos arredores norte e sul da ilha de Montreal, onde o custo dos terrenos e das casas se mantinha mais acessível, começou a aparecer no «nosso» bairro um novo tipo de habitantes, gentes ligadas às artes e às profissões liberais, aos quais se juntou uma verdadeira vaga de imigrantes franceses, com profissões que eram o antípoda daquelas que os portugueses ainda exerciam maioritariamente na altura.
Este novo tipo de fauna, com hábitos mais requintados e outras exigências relativamente à protecção do meio ambiente, foi pouco a pouco impondo os seus usos e costumes. A vida do bairro foi-se assim paulatinamente alterando, e os diversos restaurantes lusitanos que faziam, e fazem ainda, os melhores frangos no churrasco da cidade, para continuarem em actividade foram obrigados a fazer grandes investimentos, em filtros de protecção, que impedem que as nocivas partículas de carbono se percam na atmosfera sem qualquer tratamento, indo a longo prazo provocar custos altíssimos em despesas de saúde, depois de continuadamente respiradas pelos humanos. A alguns metros do Roi du Plateau, outros populares restaurantes da zona, O Romados, e o Doval, adivinhando que a prazo, as penalidades em que incorriam se não se conformassem aos regulamentos municipais, seriam suficientes para encerrar as suas fontes de rendimento, optaram atempadamente por investir os elevados montantes necessários. Deixaram assim de poluir o ar ambiente, e os seus frangos assados no carvão, continuam tão saborosos como anteriormente.
Os nossos amigos do Roi du Plateau, apesar de repetidos avisos por parte da Câmara Municipal, por motivos que desconhecemos, não conseguiram que os seus assadores respeitassem as exigências municipais. Pelo que soubemos, os montantes a investir, da ordem da centena de milhar de dólares, foram certamente a razão principal. Só que os 53.000 dólares da coima entretanto recebida podem significar o fecho puro e simples do pequeno e simpático restaurante.
Apesar da imediata reacção de descontentamento de muitos clientes e amigos através das redes sociais, no sentido de anular tão pesada sanção, estamos convictos de que as nossas autoridades farão ouvidos moucos dos mesmos, pois segundo expressaram, apenas anularão a multa depois de feitos os necessários investimentos. Não estando por dentro das decisões de gestão do nosso amigo Michel e dos seus colaboradores, a única coisa que podemos fazer nesta altura é contribuirmos de forma mais assídua com a nossa presença no seu pequeno comércio, apesar de sabermos que o fumo que continua a sair da chaminé da sua churrascaria, vai poluir o ar que respiramos. Sabemos igualmente que a coima não tem por finalidade fechar os restaurantes portugueses do Plateau, mas sim obrigar os seus proprietários a investir, e a continuarem em actividade, servindo os seus clientes, criando postos de trabalho e pagando os seus impostos e taxas. Valerá a pena o investimento? A isto, apenas os responsáveis do Roi du Plateau podem responder.

J.L. Reboleira Alexandre

A semana do Zé Povinho

Publicado a 2 de Dezembro de 2011 . Na categoria: Actuais Crónicas semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

O Fado de Lisboa foi considerado Património Imaterial da
Humanidade da UNESCO, numa reunião do VI Comité Intergovernamental da Organização da Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, realizada no passado fim-de-semana em Bali, na Indonésia.

Esta distinção universal, que coloca o Fado no mesmo pedestal do Flamengo, do Tango e do Mariachi (música tradicional mexicana), vai dar à canção típica portuguesa um maior relevo no contexto internacional.

Zé Povinho saúda aquela organização internacional, que com a sua escolha vem contrariar as mais recentes avaliações de organismos internacionais em relação a Portugal. Nos últimos tempos as notícias vindas de fora sobre Portugal eram só de descida no ratings, até chegar ao nível lixo.

Felizmente que a UNESCO não seguiu as tendências e distinguiu a canção portuguesa, que vencida a controvérsia depois da queda do anterior regime, quase que unificou no fado o consenso nacional.

Caldas da Rainha, apesar de não ter muita tradição no fado (nesse aspecto Lisboa e Coimbra dão cartas), orgulha-se de ter no seu património marialva e castiço o famoso Fado das Caldas, dedicado à própria cidade, da autoria de um dos mais conceituados compositores portugueses.

Por tudo isto Zé Povinho destaca o papel desempenhado por toda a família fadista nesta candidatura, e especialmente o seu grande animador, o musicólogo Rui Vieira Nery.

A Assembleia da República esteve a votar nos últimos dias o Orçamento Geral do Estado para 2012, e como vinha sendo anunciado, vai penalizar duramente todos os portugueses, mesmo em áreas em que o mínimo senso não aconselharia tal coisa.

Como se não bastassem os drásticos cortes dos subsídios de férias e de Natal para os funcionários públicos e pensionistas (alguns destes como uma prenda mixuruca de última hora), e os prometidos não aumentos dos impostos, afinal estes vão cair duramente sobre todos os portugueses, bem como sobre os turistas estrangeiros de quem se espera até uma boa ajuda para Portugal sair do buraco em que caiu.

Mas o primeiro ministro, Dr. Passos Coelho, cometeu um erro fatal contra um dos sectores económicos do país que mais emprego cria em todo o território nacional e que vai penalizar irreversivelmente toda uma fileira em que Portugal tinha competitividade e que tinha potencial de crescimento.

Passar de 6% para 23% a taxa de IVA da restauração, num sector de alto valor acrescentado, que utiliza a maioria dos seus inputs de origem nacional, é uma decisão que só lembra a gente insensível e que deve pretender aumentar a fuga ao fisco.

Passos Coelho devia compreender isto, e tal como manteve o IVA do vinho à taxa de 13% para não desagradar aos produtores do precioso líquido, também importante para a economia portuguesa, vai obrigar que a água ou pão consumidos à mesa de um restaurante paguem 23%. Ainda se distinguisse a fiscalidade dos produtos em função da sua qualidade dietética… mas assim não.


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