«A escrita a postos» de Júlio Conrado

Publicado a 11 de Maio de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Júlio Conrado (n.1936) além de crítico literário é romancista, poeta e dramaturgo. Publica desde 1963 e neste livro da colecção «Ponte Velha» juntou a novela «Era a Revolução» (1977) e a peça de teatro «O corno de oiro» (2009) além de uma selecção de ensaios dos livros «Ao sabor da escrita» (2001) e «Nos enredos da crítica» (2006).
Começando por falar de si («Fiz crítica por puro prazer, sem nunca ter deixado de produzir ficção e até alguma poesia e teatro. Sempre me sussurraram que isso era contra-natura») Júlio Conrado acaba por criticar o trabalho dos lobbys que «criam uma relação espúria entre edição, televisão, jornais, prémios literários, saltando por cima da opinião crítica responsável, suplementos nos jornais onde a literatura é subalternizada pelo cinema, pelas exposições de artes plásticas, pela dança, etc, pouco cuidado e muitos equívocos na promoção de autores nacionais emergentes, racismo de idades, best sellers de nulidades que trabalham na televisão, coisas assim».
A novela «Era a Revolução» parte de uma discordância pessoal («Nós não acreditamos em indivíduos, acreditamos na História») e desenvolve-se no social: «manifestações em cadeia, petardos, tiros, greves, desavenças entre irmãos, ajustes de contas, velhos ódios de súbito acesos». Há por ali (1974-1975) muito oportunismo («O A. Perneta jamais pôs os pés numa assembleia sindical durante os fascismo») mas alguma esperança: «Odeio todos os déspotas. Por isso, os campónios, revejo-os de carabinas melancólicas nas mãos espiando a materialização da esperança – quem se recorda?»
«O corno de oiro» é uma comédia em 3 actos sobre o tema do marido enganado que junta sete figuras saídas de livros: Ana Karenina, Dom Casmurro, Madame Bovary, O amante de Lady Chatterley, Resposta a Matilde, O primo Basílio e Dona Flor e os seus dois maridos. Depois de recolher ensaios sobre John le Carré, Hélder Macedo, Jorge de Sena e Fiama Hasse Pais Brandão, esta miscelânea conclui: «Língua e literatura não são, todavia, batatas. A personalidade europeia conquista-se a partir da sábia gestão das diferenças e não de harmonizações mais ou menos congeminadas por burocratas nos gabinetes de Bruxelas».
(Edição: Escrituras Editora, Organização e prólogo: Florinao Martins, Capa: Carola Trimano, Direcção: Raimundo Gadelha)

José do Carmo Francisco

Lesões ligadas ao trabalho

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Actividade profissional pode afectar sistema musculoesquelético

As Lesões Musculoesqueléticas Ligadas ao Trabalho são doenças relacionadas com a actividade profissional que condicionam os movimentos e podem afectar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Muitas são as pessoas que sofrem este tipo de lesões, causadas por um conjunto de traumatismos repetidos, cumulativos e de tensão muscular. São principalmente resultado de movimentos ou de posturas forçadas, exercidos consecutivamente ao longo dos anos. Os principais factores de risco são o trabalhar em posições dolorosas ou mantidas durante muito tempo, carregar cargas pesadas, executar tarefas “curtas” e repetidas ou movimentos repetidos, o stress, o desconhecimento e falta de atenção aos primeiros sinais de lesão. Os quadros clínicos mais frequentes são o síndrome do túnel cárpico, tenosinovites, tendinites, bursites, dores musculares e perturbações articulares provocadas por desequilíbrio muscular e/ou alteração do eixo articular (lombalgias, cervicalgias, ombro doloroso, entre outros).
A Fisioterapia tem um papel fundamental no tratamento e prevenção das Lesões Musculoesqueléticas Ligadas ao Trabalho, recorrendo a terapias manipulativas, técnicas de relaxamento, agentes electro-fisicos, aconselhamento e/ou colocação de apoios externos (como ligaduras ou ortoteses), exercícios terapêuticos, tratamentos em meio aquático e ensino de estratégias para minimizar os riscos, corrigir a função e/ou adaptar o ambiente de trabalho. Através do aconselhamento e ensino de exercícios e posturas a assumir, o fisioterapeuta pode ter um papel preponderante na prevenção deste tipo de patologias.

