O bacalhau e o vinho do Porto

Publicado a 17 de Novembro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

País acolhedor de parcelas importantes das constantes vagas de emigrantes que ciclicamente abandonam Portugal em busca de melhores condições de vida em sociedades mais justas do que aquela que os viu nascer, o Canadá continua, no imaginário da generalidade dos portugueses, a ser associado ao frio, ao gelo e à neve, e, pelas gentes oriundas da orla marítima do país, à faina da pesca do bacalhau, nos Grandes Bancos da Terra Nova.
Tivemos conhecimento há relativamente pouco tempo, através da visita do museu local, que na zona do Golfo do rio São Lourenço na nossa Província do Québec, durante os séculos XVIII e XIX, os portugueses vinham regularmente comerciar o «fiel amigo» na península de Gaspé, para além de se dedicarem à mais conhecida e tradicional pesca do mesmo nas águas frias da Ilha e Província da Terra Nova. Província esta a que se juntou ultimamente a região do Labrador, no Nordeste do Québec, e sobre a qual a nação francófona continua a reclamar o controlo administrativo junto das autoridades federais em Otava. O que já não é do conhecimento geral, é que a história dum bom cálice de Vinho do Porto, poderá estar igualmente ligada à ilha da Terra Nova.
A nossa curiosidade pela existência de uma pequena localidade no litoral de 6000 habitantes, chamada Portugal Cove, com presença confirmada de portugueses desde o distante século XVI, no apogeu das nossas descobertas, e que dista apenas 130 Kms da capital St. John’s (a São João da Terra Nova que nos ensinaram na escola), levou-nos a descobrir a, para nós novidade, relação entre a capital da província atlântica canadiana e a conhecida marca de vinho do porto Newman’s.
Estava-se em 1679 e um navio pertencente à Newman’s Port fazia a viagem do Porto para Londres completamente carregado da preciosa bebida tão do agrado dos súbditos de Sua Majestade quando, em pleno Atlântico, foram atacados por corsários franceses. Devido aos efeitos da batalha com os inimigos gauleses, e por via dos ventos adversos, o barco dirigiu-se para a Terra Nova, onde a companhia já possuía na altura uma fábrica de transformação de peixe. Aproveitaram a circunstância, e aí efectuaram as devidas reparações, que lhes permitiriam, chegar às Ilhas Britânicas. Só que entretanto os efeitos dos rigorosos invernos canadianos já se faziam sentir, e os responsáveis decidiram descarregar no local, a totalidade dos barris de vinho do Porto e armazená-los durante todo o inverno em São João, enquanto se procedia à reparação da embarcação, com vista à partida na primavera seguinte. Depois de longos meses de armazenamento, a preciosa carga foi de novo embarcada para a nova travessia do oceano, a caminho do Leste desta vez. Quando chegaram a Inglaterra, os locais ficaram surpreendidos com o sabor que aquele vinho vindo do Canadá tinha. A dupla travessia do oceano, aliada ao armazenamento na ilha, tinha dado ao precioso néctar um sabor mais fino e aveludado. A partir daquela inesperada descoberta, e durante cerca de 300 anos, todos os vinhos do Porto da companhia Newman’s, passaram a ser envelhecidos nas caves situadas na Terra Nova, onde as condições climatéricas do local lhes adicionavam características completamente diferentes das que lhe eram dadas pelo clima mais ameno da região do Douro.
O local da Rua Water, na capital St. John’s, onde durante cerca de 300 anos o vinho envelhecia, foi no entanto completamente abandonado em 1966 e rapidamente se degradou. Entretanto a Newfoundland Liquor Corporation continuou a utilizar as velhas caves para engarrafar o Porto Newman até 1996, ano a partir do qual, Portugal passou a exigir a exclusividade do termo «porto», única e apenas para os vinhos que fizeram toda a sua vida, engarrafamento e envelhecimento, nas caves portuguesas.
Até que nos nossos dias, um organismo comunitário, a Newfoundland Historic Trust, procedeu à sua recuperação. As velhas caves têm hoje o estatuto de Local Histórico Provincial, e durante o Verão, oferecem visitas temáticas através das quais os visitantes, entre uma prova de porto e a descoberta dos subterrâneos, ficam a conhecer a curiosa história do vinho do Porto envelhecido no Canadá.
Se todos em Portugal sabem mais ou menos que do Canadá vem uma parte do bacalhau seco tão do agrado das nossas gentes, já apenas uma minoria muito reduzida poderá ligar um bom cálice de Vinho do Porto aos Grandes Bancos da Terra Nova dos pescadores portugueses. E quem sabe até, se a popular cadeia de bares chamados apenas Porto, e que até há bem pouco tempo cresciam como cogumelos um pouco por toda a cidade, sobretudo no nosso bairro do Plateau Mont-Royal, não terão eventualmente relação com esta curiosa história do porto Newman’s? Diga-se no entanto, e em abono da verdade, que da mesma forma como cresceram igualmente desapareceram.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Política e corrupção

