Júlio Conrado (n.1936) além de crítico literário é romancista, poeta e dramaturgo. Publica desde 1963 e neste livro da colecção «Ponte Velha» juntou a novela «Era a Revolução» (1977) e a peça de teatro «O corno de oiro» (2009) além de uma selecção de ensaios dos livros «Ao sabor da escrita» (2001) e «Nos enredos da crítica» (2006).
Começando por falar de si («Fiz crítica por puro prazer, sem nunca ter deixado de produzir ficção e até alguma poesia e teatro. Sempre me sussurraram que isso era contra-natura») Júlio Conrado acaba por criticar o trabalho dos lobbys que «criam uma relação espúria entre edição, televisão, jornais, prémios literários, saltando por cima da opinião crítica responsável, suplementos nos jornais onde a literatura é subalternizada pelo cinema, pelas exposições de artes plásticas, pela dança, etc, pouco cuidado e muitos equívocos na promoção de autores nacionais emergentes, racismo de idades, best sellers de nulidades que trabalham na televisão, coisas assim».
A novela «Era a Revolução» parte de uma discordância pessoal («Nós não acreditamos em indivíduos, acreditamos na História») e desenvolve-se no social: «manifestações em cadeia, petardos, tiros, greves, desavenças entre irmãos, ajustes de contas, velhos ódios de súbito acesos». Há por ali (1974-1975) muito oportunismo («O A. Perneta jamais pôs os pés numa assembleia sindical durante os fascismo») mas alguma esperança: «Odeio todos os déspotas. Por isso, os campónios, revejo-os de carabinas melancólicas nas mãos espiando a materialização da esperança – quem se recorda?»
«O corno de oiro» é uma comédia em 3 actos sobre o tema do marido enganado que junta sete figuras saídas de livros: Ana Karenina, Dom Casmurro, Madame Bovary, O amante de Lady Chatterley, Resposta a Matilde, O primo Basílio e Dona Flor e os seus dois maridos. Depois de recolher ensaios sobre John le Carré, Hélder Macedo, Jorge de Sena e Fiama Hasse Pais Brandão, esta miscelânea conclui: «Língua e literatura não são, todavia, batatas. A personalidade europeia conquista-se a partir da sábia gestão das diferenças e não de harmonizações mais ou menos congeminadas por burocratas nos gabinetes de Bruxelas».
(Edição: Escrituras Editora, Organização e prólogo: Florinao Martins, Capa: Carola Trimano, Direcção: Raimundo Gadelha)
José do Carmo Francisco
Actividade profissional pode afectar sistema musculoesquelético
As Lesões Musculoesqueléticas Ligadas ao Trabalho são doenças relacionadas com a actividade profissional que condicionam os movimentos e podem afectar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Muitas são as pessoas que sofrem este tipo de lesões, causadas por um conjunto de traumatismos repetidos, cumulativos e de tensão muscular. São principalmente resultado de movimentos ou de posturas forçadas, exercidos consecutivamente ao longo dos anos. Os principais factores de risco são o trabalhar em posições dolorosas ou mantidas durante muito tempo, carregar cargas pesadas, executar tarefas “curtas” e repetidas ou movimentos repetidos, o stress, o desconhecimento e falta de atenção aos primeiros sinais de lesão. Os quadros clínicos mais frequentes são o síndrome do túnel cárpico, tenosinovites, tendinites, bursites, dores musculares e perturbações articulares provocadas por desequilíbrio muscular e/ou alteração do eixo articular (lombalgias, cervicalgias, ombro doloroso, entre outros).
A Fisioterapia tem um papel fundamental no tratamento e prevenção das Lesões Musculoesqueléticas Ligadas ao Trabalho, recorrendo a terapias manipulativas, técnicas de relaxamento, agentes electro-fisicos, aconselhamento e/ou colocação de apoios externos (como ligaduras ou ortoteses), exercícios terapêuticos, tratamentos em meio aquático e ensino de estratégias para minimizar os riscos, corrigir a função e/ou adaptar o ambiente de trabalho. Através do aconselhamento e ensino de exercícios e posturas a assumir, o fisioterapeuta pode ter um papel preponderante na prevenção deste tipo de patologias.
As empresas podem também elas assumir um papel preventivo importante, recorrendo aos serviços de fisioterapia, no sentido de divulgar junto dos seus trabalhadores mais e melhor informação sobre este tema.