As empresas podem também elas assumir um papel preventivo importante, recorrendo aos serviços de fisioterapia, no sentido de divulgar junto dos seus trabalhadores mais e melhor informação sobre este tema.

Marco Clemente
Fisioterapeuta e Osteopata

Homenagem ao amigo Manel

Publicado a 4 de Maio de 2012 . Na categoria: Breves Correio Leitores Opinião . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Manuel Ferreira, Manel Russo, ou simplesmente Manel. Por cá, e entre nós, conhecido como “Manel d’Ovar”, tendo sido aliás dessa forma que fizemos questão de espalhar a boa nova da sua recuperação através de uma noite em sua homenagem, na ASCP (Associação Cultural e Social Paradense) no dia 31 de Março. O amigo Manel protagonizou durante muitos anos noites de fados, de variedades, farras entre amigos e madrugadas repletas de boa energia. Muito fado, muita música de intervenção, muitas anedotas e muitas histórias. Acima de tudo, um contador de histórias – faladas, expressadas e cantadas.
O Manel sofreu há cerca de dois anos e meio um AVC, que o colocou numa posição bastante vulnerável. Contudo, e superando todas as expectativas da comunidade médica, assistimos a uma recuperação lenta mas incrível, sob o ponto de vista de evolução e da boa disposição com que ele enfrenta uma luta diária. Está neste momento dependente na sua mobilidade, mas totalmente livre de qualquer preconceito ou complexo de inferioridade, como de resto sempre nos habituou.

Mais sobre Homenagem ao amigo (…)

«Averbamento» de Paulo da Costa Domingos

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Em 1986 assinei na Revista Seara Nova o artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» no qual me referia a Paulo da Costa Domingos e à sua poesia.  Tal como em Asfalto, 4, Patchwork e Violeta Náutica, a sua poesia actual não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido/ arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder / estudar, casar, arranjar emprego».
Quem escreve «deportado pelo novo regime ortográfico» sente-se «expulso do coração da fala» e só pode repudiar as «Hordas despojadas de privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome / à espera de acolhimento / num patrão».
Quando o real não anda nem desanda («A igualdade não fez de nós / indivíduos: transformou-nos numa frota») então a única saída é quando «Julga-se que a lógica é / salvar os ricos e esperar/ que eles deixem cair / dos seus sacos a abarrotar / de dinheiro, algum / na praça pública.» Ou dito de outra maneira: «Talvez por decreto d´óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado.»
Impresso na cor e nas linhas do velho papel selado, o livro exercita um contraponto da prosa perante a poesia: «Pouco ou nula lealdade nos obrigamos ou nos é exigida fora de recintos (e selectivamente) como a pátria, o clube desportivo, o apego à família. As epidemias talvez passem ao lado: o emprego, garante máximo do futuro, resta assegurá-lo sem fazer ondas.»
(Editora: & etc)