Publicado a 4 de Novembro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Antes de irmos mais além nesta crónica, devemos desde já alertar algum leitor mais distraído, que em nenhuma parte deste texto temos em mente, casos que possam eventualmente ter acontecido nalgum qualquer país geralmente considerado mais corrupto da Europa meridional. Entendemos todavia que até pelos nomes envolvidos, todos acabariam por perceber. Os casos recentes de corrupção que têm abalado o Québec são tantos, que a dificuldade maior que se nos põe é saber por onde começar. Optamos assim pelo caso menos conhecido da generalidade da população, devido à sua menor divulgação mediática e ao facto do personagem principal estar neste momento bem longe de nós, gozando climas mais amenos, num dos mais belos arquipélagos do Atlântico. As paradisíacas ilhas das Bahamas, que conhecemos no já distante mês de Novembro de 1979, durante aquela que seria, para nós, a primeira de diversas e curtas viagens de férias para os mares quentes do Sul.
O Doutor Arthur Porter, nativo da Serra Leoa, um dos mais pobres e corruptos países da África Ocidental, era até há pouco tempo, um dos directores hospitalares mais conceituados em toda a América do Norte. Quando há cerca de meia dúzia de anos, postulou para director geral do maior hospital anglófono da nossa cidade, a sua experiência curricular era tal, que foi aceite com voto unânime da comissão de admissão. Foi sob a sua direcção que os trabalhos de construção de um, dos dois novos mega hospitais da cidade, o anglófono, ligado a uma das maiores e mais respeitadas universidades do planeta, a conhecida McGill University, passaram rapidamente, ao contrário do hospital francófono, do papel, para aqueles que são nesta altura, os estaleiros de maior dimensão na construção de obras públicas em toda a América do Norte. É aqui no entanto que começam os problemas do Doutor Porter. Veio a conhecimento público, que para que os trabalhos fossem entregues a um dos maiores grupos de engenharia do Canadá, o grupo SNC Lavalin de Montreal, com uma longa folha de serviços, aqui e no estrangeiro, sobretudo em África, tinha subornado o director do hospital em vários milhões de dólares.
Um longo e sério trabalho de pesquisa efectuado pelo diário francófono La Presse, permitiu-nos entretanto saber que afinal o conceituado Doutor Arthur Porter, já tinha tido no passado alguns problemas nos Estados Unidos, e que durante a sua estadia em Montreal, em vez de se ocupar a pleno tempo da gestão do seu hospital, servia-se de uma das suas funcionárias para fazer transacções imobiliárias em seu nome, não só no seu país de origem, como igualmente nas Bahamas, arquipélago que é igualmente conhecido por albergar a sede de vários offshores. Depois de ter sido agraciado pelos «bons» serviços prestados à população do Québec, encontra-se neste momento na idílica ilha de New Providence, onde gere, entre outros investimentos, uma das mais afamadas discotecas na cidade capital, Nassau, com sede num pequeno escritório, onde se pode notar a existência dum telefone, uma mesa e algumas cadeiras, não se nota qualquer presença humana. Toda esta actividade extra curricular do Doutor Porter, que seria geralmente aceite, caso trabalhasse no domínio do privado, é absolutamente condenável no domínio do funcionalismo público. Sabe-se hoje no entanto que, considerando a forma como foi organizada a sua partida do Canadá, nunca foi intenção do nosso governo da altura aplicar-lhe qualquer tipo de sanção.
O mesmo não se poderá dizer no entanto, a propósito dos graves problemas que têm vindo ultimamente à luz do dia, através de uma comissão de inquérito especialmente constituída pelo anterior governo do partido Liberal, para desmontar todo um esquema de corrupção, que existia nalguns casos há mais de vinte anos, nas duas maiores cidades da nossa província, Laval e Montreal. Tratava-se dum esquema de pagamentos, em que para a obtenção dos grandes contratos, as companhias de construção civil eram, poder-se-ia dizer, obrigadas a inflacionar os custos dos seus serviços, pois o preço final pago por todos nós, incluía sempre uma percentagem que ia para os cofres do partido municipal no poder, e para os diversos intervenientes no processo, desde o engenheiro chefe das obras até outros funcionários da câmara, suspeitando-se até, que uma parte passaria para as mãos de membros importantes do crime organizado, sobretudo elementos ligados a algumas ramificações da máfia. É claro que nestas situações, apenas os grupos de construtores envolvidos no esquema, beneficiavam da totalidade dos contratos de obras nas respectivas cidades.
Os trabalhos da comissão de inquérito estão neste momento no auge, e os depoimentos públicos diários dos diversos intervenientes, são de tal forma graves, que nunca mais os trabalhos de obras públicas no Québec, serão como antes. Como primeira consequência, o maire (presidente da câmara) de Laval, o Senhor Gilles Vaillancourt, que há mais de vinte anos geria a grande cidade a Norte de Montreal, foi aconselhado por razões médicas a abandonar a chefia do município e a afastar-se da vida política. É que os inspectores da comissão de inquérito, vão em breve abrir uma meia dúzia de cofres guardados em seu nome em diversas sucursais bancárias na cidade que administrava há demasiados anos.
Em Montreal entre 2000 e 2008 o esquema de corrupção passava pelo engenheiro chefe das obras, Gilles Surprenant, que lesou os contribuintes em mais de 50 milhões de dólares, e declarou sob juramento que não se sentia obrigado a denunciar o sistema, pois era um simples funcionário. Palavras suas. A comissão de inquérito estabeleceu que este engenheiro, entretanto aposentado, recebeu cerca de $736.000.00 dólares de subornos em dinheiro, e aqui não estão incluídos os bilhetes oferecidos para os jogos de hóquei sobre o gelo, as viagens, as garrafas de vinho de marca, nem as refeições nos melhores restaurantes. A última decisão que tomou, antes de enfrentar os juízes da comissão de inquérito, foi a de vender à sua filha, a residência familiar por 1 (um) dólar. Mas como ele disse também, os seus patrões tinham conhecimento do esquema e nunca tomaram qualquer atitude.
É por isto que em Montreal, a Comissão Charbonneau, do nome da juíza chefe da mesma, não parece ter em mira a desonestidade do nosso presidente da Cãmara, Gerald Tremblay, mas sim a sua incapacidade para gerir e pôr termo a um esquema de suborno conhecido por todos, salvo pela generalidade da população. Os trabalhos da comissão vão entretanto prosseguir até que todos os culpados sejam devidamente identificados e condenados, e, para fazer jus ao que dissemos no início. É aqui que as diferenças com Portugal, mais se vão fazer sentir.