Marco Clemente
Fisioterapeuta e Osteopata
Em 1986 assinei na Revista Seara Nova o artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» no qual me referia a Paulo da Costa Domingos e à sua poesia. Tal como em Asfalto, 4, Patchwork e Violeta Náutica, a sua poesia actual não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido/ arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder / estudar, casar, arranjar emprego».
Quem escreve «deportado pelo novo regime ortográfico» sente-se «expulso do coração da fala» e só pode repudiar as «Hordas despojadas de privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome / à espera de acolhimento / num patrão».
Quando o real não anda nem desanda («A igualdade não fez de nós / indivíduos: transformou-nos numa frota») então a única saída é quando «Julga-se que a lógica é / salvar os ricos e esperar/ que eles deixem cair / dos seus sacos a abarrotar / de dinheiro, algum / na praça pública.» Ou dito de outra maneira: «Talvez por decreto d´óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado.»
Impresso na cor e nas linhas do velho papel selado, o livro exercita um contraponto da prosa perante a poesia: «Pouco ou nula lealdade nos obrigamos ou nos é exigida fora de recintos (e selectivamente) como a pátria, o clube desportivo, o apego à família. As epidemias talvez passem ao lado: o emprego, garante máximo do futuro, resta assegurá-lo sem fazer ondas.»
(Editora: & etc)
José do Carmo Francisco
Quando no dia 9 do passado mês de Março, falávamos aqui das razões que mantinham os estudantes do Ensino Superior e Colegial do Québec, numa greve geral, que na altura durava já há cerca de duas semanas, estávamos longe de imaginar que nos finais de Abril, numa altura em que por norma, a chamada Sessão Escolar de Inverno (esta vai de Janeiro a Maio, a outra, de Outono, vai de Agosto a Dezembro) termina, voltássemos ao tema.
Assim e pela primeira vez na história da nossa Província (logo aqui, onde a história é tão mal tratada), uma greve geral académica perdura há mais de 70 dias. Nas nossas velhas recordações das experiências do género em Portugal, quando frequentávamos os bancos da escola, normalmente as greves, com cavalaria (que nada tinha a ver com a Real Polícia Montada Canadiana), e polícia de choque à mistura, não ultrapassavam alguns dias, e circunscreviam-se a escolas específicas, nunca a toda a Academia. Depois de 25 de Abril de 1974, uma vez que saímos de Portugal em 1976, não pudemos, como é lógico, seguir atentamente todos os movimentos estudantis dos alunos lusitanos, mas duvidamos sinceramente, até pela falta de cultura democrática do povo português, que alguma greve académica fosse além dos «nossos» alguns dias. Se estamos equivocados, pedimos as nossas desculpas, mas não cremos!
Este é mais um dos elevados custos de viver numa democracia velha de várias gerações, onde os governos estão habituados a lidar com este tipo de situações, resultantes das lutas dos trabalhadores ou dos legítimos anseios da classe estudantil. A forças policiais estão no entanto, diariamente e em grande número nas ruas das nossas cidades, no sentido de evitar males maiores, como actos de vandalismo nos edifícios públicos, nas vitrinas dos nossos comércios, ou outros desmandos da autoria dos jovens adultos.
O nosso actual Primeiro Ministro (para quem está menos familiarizado com o funcionamento deste país, nunca é demais repetir que, o ensino, sendo de domínio provincial, é gerido a partir da cidade de Québec, capital da província, e não de Otava, capital do Canadá) velha raposa da política, ao não aceder desde o princípio da crise, aos pedidos dos estudantes, esperava obviamente que estes acabassem por se cansar, e, com o aproximar do final do ano lectivo, decidissem voltar às salas de aulas. Só que os estudantes, assembleia após assembleia, e através dum sistema de votos por braço no ar, numa época em que todos os jovens possuem computador pessoal e telefone celular, a inexistência de voto secreto acabou por causar algum receio nos alunos que, por diversas razões, se opõem a esta greve. As três organizações representativas da quase totalidade dos estudantes, podem assim, continuar a considerar as suas acções como sendo legítimas. É esta forma arcaica de votação, digna dos velhos partidos comunistas do século XIX, que coloca a maioria da população contra os dirigentes estudantis, e o governo, consciente disso, pouco ou nada tem feito para resolver o problema.
Neste momento, já se coloca a hipótese de, pura e simplesmente anular a sessão académica, pois o prolongamento da mesma para finais de Junho irá colidir com os direitos dos professores e outros funcionários, às férias de Verão. Para não falarmos dos custos astronómicos para todos nós, contribuintes, que tal ocasionaria, com todos os funcionários dos estabelecimentos de ensino a trabalharem em época normal de férias.