José do Carmo Francisco

Mais de 70 dias de greve académica

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Quando no dia 9 do passado mês de Março, falávamos aqui das razões que mantinham os  estudantes do Ensino Superior e Colegial do Québec, numa greve geral, que na altura durava já há cerca de duas semanas, estávamos longe de imaginar que nos finais de Abril, numa altura em que por norma, a chamada Sessão Escolar de Inverno (esta vai de Janeiro a Maio, a outra, de Outono, vai de Agosto a Dezembro) termina, voltássemos ao tema.
Assim e pela primeira vez na história da nossa Província (logo aqui, onde a história é tão mal tratada), uma greve geral académica perdura há mais de 70 dias. Nas nossas velhas recordações das experiências do género em Portugal, quando frequentávamos os bancos da escola, normalmente as greves, com cavalaria (que nada tinha a ver com a Real Polícia Montada Canadiana), e polícia de choque à mistura, não ultrapassavam alguns dias, e circunscreviam-se a escolas específicas, nunca a toda a Academia. Depois de 25 de Abril de 1974, uma vez que saímos de Portugal em 1976, não pudemos, como é lógico, seguir atentamente todos os movimentos estudantis dos alunos lusitanos, mas duvidamos sinceramente, até pela falta de cultura democrática do povo português, que alguma greve académica fosse além dos «nossos» alguns dias. Se estamos equivocados, pedimos as nossas desculpas, mas não cremos!
Este é mais um dos elevados custos de viver numa democracia velha de várias gerações, onde os governos estão habituados a lidar com este tipo de situações, resultantes das lutas dos trabalhadores ou dos legítimos anseios da classe estudantil. A forças policiais estão no entanto, diariamente e em grande número nas ruas das nossas cidades, no sentido de evitar males maiores, como actos de vandalismo nos edifícios públicos, nas vitrinas dos nossos comércios, ou outros desmandos da autoria dos jovens adultos.
O nosso actual Primeiro Ministro (para quem está menos familiarizado com o funcionamento deste país, nunca é demais repetir que, o ensino, sendo de domínio provincial, é gerido a partir da cidade de Québec, capital da província, e não de Otava, capital do Canadá) velha raposa da política, ao não aceder desde o princípio da crise, aos pedidos dos estudantes, esperava obviamente que estes acabassem por se cansar, e,  com o aproximar do final do ano lectivo, decidissem voltar às salas de aulas. Só que os estudantes, assembleia após assembleia, e através dum sistema de votos por braço no ar, numa época em que todos os jovens possuem computador pessoal e telefone celular, a inexistência de voto secreto acabou por causar algum receio nos alunos que, por diversas razões, se opõem a esta greve. As três organizações representativas da quase totalidade dos estudantes, podem assim, continuar a considerar as suas acções como sendo legítimas. É esta forma arcaica de votação, digna dos velhos partidos comunistas do século XIX, que coloca a maioria da população contra os dirigentes estudantis, e o governo, consciente disso,  pouco ou nada tem feito para resolver o problema.
Neste momento, já se coloca a hipótese de, pura e simplesmente anular a sessão académica, pois o prolongamento da mesma para finais de Junho irá colidir com os direitos dos professores e outros funcionários, às férias de Verão. Para não falarmos dos custos astronómicos para todos nós, contribuintes, que tal ocasionaria, com todos os funcionários dos estabelecimentos de ensino a trabalharem em época normal de férias.
O Governo já deu no entanto alguns sinais de abertura, estando disposto a mudar alguns dos pressupostos inicialmente estabelecidos para o aumento gradual das propinas, que deveriam ser implementadas ao longo de cinco anos, prazo este que foi entretanto alargado para sete anos. Não foi no entanto o suficiente para que a organização estudantil mais radical, mostrasse disposição para aceitar a proposta da ministra da educação, que desde o início tem demonstrado alguma abertura, ao contrário do seu chefe, o Primeiro Ministro, que é reconhecido pela sua inflexibilidade negocial. Nesta altura está já, aliás, a dar alguns sinais de impaciência, e poderá eventualmente solicitar eleições gerais antecipadas na província, sabendo à priori que sairá delas com um governo consolidado, pois todas as previsões apontam no sentido de ser de novo o seu partido, o Partido Liberal do Québec, a ser chamado para governar, o que, a suceder, lhe daria um poder ainda mais forte.
A população duvida no entanto que isso resolva o quer que seja. É que depois de uma greve que já ninguém entende, e em que, hoje em dia as pessoas já não tentam perceber qual das partes tem ou não razão, se os estudantes, se o Governo. Hoje apenas todos se perguntam o porquê, de, após 11 longas semanas de greve geral académica ilimitada, com manifestações de rua quase diárias, esta situação se mantém, com a generalidade dos Campus Universitários da Província do Québec a viver na maior confusão, e em que é normal verem-se piquetes de greve à entrada de algumas escolas mais radicais, na sua habitual função de  impedir a entrada de algum estudante mais afoito, no interior dos diversos estabelecimentos de ensino superior quebequenses.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Ao Luís Barreto, da Secla