J.L. Reboleira Alexandre

jose.alexandre@videotron.ca

Um Verão muito especial

Publicado a 10 de Agosto de 2012 . Na categoria: Breves Crónicas semanais Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Já na nossa última publicação referíamos quanto o presente Verão estava a ser diferente de todos os outros Verões que, desde 1977, passamos no Québec. E aparentemente está para ficar. Desde o início de Junho que a região de Montreal tem sido contemplada por um dos melhores Verões de que há memória. Durante o dia, o Sol brilha, e as temperaturas oscilam entre os 27 e os 33 graus centígrados. As noites têm sido relativamente frescas para o normal da época, com o termómetro a manter-se invariavelmente entre os 18 e os 25 graus. Humidade relativa muito baixa e uma quase total ausência de vento.
Sabendo quanto as condições atmosféricas influenciam o humor das pessoas, e por estes lados sobretudo, se atendermos ao habitual rigor dos nossos Invernos (o último ano foi excepção, e claro, segundo os entendidos, a culpa como não podia deixar de ser, é do tão propalado aquecimento global), as ruas e os parques da nossa cidade têm sido, literalmente, invadidos por todos aqueles que por várias razões, decidiram passar a época estival por estas bandas. Durante os fins de tarde e à noite, sobretudo nos fins-de-semana, as esplanadas dos variadíssimos restaurantes e cafés têm sido poucas para fazer face à procura.
Na nossa cidade, até durante o Inverno, grande parte dos habitantes utilizam a bicicleta como meio de transporte diário, com o bom tempo esse número explode e beneficiando da política dos dirigentes municipais, como sucede em muitas grandes cidades dos países mais desenvolvidos, em que cada vez mais se privilegia o uso da bicicleta, e assim, os espaços dedicados aos veículos de duas rodas aumentam regularmente na mesma proporção em que diminuem os espaços para os automóveis. Como consequência desta situação, e devido à natural dificuldade de coabitação entre os dois diferentes tipos de ocupantes da via pública, ciclistas e condutores auto, raro é o dia em que não haja um pequeno acidente com a participação de ambos. Os ciclistas beneficiando de prioridade em praticamente todas as situações, conduzem de forma verdadeiramente suicida. Nós, que no distante ano de 1962, quando obtivemos a carta de condução de velocípedes nas Caldas que nos autorizava legalmente a conduzir a velha pasteleira, que era meio de transporte diário entre o Chão da Parada e a Escola Industrial e Comercial, escrevíamos no exame teórico, que o ciclista, na estrada, tinha os mesmos direitos e obrigações que os condutores dos automóveis, tivemos de esquecer tudo isto à custa de muita calma e paciência. Aqui, o ciclista, tem todos os direitos, e um mínimo de obrigações, que aliás, na maioria das vezes não respeita.
Mas como a velocidade máxima dos automóveis nas cidades da área metropolitana de Montreal, está limitada entre os 30 e os 40 quilómetros por hora, normalmente as consequências dos acidentes não vão além de alguns arranhões para os intrépidos ciclistas.
Outro assunto que ocupa os órgãos de informação locais nesta altura, e como não poderia deixar de ser são as Olimpíadas de Londres, e, se até ao momento em que escrevemos estas linhas os atletas lusos da Europa ainda não tinham subido uma única vez ao pódio, já uma jovem luso-descendente de Montreal, na prova de mergulho sincronizado de 10 metros, era motivo de orgulho para todos os canadianos do Atlântico ao Pacífico. Meaghan Benfeito e a sua colega de equipa Roseline Filion obtiveram uma medalha de bronze na sua especialidade. Benfeito é assim, depois de Mike Ribeiro, há já alguns anos, estrela da Liga Nacional de Hóquei, que engloba as maiores equipas de hóquei sobre o gelo do Canadá e dos Estados Unidos, a segunda figura desportiva com raízes portuguesas e açorianas, a singrar no desporto de alta competição nestas latitudes.
Entretanto, e como tínhamos previsto no final do ano lectivo em Maio, a nossa província será chamada às urnas no próximo dia 4 de Setembro, numa eleição que se disputará a três. O actual governo do partido Liberal (PLQ), com um Primeiro-Ministro que continua inflexível na sua intenção de aumentar as propinas dos estudantes de nível superior e colegial, o partido (PQ) Québéquois (quebequense) que luta pela independência através do voto democrático, cuja chefe sofre do síndroma de impopularidade crónica (doença grave numa chefe partidária), e que, desde o início da crise estudantil em Janeiro, apoia de forma incondicional a luta dos estudantes, e um novo partido recentemente formado, a CAQ (Coalition Avenir Québec), Coligação para o Futuro do Québec, fundado por um antigo ministro da educação do Partido Quebequense, que busca uma solução de consenso, com um aumento mais moderado das propinas, do que o que nos é proposto pelo partido actualmente no poder, reconhecendo no entanto que, e considerando que os estudos universitários no Québec são os mais acessíveis em termos financeiros, em toda a América do Norte, que o congelamento puro e simples das propinas é pura utopia.
No próximo dia 4 o povo será soberano e ditará a equipa que dirigirá esta grande província deste maravilhoso país nos próximos quatro a cinco anos, pois em virtude de mais uma especificidade da nossa sociedade, não existe data pré-estabelecida antecipadamente para eleições, sendo sempre da responsabilidade do Primeiro-Ministro em função, a solicitação das mesmas, normalmente no período compreendido entre o fim do quarto e do quinto ano de governação de cada legislatura

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Revisitar o passado, o Bouro