O Governo já deu no entanto alguns sinais de abertura, estando disposto a mudar alguns dos pressupostos inicialmente estabelecidos para o aumento gradual das propinas, que deveriam ser implementadas ao longo de cinco anos, prazo este que foi entretanto alargado para sete anos. Não foi no entanto o suficiente para que a organização estudantil mais radical, mostrasse disposição para aceitar a proposta da ministra da educação, que desde o início tem demonstrado alguma abertura, ao contrário do seu chefe, o Primeiro Ministro, que é reconhecido pela sua inflexibilidade negocial. Nesta altura está já, aliás, a dar alguns sinais de impaciência, e poderá eventualmente solicitar eleições gerais antecipadas na província, sabendo à priori que sairá delas com um governo consolidado, pois todas as previsões apontam no sentido de ser de novo o seu partido, o Partido Liberal do Québec, a ser chamado para governar, o que, a suceder, lhe daria um poder ainda mais forte.
A população duvida no entanto que isso resolva o quer que seja. É que depois de uma greve que já ninguém entende, e em que, hoje em dia as pessoas já não tentam perceber qual das partes tem ou não razão, se os estudantes, se o Governo. Hoje apenas todos se perguntam o porquê, de, após 11 longas semanas de greve geral académica ilimitada, com manifestações de rua quase diárias, esta situação se mantém, com a generalidade dos Campus Universitários da Província do Québec a viver na maior confusão, e em que é normal verem-se piquetes de greve à entrada de algumas escolas mais radicais, na sua habitual função de impedir a entrada de algum estudante mais afoito, no interior dos diversos estabelecimentos de ensino superior quebequenses.
J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca
Manuel Pedro Gomes (n. 1941) foi jogador do Sporting Clube de Portugal ao longo de 17 anos e conquistou 3 Taças de Portugal, 3 Campeonatos Nacionais e uma Taça das Taças. Além do SCP treinou várias outras equipas: Académica, Oriental, Farense, Marítimo, União de Leiria, Os Belenenses e Rio Ave.
Ao publicar estes 11 contos de Futebol, estreia-se numa actividade diferente e embora a capa anuncie «Doping – Sexo – Corrupção» estas histórias também integram coragem, honestidade e esperança. Afirma o autor na pagina 45 «O futebol não se aprende nos livros» mas é pelo livro que passa a sua mensagem ao recordar histórias passadas. Por exemplo esta: «Quando um dos melhores presidentes que já tivemos te abordou, questionando-te se ao colocar-lhe juniores na equipa, os seniores correriam o risco de desmoralizar, podias ter evitado a resposta seca de que ele estava a passar-te um atestado de incompetência psicológica e de acrescentar: «Se o presidente queria ser treinador não precisava ter-me contratado».
Ou então esta: «A comunicação social é uma empresa e como tal visa o lucro, as notícias são direccionadas a um público-alvo que compra e lê o que lhe interessa. Os jornais são o biberão que alimenta o ego infantil e clubista dos fanáticos leitores. Nesta sociedade mercantilista é mais importante uma fofoca da vida do clube afecto aos sócios compradores que um feito notável a nível internacional de outro clube, cujos adeptos não compram esse jornal. Esta política economicista não está interessada em entrevistar aqueles que não vendem e quem não está na ribalta é completamente ignorado.» O herói do conto ouve uma adversativa séria: «Deves ir longe com esse cândido conceito de vida». Mas a história já circula por aí…
(Editora: Padrões Culturais, Capa: Nuno Pedro e Fernando Pedro Silva Gomes)
José do Carmo FranciscoManuel Pedro Gomes (n. 1941) foi jogador do Sporting Clube de Portugal ao longo de 17 anos e conquistou 3 Taças de Portugal, 3 Campeonatos Nacionais e uma Taça das Taças. Além do SCP treinou várias outras equipas: Académica, Oriental, Farense, Marítimo, União de Leiria, Os Belenenses e Rio Ave.