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Há homens que por mais que tenham realizado, se mantêm numa total penumbra, fugindo dos holofotes, por iniciativa própria, dando tudo com uma generosidade enorme, colocando acima de tudo o interesse da coletividade.
Fala-vos do meu grande amigo Luís Barreto.
O Luís Barreto da Secla. Era assim que era conhecido. São vários irmãos, todos jogavam ténis, todos são Barreto, logo a distinção para identificar-mos o Luís era acrescentando o nome da empresa onde trabalhou e que tanto amou. Se alinhavo estas letras é porque perdi um amigo. Alguém que eu muito admirava.Conheci o Luís Barreto, quando entrei no CCC (Conjunto Cénico Caldense), vindo do teatro da Escola Rafael Bordalo Pinheiro.
Percebi no imediato, como era afetuoso, para com os mais novos.
O brilho que deixava irradiar dos seus olhos, demonstrando uma alegria enorme por ver chegar gente nova ao CCC, onde a sua mulher a Estefânia Barreto, representava como poucos e tantos êxitos deu às Caldas.
Foi no tempo da sua Presidência, que se sentiu uma maior abertura à participação dos jovens, inclusive a dançar, pelas mãos do Zé Correia.
Foi no seu tempo de Presidente da Direção, que um jovem como eu participou no elenco diretivo.
Foi no seu tempo que um grupo de jovens dentro do CCC, escreveu, encenou e representou a peça “Caldas Dia a Dia”, que originou grande burburinho, tendo sido proibida de voltar a ser representada pela Pide.
Foi com ele à frente do CCC, que jovens levaram à cena a peça de teatro, proibidíssima, de Bertolt  Brecht, “A Exceção e a Regra”.
Incomodado pela pide, nunca se queixou, nunca se exibiu, mantendo aquele registo que sempre o caracterizou.
O Luís Barreto, obreiro de uma nova era que então se iniciou no CCC, teimava em não aparecer, em não se mostrar, preferindo o princípio de que tudo o que acontece nunca é obra de um mas de um grande número de pessoas.
Devo ao Luís Barreto, ter-me dado a possibilidade de ir mais alem, de ver aumentado em mim a curiosidade.
A ele se deve a recuperação da Azenha, na Quinta de St. António, transformando aquele espaço, naquilo que todos desejávamos que fossem as nossa vidas, um espaço livre e de liberdade.
Com ele assisti ao vivo na Azenha do Inferno, ao Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, ao Padre Fanhais, Luís Cila, José Jorge Letria, Fausto, e tantos outros.
Aquele espaço foi na minha juventude a possibilidade do meu encontro com uma certa rebeldia saudável, onde pontificavam artistas, escritores, pintores, e outros intelectuais.
Foi lá que pude começar a apreciar obras plásticas do Ferreira da Siva, Figueiredo Sobral e outros.
Foi lá que pela primeira vez vi um poster com a imagem do Che Guevara.
Este espaço fantástico onde a poesia pela voz da Estefânia Barreto me abria horizontes de esperança.
Mas o Luís Barreto tinha ainda um grande coração solidário. Eu mesmo fui também beneficiário dessa veia solidária e amiga.
Cada um de nós cresce envolto num casulo cujas referências nos marcam pela vida fora.
Tenho-me como um homem feliz, pois as referências que estão no meu coração são muitas.
O Luís Barreto não foi para mim um pai, nem um irmão mais velho, nem um protetor, nem um educador, nem um mestre, ele foi o que sempre quis ser, um anónimo, um espaço, um ser, que tínhamos que descobrir, que tínhamos de encontrar, para depois desfrutar para toda a vida.
Adeus meu grande Amigo. Um grande beijo.