Publicado a 27 de Julho de 2012 . Na categoria: Breves Crónicas semanais Opinião . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Num dos dias mais quentes da passada semana, a querer fazer mentir todas as previsões dos meteorologistas, que previam para 2012, um Verão fresco e húmido, aquele que será afinal, um dos melhores Verões do Québec dos últimos anos, vínhamos calmamente para o trabalho, conduzindo a viatura familiar e ouvindo uma das estações de rádio de língua inglesa da nossa preferência. Para quem apenas conhece a confusão e a agressividade das estradas europeias em geral, ou pior ainda, das portuguesas em particular, é quase impossível entender quanto pode ser relaxante e agradável a condução matinal num dia quente de Julho, numa cidade como Montreal.
De repente, os nossos sentidos são interpelados pelo inconfundível tom de voz de um dos mais importantes cantores e compositores dos anos sessenta do século XX, e dos anos actuais afinal, com os quais crescemos e nos formámos. Estávamos perante a voz e a música de Neil Diamond, que através do tema bilingue, em castelhano e inglês, intitulado Canta Libre, nos transportava para estados de espírito de outras épocas.
Canta libre, canta vida, de mi madre y mi padre,
Canta mi corazón, para los niños y sus niños,
Canta libre.
I got music runnin’ in my head,
Makes me feel like a young bird flyin’,
Cross my mind and layin’ on my bed,
Keeps me away from the thought of dyin’
Sob o efeito anestésico dos sons e das palavras deste hino à liberdade e à vida, e sem a mínima razão aparente, encontramo-nos a rever a imagem da velha estação de caminho de ferro do Bouro. Relemos mentalmente a reportagem que a Gazeta nos ofereceu há alguns dias sobre a sua congénere de São Martinho do Porto, salpicada pela sensibilidade que o C. Cipriano nos consegue transmitir, cada vez que escreve sobre transporte ferroviário. Voltávamos a ter de novo uma quinzena de anos e percorríamos despreocupadamente os interiores e os cuidados jardins da estação da aldeia da nossa infância. O chefe Rodrigues contava que antes de se instalar definitivamente e durante mais de trinta anos na bela vila da baía, tinha sido obrigado (não garantimos que o tivesse dito assim, mas foi isso que lemos e entendemos) a passar alguns anos na pequena e isolada estação, que servira durante várias gerações a população do Chão da Parada e as necessidades, em termos de transporte de pessoal e mercadorias da vizinha quinta do Talvay que se dedicava na altura à cultura intensiva do arroz de regadio, e recebia imensos trabalhadores sazonais, oriundos maioritariamente das pobres aldeias das planícies alentejanas. Eram os chamados, bimbos, e muitos acabavam por casar e constituir família na nossa aldeia.
Instalada em local ermo e isolado, entre pinhais e ricos terrenos agrícolas, a estação do Bouro, com o seu imponente e amplo armazém construído em madeira, para alguém que não tivesse ligações afectivas à zona, seria definitivamente o pior local do Mundo, que um jovem casal poderia escolher para iniciar a sua vida. No entanto, para todos os que nasceram naquelas paragens e diariamente se dirigiam para as fazendas dos Arneiros Pequenos, das Pôças, dos Brejos ou do Rechiéu, para as suas pequenas e dispersas parcelas de terreno que lhes davam batatas, feijões, milho, e todo o tipo de legumes frescos que respondiam às necessidades duma família normal da época, numa altura em que a palavra frigorífico não tinha para os habitantes da nossa aldeia qualquer significado, seria o oposto, pelo imaginário que oferecia, como cais de partida para mundos melhores, e pela qualidade de todos os terrenos envolventes.
No pequeno bairro da estação habitava um miúdo um pouco mais velho do que nós, que nos introduzia entre aquelas velhas paredes frente às linhas do comboio, e nos organizava tardes inteiras a jogar ao liques ou ao sete e meio, com todos os empregados dos Caminhos de Ferro que ali viviam de forma temporária. O pai daquele miúdo já na altura andava pelas Américas e quando vinha visitar a família contava-nos histórias maravilhosas destes amplos espaços. Obviamente, o filho, cedo partiu também, para o Novo Mundo, e cremos ter sido o único nativo do Chão da Parada, que lutou contra os comunistas na guerra do Vietnam. Nunca mais o vimos, nem atravessámos os seus terrenos, por um atalho, que nos permitia na altura chegar mais rapidamente ao Brejo, e aí cumprirmos, durante as longas férias de Verão, o que a nossa mãe nos impusera, para, após árduas negociações, obtermos a necessária autorização para partirmos a pé, de bicicleta, ou numa fase posterior, de motorizada, para a nossa praia favorita, a praia de Salir. Nesta praia começavam entretanto a aparecer umas miúdas que, ao contrário das da terra, já usavam uns fatos de banho «escandalosos», mas para nós muito elegantes, de duas peças separadas, bem pequeninas, e que, ou falavam francês ou então, um português algo distorcido, pois apenas por ali as víamos durante o mês de Agosto. No fim desse mês, inícios de Setembro, voltavam de novo para a terra distante, onde os seus pais ganhavam a vida e elas prosseguiam os estudos.
Hoje, sempre que voltamos ao Chão da Parada, a nossa companheira, uma dessas tais garotas que por ali apareciam todos os meses de Agosto, e que adorava subir e descer a grande duna de Salir um dia fixou uma das motas que era conduzida por um rapaz da aldeia que ela não conhecia, sabe que a pequena visita ao local onde estava a estação do Bouro, faz parte do nosso roteiro turístico obrigatório. Quando olhamos para a velha quintinha do miúdo que partiu para a América, para o pequeno casal que servia de residência secundária ao senhor Cruz, que cremos, vivia em Lisboa, ou para o local onde em tempos se transformaram produtos resinosos, e posteriormente funcionou um pequeno restaurante, e que continua guardado por um cão de aspecto nada acolhedor, não somos imunes a uma enorme, mas simultaneamente muito agradável melancolia, acompanhada por uma sensação de bem-estar que apenas os locais dos quais guardamos boas recordações nos podem dar. A estação do Bouro, é, para nós, um desses locais.
Quanto á localização da nossa velha estação, não pode ficar situada na Serra do Bouro, pois esta não existe como aglomerado populacional. Dá apenas o nome à freguesia. Dizia-se então na altura, que se não ficava no Chão da Parada, ficaria localizada no…Bouro.