Ao publicar estes 11 contos de Futebol, estreia-se numa actividade diferente e embora a capa anuncie «Doping – Sexo – Corrupção» estas histórias também integram coragem, honestidade e esperança. Afirma o autor na pagina 45 «O futebol não se aprende nos livros» mas é pelo livro que passa a sua mensagem ao recordar histórias passadas. Por exemplo esta: «Quando um dos melhores presidentes que já tivemos te abordou, questionando-te se ao colocar-lhe juniores na equipa, os seniores correriam o risco de desmoralizar, podias ter evitado a resposta seca de que ele estava a passar-te um atestado de incompetência psicológica e de acrescentar: «Se o presidente queria ser treinador não precisava ter-me contratado».
Ou então esta: «A comunicação social é uma empresa e como tal visa o lucro, as notícias são direccionadas a um público-alvo que compra e lê o que lhe interessa. Os jornais são o biberão que alimenta o ego infantil e clubista dos fanáticos leitores. Nesta sociedade mercantilista é mais importante uma fofoca da vida do clube afecto aos sócios compradores que um feito notável a nível internacional de outro clube, cujos adeptos não compram esse jornal. Esta política economicista não está interessada em entrevistar aqueles que não vendem e quem não está na ribalta é completamente ignorado.» O herói do conto ouve uma adversativa séria: «Deves ir longe com esse cândido conceito de vida». Mas a história já circula por aí…
(Editora: Padrões Culturais, Capa: Nuno Pedro e Fernando Pedro Silva Gomes)
José do Carmo Francisco
Percebe-se que Urbano Bettencourt (n.1949) tem o gosto da miscelânea. Na linha de Camilo Castelo Branco («Narcóticos») e Carlos de Oliveira («Aprendiz de feiticeiro»), Urbano Bettencourt reúne em 183 páginas um conjunto de narrativas, memórias e aforismos. Ficcionista, poeta e ensaísta, uma fina ironia atravessa a sua obra desde 1972, data do seu inicial livro «Raiz de mágoa».
O primeiro texto regista uma conversa num comboio entre Del Guidice e Antero de Quental: «Vou atrás de uma mulher que existe, desde o momento em que o autor lhe deu vida pela escrita. Você vai atrás de uma vaga figura possível, a revolução». Cruzam-se memórias de Raúl Brandão no PIco («Aquilo foi um sonho e nenhum sonho se chega a concluir – o sonho não cabe no mundo») e de Romana Petri: «a garrafa de aguardente de figo – Romana Petri talvez preferisse um copinho de angélica como ela tontamente insiste em escrever». Mais à frente as ruínas de uma abadia em Howth (perto de Dublin) abrem para uma memória de James Joyce («a luminosa manhã de Junho de 1904 em que Leopold Bloom saiu de casa para comprar rins de carneiro») enquanto Álamo Oliveira aparece no Corvo: «Desembarcados no Porto da Casa, tomámos rumos diferentes. Álamo Oliveira foi levado pelos seus anfitriões do teatro e eu meti-me a caminho da casa de D. Crisantema».
Também comparece uma memória da guerra colonial: «ainda te vais lembrar do tempo de África. Das gentes que viveram um pouco melhor graças a ti. Caminhos, estradas, casas, água potável. Mas a sombra das pessoas que destroçaste há-de seguir-te como um cão açoitado. E as casas a que deitaste fogo vão continuar a arder nos teus olhos. Como uma festa ou um inferno. Estas coisas apagam-se alguma vez?»
Por último um aforismo breve: «Reciprocidade – Quando o censuraram por não ir ao funeral do seu companheiro de letras, o escritor limitou-se a perguntar: – E ele vai ao meu?».
(Editora: Publiçor, Fotografia: Magda Medina, Participação: Juan Carlos de Sancho)
José do Carmo Francisco
«Quem escreve crónica de jornal aspira sempre a lugar na estante» – sendo um lugar-comum do jornalismo, esta frase aplica-se também às crónicas deste autor, antes publicadas nos jornais «Gazeta do Sul», «Região de Pegões» e «Nova Gazeta». O jornal é frágil e efémero; o livro fica e permanece. Em ambos, o mais importante são as palavras: «A palavra é o veículo mais importante nas relações humanas. Elas exprimem tudo. Elas desmascaram o homem. Elas fazem história».
Seja para um olhar genérico («Sem indústria, sem agricultura, sem aproveitamento do mar, não se augura uma rápida recuperação do país») seja para uma memória pessoal: «Logo após o 25 de Abril fui presidente da Câmara Municipal do Montijo. Não tinha assessores nem secretárias, redigia os meus próprios discursos». Essa memória pessoal permite-lhe criticar o que se passou no Congresso da Comunicações em 28-11-2010: «O ministro das Obras Públicas e o secretário desse ministério leram, cada um a seu tempo, o mesmo discurso, um na abertura e o outro no fecho do evento».