Jorge Sobral

Falsas informações no call center da CP

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Sou portador do cartão de assinatura Nº 15967 Caldas da Rainha/Óbidos e uso todos os dias o comboio para ir e vir do local de trabalho.
Ontem, dia 17/04/2012, cerca das 22h20, liguei para s linha de apoio 808208208 da CP, a confirmar se o comboio regional 6411 Meleças/Caldas da Rainha estava previsto realizar-se, uma vez que a greve de maquinistas está em curso.
O assistente que me atendeu disse: “este comboio não está previsto realizar-se esta semana!”
Fiquei muito surpreendido, mas aguardei na estação de Óbidos pois pretendia ir até às Caldas da Rainha.
Contrariamente ao que o assistente referiu, o comboio 6411 2não previsto”, chegou a Óbidos às 22h48. Pontual!
Nesse comboio vinha o revisor Nuno Trindade, ao qual relatei  a situação, ou seja, a informação dada pelo call center. O revisor aconselhou-me a reclamar por escrito.
Tendo ligado cerca das 22h20, a essa hora já o assistente tem a possibilidade de verificar e informar-me da realização ou não do comboio, visto o mesmo ter saído de Meleças às 21h09.
Assim sendo, muitos utentes não usam este e outros horários, por motivo das informações erradas dadas ao utente através da linha de apoio.
Não é a primeira vez que esta situação acontece e não pode continuar assim. A CP perder passageiros, tendo passe ou não!
Rui Pinheiro

NR- Gazeta das Caldas deu conhecimento desta carta à CP, que nos fez chegar a seguinte resposta:

A Linha de atendimento 808208208 tem informação sobre as previsões de perturbações nos serviços de Longo Curso e Regional, por via da greve convocada pelo Sindicato Nacional de Maquinistas que se encontra a decorrer.
Estas informações, como já referido, devem ser consideradas como previsões, sendo as mesmas actualizadas frequentemente no decorrer da greve.
No entanto, é importante referir que a greve é uma situação resultante do exercício de um direito consagrado na Lei e que transcende a vontade da Empresa, sendo a adesão à mesma uma decisão pessoal dos colaboradores. Por essa razão, existem alguns casos em que, comboios que não estariam previstos ser realizados, acabem por circular devido à comparência de última hora de colaboradores, acontecendo também situações contrárias, que nos são impossíveis de evitar.