J.L. Reboleira Alexandre

jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Québec – Férias de Maio

Publicado a 15 de Junho de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Há já alguns anos que nos concedemos alguns dias de descanso durante o mês de Maio, em Portugal. Férias sempre curtas, por norma, e por isso mesmo, quando chega a altura de tomarmos o avião para a travessia do Atlântico, fazêmo-lo sempre com algum e justificado receio, do caprichoso micro-clima das Caldas. As famosas neblinas matinais e os ventos fortes do quadrante norte durante a tarde. Enfim, as características dum clima, que obriga os amantes de praia da zona, a equiparem-se com os típicos tapa-ventos, que não conseguem no entanto impedir que os irritantes grãozinhos da areia fina de São Martinho do Porto, se introduzam em locais para onde não foram convidados. Por causa deles, já não nos lembramos de quando fizemos o último mergulho, naquela que, com a vizinha Salir, fizesse sol fizesse vento, era nos finais dos anos sessenta inícios de setenta do século passado, a praia da nossa despreocupada adolescência.
Este ano no entanto, a tal excepção que confirma a regra, as condições climatéricas pediam meças a qualquer um dos locais das Caraíbas para onde por vezes nos deslocamos. Tudo estava assim preparado para podermos beneficiar de sete «longos» dias de merecido descanso, já que no Canadá, por norma nunca acontece nada. Pura ilusão. Ainda não tínhamos recuperado do jet lag do voo noturno do dia 27 de Maio, e já o telefone tocava e nos anunciava que devido a uma rara e intensa (cada vez menos rara, segundo os especialistas) tempestade sub tropical, mais usual nesta época do ano em latitudes lá para os lados do equador, havia causado o caos nas ruas de Montreal e inundações em muitas residências.  Daí até à confirmação de que tínhamos sido seriamente afectados em algumas das nossas propriedades foi um instante. Não seriam no entanto alguns centímetros de água nesta ou naquela residência que iriam estragar a nossa estadia.
E o facto de nos encontramos do outro lado do mar, não alteraria em nada a nossa posição perante o problema. Aqui ou aí, a única coisa a fazer nestes casos é chamar a companhia de seguros, e foi o que aconteceu.
As surpresas não tinham ainda acabado, no entanto. No dia seguinte somos informados de que um psicopata que fazia a apologia da necrofilia e com tendências canibais, por suspeita de traição amorosa, tinha matado o apaixonado do momento, e decidira enviar pedaços do corpo, pelo correio, para diversas escolas e outros espaços públicos. Luka Rocco Magnotta, de 29 anos, nativo da zona de Toronto, e na altura do crime, habitando em Montreal, onde, além de actor de filmes pornográficos, dançarino de bar, prostituto, e estudante universitário nas horas vagas, era a 30 de Maio último, o assassino mais procurado do planeta Terra. A 26 de Maio, já tinha apanhado um avião da Air Transat (a companhia que mais canadianos transporta para Portugal, depois que a TAP há cerca de 10 anos, entendeu que o nosso mercado, alimentado sobretudo pela emigração, era demasiado complicado para uma «grande» companhia de bandeira portuguesa), para Paris e daí tomara um comboio para Berlim. Estava calmamente instalado num café internet, lendo as notícias que falavam do seu crime, quando um dos empregados do local o reconhece e chama a polícia, que o prendeu sem ter oferecido qualquer resistência. Está agora detido na Alemanha, esperando a extradição para o Canadá.
Atendendo no entanto às nossas leis, e ao carácter horrendo do crime de que é acusado, a exemplo de outros casos relativamente recentes, vai seguramente ser considerado inapto, e a legião de psiquiatras que se vão ocupar do seu caso diagnosticarão  um momento de loucura passageira causadora dum momentâneo buraco negro ansio-depressivo. E vamos todos andar anos a discutir e a pagar aos especialistas que se vão ocupar do caso dum fulano, que se filma enquanto decepa o seu antigo amante, e depois envia os bocados para locais tão diversos como escritórios dos partidos liberal e conservador federais ou escolas primárias da zona de Vancouver na costa do Pacífico. Por isto apenas, a Alemanha irá proceder à extradição do indivíduo para o Canadá, país respeitador dos direitos humanos. Se o crime se tivesse passado no nosso grande  vizinho do sul, a extradição não se efectivaria, pois a sorte que esperava o fulaninho é de todos por demais conhecida.
Felizmente que o resto das nossas férias decorreram sem outras novidades. Nós e a nossa companheira passámos assim os três últimos dias de descanso, entre agradáveis tardes relaxantes, respirando o puríssimo ar das nossas florestas de pinheiros situadas na estrada entre o Chão da Parada e Salir, e vários jantares com alguns amigos mais íntimos nos variadíssimos e agradáveis restaurantes de São Martinho do Porto, saboreando uns grelhados com peixes pescados nas águas frias do Atlântico norte, como apenas em Portugal se podem saborear.
Agora, e no momento em que Montreal vive ao ritmo do Grande Prémio de Fórmula Um do Canadá e da final dos playoff da NHL (liga nacional de hóquei sobre o gelo) uma cada vez mais larga fatia dos seus habitantes, nos quais orgulhosamente nos incluímos, está pendente do que se passa lá para os lados da Polónia e da Ucrânia. O resultado do match inaugural não foi o que esperávamos, mas não nos devemos sentir envergonhados da prestação dos nossos representantes, antes pelo contrário!