Afinal o passado e o futuro estão mais ligados do que parece: «É necessário ter presente que os velhos são os grandes órfãos. Com o abandono a que muitos estão votados, não só pela família como pela sociedade em geral, não têm pais nem filhos, nem netos nem interesse social. Salvo raras excepções, os velhos não têm ninguém. E isto também explica, em parte, o mundo em que vivemos.»
(Edição: Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Coordenação: Joana Segura)
José do Carmo Francisco
No início da última semana do mês de Março, todas as televisões do Canadá seguiam atentamente o momento em que o nosso Ministro das Finanças do governo federal se dirigiria à sapataria da sua preferência, no acto solene de comprar um novo par de sapatos. Diz a tradição que, para apresentação do orçamento do governo canadiano, é de bom tom, calçar um par de sapatos novinhos em folha. A mensagem que o ministro passou cá para fora, no interior da sapataria, era a de que iríamos ser contemplados com um novo ano fiscal de poupança, e de grande contenção da despesa. O membro do governo apenas tirara do seu porta moedas a módica quantia de 135.00$ dólares, com os quais adquiriu um modestíssimo par de sapatos de qualidade duvidosa, já que aquele montante, equivale ao custo mínimo duns sapatos novos neste país.
Foi assim sem surpresas, que no passado dia 29, o país acolheu algumas novidades, nem todas muito agradáveis. Numa tentativa de abandonarmos o défice, que afecta as contas públicas canadianas desde que a crise se instalou no grande vizinho do Sul e depois na Europa, a partir do ano fiscal de 2015-2016, o actual governo prevê que o Canadá volte de novo a uma situação equilibrada, com o saldo das contas da grande nação canadiana a ser de novo escrito a preto.
A redução na despesa dos vários ministérios será este ano da ordem dos 5,2 mil milhões de dólares,ou seja, o equivalente a cerca de 0.2 % do PIB do Canadá para 2016-2017.
A notícia com mais impacto e a que mais vai afectar directamente a maioria de todos nós, foi no entanto, a que se refere à da alteração da idade, a partir da qual todos os canadianos por nascimento ou por opção, bem como todos os residentes permanentes (imigrantes) deste país, passarão a ter direito ao recebimento da pensão federal. Convém realçar que as nossas pensões são constituídas, regra geral, por dois cheques. Um do governo federal e outro da província na qual habitamos. Evidentemente, a partir do momento em que o governo de Otava altera a idade da reforma dos canadianos, as províncias modificam igualmente as suas pensões. Esta alteração da idade da reforma de todos nós, apenas se pode considerar como uma meia surpresa, pois de algum tempo a esta parte as mensagens que nos chegavam da capital federal iam todas nesse sentido. Não estamos a fazer mais afinal, do que a Alemanha já fez há algum tempo e os próprios franceses, se preparam para fazer. Não conhecemos bem a intenção do governo de Lisboa neste capítulo, mas imaginamos que, como políticos responsáveis que são, tanto os actuais como os anteriores locatários do Palácio de São Bento, têm vindo paulatinamente a preparar os portugueses para esta inevitabilidade, de forma a que, quando tal acontecer, todos os nossos amigos desse pequeno cantinho, num dos intervalos das discussões sobre o grau de honestidade dos árbitros da bola, possam pouco a pouco começar a mentalizar-se para esta nova realidade.
Imaginamos igualmente que, tal como aqui, o actual governo do PSD/CDS bem como o anterior do PS, têm feito diariamente, um trabalho de sensibilização e de mentalização das pessoas para a problemática da baixa natalidade, e dos fraquíssimos rendimentos dos mercados de capitais nestes últimos anos, os quais, aliados ao aumento gradual da esperança média de vida das populações, irão pôr em causa a sustentabilidade dos fundos de pensões para as gerações vindoiras, que não deverão em caso algum, ser penalizadas pelas políticas do nosso tempo.
Para impedir que tal aconteça, o Canadá legislou, e já se sabe que as pessoas nascidas a partir de Março de 1958 apenas começarão a receber as suas reformas depois da data em que perfazem 66 anos, e todos aqueles que nasceram depois de Fevereiro de 1962 começarão a receber as suas pensões a partir do dia em que perfazem 67 anos. Além disso, todos os que optarem por continuar a trabalhar até aos 70 anos, verão o seu cheque mensal federal, aumentado em cerca de 30%. Trata-se de uma reviravolta de 180 graus, relativamente ao que até há pouco tempo se pedia, com todos a aspirarem ao direito de reforma a partir dos 55 anos. Mas quando se sabe que, cada vez mais se vive para além do centenário, não é preciso possuir grandes conhecimentos de actuariado para compreender esta nova problemática. Cabe aos responsáveis políticos, alertarem as populações para tal.