Ana Maria Portela

O 25 de Abril contado à minha neta Constança

Publicado a 27 de Abril de 2012 . Na categoria: Breves Correio Leitores Opinião . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Olá, minha linda,
Hoje acordei com vontade de te contar uma história.
Nesta história não há fadas, nem príncipes e princesas com vestidos compridos cheios de brilhantes.
Nesta história há um povo e no meio dele, dois jovens, um homem e uma mulher, que tiveram a felicidade de viver os episódios que te irei narrar.
Mas toda a história tem de ter um princípio não é?
Então vamos lá.
Era uma vez uma terra, bonita, cheia de árvores que se enchiam de flores das mais diversas cores na Primavera, no Verão com os frutos mais suculentos e apetitosos, quando chegava o Outono as folhas transformavam-se em finas partículas com a cor de ouro e com a chegada dos frios e chuvas do Inverno estas caíam, deixavam as árvores despidas para se banharem à vontade e ficarem limpas e cheias de força para a época em que as flores nelas tornariam a nascer.
Uma terra com mar e praia, aonde se poderiam construir na areia os castelos dos nossos sonhos. Rios lindos que desciam das montanhas, alguns vinham de terras distantes, e entravam nas cidades para nos alegrarem, para serem admirados, para nos alimentar com a sua água límpida e boa.
Nesta terra tão bonita vivia um Povo triste.
Estás a perguntar como era possível as pessoas estarem tristes quando estavam rodeadas de coisas tão belas, não é verdade?
Como em todas as histórias, e esta não é diferente, também havia gente má, e era gente má, chamemos a eles “Tiranos”, que governava aquele Povo.
Estes senhores, os Tiranos, queriam todas as riquezas para eles. As jóias de princesas eram para as mulheres, os carros para eles, os brinquedos bonitos eram para as filhas deles, até na comida e nos doces tinham o mesmo comportamento. Tinham casas muito lindas, com piscinas e grandes jardins. E tinham exércitos para os proteger, vários tipos de exército, como mais à frente hás-de compreender, isto porque tinham medo que o Povo um dia se revoltasse e exigisse poder comer também daquela comida boa, ou que os filhos pudessem brincar com bonecas tão bonitas como as que eles tinham.
O Povo, chamemos a todos os outros Povo, andava cansado, triste, com medo desses exércitos, para um dos quais os filhos eram obrigados a ir, porque havia uma guerra lá muito longe, em outras terras que diziam que também faziam parte daquele País.
O Povo trabalhava todo o dia, saía muito cedo de casa e só voltava à noitinha. Tinha muito pouco dinheiro, até para ter comida em casa suficiente para se alimentar. Nem todos os meninos do Povo iam à escola, o que fazia com que houvesse muita gente que não sabia ler e escrever. Os pais estavam sempre cansados porque tinham de trabalhar fora muitas horas e recebiam muito pouco dinheiro, as mães andavam tristes porque não podiam comprar comida boa, ou roupa suficiente ou ainda brinquedos para os filhos.
Só para tu teres uma ideia como os Tiranos eram malvados, o Povo não podia ler, aqueles que sabiam ler, todos os livros que queriam, o mesmo se passava com a música ou o cinema.
No meio deste Povo, triste como já te mostrei, havia uns Jovens, lutadores, aguerridos, corajosos, que acreditavam que tudo poderia mudar, que um dia haveria igualdade entre todos.
Estes Jovens também tinham medo dos Tiranos, mas como eram muito corajosos lá inventavam maneiras de não serem apanhados e maltratados pelos Tiranos.
Como estes Jovens não queriam ir para a tal guerra que havia lá muito longe, ligaram-se, falaram também com os Jovens que pertenciam ao tal exército dos Tiranos e que estavam condenados a irem para essa guerra.
Falaram muito, planearam tudo com muito cuidado e baixinho para que os Tiranos os não ouvissem. Não foi fácil, eles tiveram de ter muito trabalho para que tudo viesse a correr bem.
No dia em que viram que estava tudo tão bem combinado, em que os Jovens acreditaram que nada podia falhar, eles resolveram fazer uma Revolução.
Foi num dia de Primavera, no dia dos anos da tua mãe, que nessa época ainda não tinha nascido.
E sabes como eles começaram essa Revolução?
Com música. É verdade, com música.
A música era o sinal que a Revolução tinha começado. Primeiro cantou-se na rádio a canção “E depois do adeus”, que, para quem estivesse ligado à Revolução, nas noutras partes da cidade, queria dizer que a Revolução tinha começado, depois foi outra canção chamada “Grândola Vila Morena”, que queria significar que estava tudo a correr bem.
Quando o Povo se apercebeu que o exército que tinha os seus filhos, os Jovens, tinha vindo para a rua para tirar o poder aos Tiranos, juntou-se a eles.
As ruas encheram-se de pessoas, os Tiranos encheram-se de medo, ficaram com o medo que dantes o Povo tinha. Uns fugiram, outros foram presos.
O Povo nas ruas abraçava-se, cantava, sorria, finalmente tinha-se tornado feliz, finalmente tinha-se tornado livre.
E a partir desse 25 de Abril, os pais já não estavam tão cansados porque começaram a trabalhar menos horas e a receber mais ordenado, porque não tinham de dar aos Tiranos grande parte dele. As mães podiam comprar melhor comida para as refeições e uma ou outra gulodice para os filhos, estes já podiam ir para as escolas, já iam tendo os seus brinquedos bonitos.
A guerra que havia lá longe, naquelas terras que diziam que pertenciam a este país deixou de existir e também aqueles povos se tornaram felizes.
Os Jovens já podiam ler o que queriam, escolher as músicas que queriam ouvir e ver os filmes que lhes interessavam.
E quando falo, no princípio desta narrativa, de dois jovens que viveram nesta época, refiro-me ao teu avô Fred e a mim, que na altura festejámos com muita alegria estes acontecimentos.
Foi desse 25 de Abril, que saiu o Portugal aonde tu vives agora. Por isso é importante termos um cravo vermelho por perto, recordando uma revolução que foi feita com flores e que por isso ficou conhecida como a Revolução dos Cravos.
Hoje, o dia é dupla comemoração, pois a tua Mamã também faz anos. E se há Revoluções importantes na vida das pessoas o nascimento de uma filha, com as qualidades que a tua Mamã tem, é a maior felicidade que alguém pode ter.
É um dia feliz.
Um beijo da
Avó Guida