J.L. Reboleira Alexandre

jose.alexandre@videotron.ca

ASKMEN.COaM ou a aventura de dois jovens nazarenos

Publicado a 1 de Junho de 2012 . Na categoria: Breves Crónicas semanais Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Na altura em que começámos a preparar a crónica desta semana ainda os jornais televisivos do Québec, falavam da mega manifestação do dia 22 de Maio. Há exactamente 100 dias que muitas escolas do Québec estão em greve. O governo provincial,de maioria parlamentar,  decidiu entretanto dar o ano lectivo por encerrado em todas as escolas. Incluem-se aqui obviamente, os estabelecimentos cuja sessão funcionou normalmente, sem aderirem à greve, e os outros, menos de 50% afinal, encerrados há mais de três meses. Para estes últimos, existirá uma sessão encurtada, com início no princípio de Agosto, através da qual, se espera que os alunos afectados pela crise possam recuperar o tempo perdido. Os mais cépticos duvidam do sucesso da ideia e nós ao olharmos para o calendário escolar do fim do Verão, não pudemos deixar de pensar nas famosas passagens administrativas dos anos loucos que se seguiram à revolução portuguesa de Abril, com distribuição avulsa de diplomas, praticamente para todos os inscritos na generalidade das faculdades e institutos da época. A promessa do governo do Québec é de que, apesar de encurtada, a sessão será suficientemente longa e exaustiva para que os estudantes possam absorver as matérias ensinadas.
Com todos estes problemas, e a consequente intoxicação mediática do assunto, pensámos que era altura de falar de coisas mais agradáveis.
Já por várias vezes aqui abordámos o tema da importância dos restaurantes portugueses na nossa cidade. Aliás, geralmente quando se fala de histórias de sucesso no seio da diáspora lusitana, o tema é restauração, esquecendo outros ramos de actividade. Muitíssimo menos vezes se vai à procura de situações de portugueses ou de luso-descendentes, que se demarcam  noutros sectores económicos, em actividades bem mais exigentes em termos de conhecimentos.

Mais sobre ASKMEN.COaM ou a (…)

Mais de 70 dias de greve académica (2º capítulo)