Tratando-se de uma medida definitivamente impopular, foi no entanto facilmente aceite por todos os quadrantes políticos canadianos, e até o partido Os Verdes, normalmente mais à esquerda, a aceita como inevitável. Imaginamos seguramente, que os membros do nosso Partido Comunista do Canadá, não estarão de acordo, mas como também não têm representação na Cãmara dos Comuns, não somos obrigados, tal como aí, a ouvir as suas cassetes, repetidamente e até à exaustão, com as mesmas vozes de contestação, que foram importantes em determinadas alturas da história dos povos de diversos países, e de Portugal em particular , mas que já não se justificam após 40 anos de vida democrática. A democracia acabará no entanto por fazer o seu trabalho, como o fez noutras grandes nações da Europa, e aqui, estamo-nos a lembrar do grande PC francês de Georges Marchais da crise de Maio de 68, e dos anos que a ela se seguiram. Agora, e para além dos historiadores, quem se lembra deles? O mesmo acabará por suceder em Portugal, pois os partidos, como tudo o resto aliás, nascem, crescem e desaparecem!
J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca
Depois de «Pessoas só» (2004) e de «Quando uma palavra não basta» (2007), Isabel Moreira (n. 1976) assina «Ansiedade», uma ficção organizada a partir do blogue «consolação». Apesar de algumas citações poéticas (Sophia, Daniel Filipe, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Anna Akhmátova) e dos Evangelhos («o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça»), a referência maior deste livro é «Sedução» de José Marmelo e Silva.
A partir de um universo cinzento, onde a vida é precária e a morte inevitável, só o amor pode resgatar esse misto de ansiedade, amargura e pânico. Ou dito de outra maneira – «Talvez a ternura nos salve». Tal como nesse livro de 1937, num espaço de marasmo e de pouca esperança, há uma ave de rapina: a morte. Não por acaso o livro surge dedicado à memória de alguém que morreu: «tão nova, tão bonita. Minha querida, porquê?»
O ponto inicial é um aviso vermelho («Um ataque é uma loucura instalada a prazo nesse corpo»); o caminho é um espaço de medo («entre a casa e a secretária onde trabalha, há uma fila de carros») e um tempo corroído pelos dias: «Os dias perderam-se numa torneira ferrugenta». O ponto de chegada é a ligação da vida à escrita: «pensar na vida e escrever a vida com a voz dos mortos é muito deprimente».
Num espaço amargo («O mundo tem o tamanho da angústia») o olhar da narradora não se fecha no seu eu («é no fígado que me dói a criança que morre dentro de um saco de plástico») e coloca-se junto ao outro. Seja Angola («marido morto tão novinho, uma vida de viúva sozinha»); seja a Sérvia – «De que falas, Dragan?». No esplendor da solidão («a doença que faz doer as doenças todas»)é inevitável o medo («medo de morrer de medo a qualquer instante») e por fim o grande delta do silêncio: «tudo o que acontece é um parêntesis na saudade».
Numa placa de medo e morte, nasce uma esperança: «Está a chover, de repente, um castigo, uma chicotada contínua na última memória do teu olhar». História feita de textos sincopados, intensos e sintéticos, faz um retrato humano na urgência do tempo que passa: «A sua vida foi a construção do edifício da ansiedade. Dar-se inteira a quem mente e era mentira; dar-se inteira a quem mente e tinha desistido; dar-se inteira a quem não aguentou e morreu; dar-se inteira a quem sorriu no quotidiano de um escritório e nunca mais telefonou».
(Editora: Arcádia, Capa: Henrique Cayatte, Revisão: Helena Romão)
José do Carmo Francisco
Motards de Inverno
Devido aos nossos longos Invernos e à obrigação legal de que todos os veiculos motorizados, (bicicletas excluídas, obviamente) entre os dias 15 de Dezembro e 15 de Março de cada ano, sejam obrigados a circular com pneus especiais para a condução na neve, por motivos de segurança, as motas e motorizadas não podem andar nas nossas estradas durante aquele período.