Margarida Sousa

Corria branda a noite; o Tejo era sereno
a riba silenciosa; a viração subtil;
a Lua, em pleno azul, erguia o rosto ameno;
no Céu, inteira paz; na terra pleno Abril.
Tomás Ribeiro, in Judia

Era um enorme jardim. Flores, claro, imensas; cravos – vermelhos e de outras cores, alguns até raiados; rosas, também variadas e, as mais lindas de todas, para meu gosto – princípe-negro; e outras, muitas outras sardinheiras, alecrim, alfazema, salvas, papoilas, urzes, tojos, margaridas, violetas, amores-perfeitos…
O jardim era tão grande, tão grande que até tinha serras, lagos, era atravessado, em vários sentidos, por rios com muitos peixes e era banhado pelo mar em extensas praias que quase o contornavam.
Era mesmo um “jardim à beira-mar plantado”.
Também havia imensas árvores de fruto: olivais, laranjais, pinhais, soitos (castanheiros), amendoais, figueirais, assim como, de certo modo dispersos, carvalhos, nogueiras, choupos e plátanos. Lindas “alamedas de plátanos”.
No Verão as searas ondulavam com as brisas suaves fazendo lembrar o mar em dias calmos.
Ora, o descuido, a despreocupação, digamos mesmo o desleixo e o acolhimento consentiram que aquela bela natureza se fosse degradando.
Os rios, outrora límpidos, ficaram sujos e malcheirosos – os peixes morreram todos – as matas e os jardins foram sendo invadidos por heras, silvas, grama e outras ervas daninhas…até capim, planta exótica.
Só vos digo que estes jardins estavam de tal modo impenetráveis e mal tratados que se as plantas falassem e as árvores chorassem seria um colossal coro de lamentações.
Até que…até que…há sempre alguém que diz: Basta!
Dinis, disse o Afonso, procura o Vasco, telefona ao Nuno e ao Henrique, chama o João e o Sérgio, há que conversar…
São precisos homens e mulheres de boa vontade que queiram recuperar estes nosso espaço e permitir que o amanhã – nossos filhos e netos – o desfrutem plenamente.
Decidido!
Toda a gente se entusiasmou, todos ao trabalho – bons e maus, feios e bonitos, católicos, protestantes e ateus, brancos, pretos e ciganos – por que não? O jardim não deveria ser de todos e para todos?
Veio a Catarina com a sua foice, o José com a enxada, o Manuel com a tesoura de poda, o Alberto com a foice roçadoira, o Luís com um serrote, a Mafalda com um sacho, o Rui trouxe um ancinho e uma forquilha, o Bruno um podão, o Diogo um carro de mão, a Sofia e a Maria, um tractor, o Rafael uma pá grande e a Isabel, um pequenina, a Rosa uma sachola, o Hélder uma picareta. O Vasco trouxe uma grua enorme para as zonas mais difíceis, o Jorge e o Eduardo trouxeram um dumper.
- Vamps limpar isto, vamos limpar isto tudo…vamos conquistar o futuro, dizia o Militão com uma gadanha na mão.
Ei-los, povo unido, a caminho de uma nova aurora – Veleda (minha companheira de carteira), Agostinho, Maia, Ana, Bernardo, Raul, Cristina, Tomás, Paula, Vanda, Frederico, Fabião, Vítor, Otelo, Norton, Carolina, Ângelo, Flausino e Cláudio, Sócrates, Humberto, Gedeão, Mário, Álvaro, Alcina, Natália, Rosalina, Viriato, enfim vieram todos, todos não, quase todos. Embora atrasado, veio a correr o Gil, super suado e afogueado, dizendo:
- Eu sou o futuro, eu também quero trabalhar!
- Mãos à obra, mãos à obra.
Coragem e força minha gente, não é a primeira vez que estes trabalhos são feitos. Atrás de quem suja tem sempre de vir alguém que limpe.
Os mais confiantes e optimistas ainda os trabalhos estavam a começar e já anteviam os filhos e netos a nadar nos rios, a jogar à bola, ao pião e à bilharda, a escorregar nos escorregas, a fazer rodas contando, gozando os jardins, plenamente.
Os trabalhos foram árduos e morosos, mas…finalmente…missão cumprida!
Aquela Primavera – tempo de renovo – aquele Abril fora o mais lindo das nossas vidas.
Rebentaram festas populares, por tudo quando era sítio. Era a adiafa. O máximo meninos. O máximo meninos! Tudo era numa nice!
Um fungagá colossal, alegria a jorros. Toda a gente brincou, dançou, se divertiu à grande e à francesa. Foguetes estralejavam e ribombavam continuamente. Imaginem um colossal circo a derramar uma alegria também colossal..
Gigantones, cabeçudos, palhaços, zés-pereiras com os seus bombos, bandas de música tocando nos coretos e nas ruas, bailes em todos os cantos. Um charivari apoteótico.
Uma parodia total, uma verdadeira parodia. Resplandecentes fogos de artificio entonteciam-nos naquelas noites escuras, assim se festejando o final da escura noite.
Bem, o quintal está limpo, evite-se, agora, novas poluições, pois não pode haver saúde fora da natureza, uma natureza ecologicamente pura, bem entendido. Vamos instalar muitas estações de tratamento de lixos e esgotos e evitemos o desenvolvimento do escalracho e outras plantas malsãs.
Gritemos a plenos pulmões: poluição, nunca mais! Poluição, nunca mais! Poluição nunca mais!
Que acham?
Temos ou não o dever de tratar dos jardins?
Temos ou não o direito de tratar dos jardins?