Publicado a 18 de Maio de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Depois de mais de 13 semanas de greve académica, estamos no Québec em vias de ultrapassar em termos de duração, a crise académica portuguesa de 1962. Como naquele longínquo ano ainda a nossa formação escolar não ia além da pachorrenta vivência da antiga Escola Comercial e Industrial  Rafael Bordallo Pinheiro, à sombra do arvoredo da mata da cidade termal, esta crise de 62, com uma duração de 100 dias, passsou-nos completamente ao lado. Por isso usamos este espaço para agradecer a amabilidade do leitor, que na passada semana para ela nos chamou a atenção. Se a oportunidade surgir, dentro de uma dezena de dias, na nossa próxima, e, como de costume, curta estadia nas Caldas, adquiriremos a obra que relata aqueles conturbados tempos de contestação académica em Portugal. Esperamos apenas, agora que a livraria 107 já faz parte do passado, que outro espaço comercial tenha à venda, o livro das Edições Tinta da China, com o titulo “100 dias que abalaram o regime – A crise académica de 1962”, que nos foi  amávelmente referenciado pelo atento leitor da nossa última crónica.
Voltando à situação no Québec, depois de uma longa reunião de várias horas na passada semana, em que participaram os membros do governo, os lideres estudantis e representantes sindicais, poderia pensar-se, que estava à vista o fim deste conflito, com a assinatura dum acordo de princípio entre todos os participantes. Os jovens lideres estudantis, no entanto, e como é norma neste país,  tiveram de explicar os termos desse acordo às bases. Termos estes que não foram aceites pelos estudantes, reunidos, dia após dia, em Assembleias Gerais, nas diferentes  escolas. Voltou assim tudo à estaca zero.
Entretanto e infelizmente, em Victoriaville, uma pequena cidade a cerca de 200 Kms de Montreal, assistiram-se aos primeiros confrontos violentos entre alunos e forças da ordem. Em resultado da carga policial, um dos jovens ao ser atingido por uma bala de borracha perdeu o uso dum olho. Como represália, durante a semana que findou a 12 de Maio, quatro estudantes mais radicais, lançaram o caos na nossa cidade, com o rebentamento de bombas fumegantes numa das linhas do Metropolitano, em plena hora de ponta matinal. Graças ao visionamento dos vídeos e das fotos, captados pelos utentes do serviço público de transportes, os autores foram de imediato identificados, e passados dois dias entregavam-se de motu proprio às autoridades policiais.
Uma análise superficial e incompleta desta greve, por alguém que não conheça a organização da nossa sociedade, poderá levar o leitor mais distraído, ou com ideias pré-concebidas, a assimilar de imediato as opiniões veiculadas por grupos radicais ligados aos pequenos partidos de extrema esquerda, sem qualquer representatividade junto da população, que continua a apoiar o nosso Primeiro Ministro, Jean Charest, e a Ministra da Educação, nas suas posições de inflexibilidade, no que diz respeito  ao aumento das propinas. Começa-se no entanto a recear que a sessão estudantil esteja de facto perdida, e que, o que até agora tem sido uma greve pacífica, se tranforme  em acções de carácter violento.