Jaime Rodrigues

Smart Box – uma caixinha de surpresas geográficas

Publicado a 20 de Abril de 2012 . Na categoria: Breves Correio Leitores Opinião . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Gozei em excelente companhia na semana passada uma oferta feita no Natal de 2011 através de uma caixinha com o título simpático de Smart Box. Até aqui tudo bem. Foram quase 24 horas de encantamento num espaço cujo nome dá logo a entender do que se trata – Casal da Eira Branca. A eira serve de terraço panorâmico abrindo o nosso olhar para um vale onde passa uma ribeira e onde chegam os sons das tarefas da agricultura. O casal (lugar) chama-se Infantes e fica na freguesia de Salir de Matos (Caldas da Rainha). Além da eira, espaço de lazer onde outrora foi ponto de trabalho de malhar e joeirar, o conjunto dispõe de jardim, piscina, biblioteca, bar com Internet e sala de estar. Em suma – uma maravilha, um carregador de baterias humanas num espaço sossegado mas bem perto das praias da Foz do Arelho e São Martinho do Porto sem esquecer os diversos encantos da cidade de Caldas da Rainha.
Onde a caixinha falha estrondosamente é no seu mapa de Portugal e na bizarra maneira de referir a sua geografia. Começa por chamar «Norte» ao Nordeste Transmontano e, a seguir, chama «Beiras» a tudo o que aparece entre o Rio Douro e o Rio Tejo mas depois estica a noção de Beiras não só ao clássico (Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral) mas também à Estremadura. Não faz sentido por exemplo a Casa do Patriarca em Atalaia – Vila Nova da Barquinha (que é muito mais para Norte, bem perto de Tomar) fazer parte de Lisboa e Vale do Tejo e o Casal da Eira Branca em Salir de Matos (que é mais para Sul, bem perto de Lisboa) surge como das Beiras quando é (e sempre foi) da Estremadura. O mapa anexo apesar de velhinho (e até por isso) mostra como as divisões eram no princípio do século XX em Portugal. Já agora não confundir – existe um outro espaço com o mesmo nome em Óbidos, na Travessa do Facho.

José do Carmo Francisco


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