E já se ouvem, de todos os quadrantes e de forma subtil, apelos incessantes aos intervenientes para que se chegue a um  consenso, no qual não haveria vencidos nem vencedores, e que passaria  pelo congelamento das propinas no próximo ano lectivo, e em que nas próximas eleições provinciais, a acontecerem  o mais tardar dentro de doze meses, este tema seja debatido em profundidade por todos os partidos com assento na Cãmara dos Comuns.  Ao contrário do que se passa em Portugal, onde políticos fora do activo, e que deveriam normalmente contentar-se em gozar plenamente  as chorudas pensões de reforma que lhes são pagas pelos contribuintes lusitanos,  em vez de estarem constantemente a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, inflamando dessa forma e desnecessariamente a população  ( a tal cultura democrática de que falávamos na última crónica), no Québec, e por extensão no resto do Canadá, a aceitação pela oposição da existência dum governo legitimanente eleito, implica por parte dessa mesma oposição, o reconhecimento da derrota das suas ideias. Esta  é uma componente básica e essencial do contrato social, no qual participamos, como membros de pleno direito da sociedade canadiana.
As mudanças mais radicais podem no entanto ter a sua génese  na rua. Mas deverão sempre concretizar-se nas mesas de voto. Não impede que na nossa sociedade, todas as opiniões e todas as ideias se podem livremente exprimir. Como dizia um Primeiro Ministro Britânico, a democracia parlamentar é realmente um péssimo sistema governativo, mas no entanto, é o menos mau de todos os sistemas conhecidos.  A existência duma ditadura, duma maioria legitimamente eleita, pode por vezes ser causa de imensas frustrações para todos os que pensam de forma diferente, mas uma ditadura duma minoria será definitivamente bem pior. Daí, a nossa aceitação, bem como da grande maioria dos cidadãos quebequenses,  da actuação do actual governo. O Primeiro Ministro Charest, depois que a crise começou, não teve ainda  necessidade de se justificar uma única vez perante as cãmaras de televisão nacionais. As vozes discordantes, que são muitas, por uma questão de respeito, têm tido uma actuação similar.
Perante isto, temos obviamente de concordar que, qualquer semelhança com o (a)normal comportamento dos membros da classe política portuguesa, é pura coincidência. Temos consciência de que para quem está habituado ao tipo de jogo político que se pratica em Portugal, esta forma de agir é difícil de entender. Somos no entanto da opinião que um país como o Canadá, uma das mais antigas democracias parlamentares do planeta, não tem lições a receber dos hábitos democráticos dum país como Portugal, onde grande parte da sua população ainda guarda bem vivos, todos os traumas das longas trevas dos consulados de Salazar e Caetano, e em que apenas neste momento, a classe política no activo, viveu desde o berço em plena liberdade.

J.L. Reboleira Alexandre

jose.alexandre@videotron.ca

Mais de 70 dias de greve académica

Publicado a 4 de Maio de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Quando no dia 9 do passado mês de Março, falávamos aqui das razões que mantinham os  estudantes do Ensino Superior e Colegial do Québec, numa greve geral, que na altura durava já há cerca de duas semanas, estávamos longe de imaginar que nos finais de Abril, numa altura em que por norma, a chamada Sessão Escolar de Inverno (esta vai de Janeiro a Maio, a outra, de Outono, vai de Agosto a Dezembro) termina, voltássemos ao tema.
Assim e pela primeira vez na história da nossa Província (logo aqui, onde a história é tão mal tratada), uma greve geral académica perdura há mais de 70 dias. Nas nossas velhas recordações das experiências do género em Portugal, quando frequentávamos os bancos da escola, normalmente as greves, com cavalaria (que nada tinha a ver com a Real Polícia Montada Canadiana), e polícia de choque à mistura, não ultrapassavam alguns dias, e circunscreviam-se a escolas específicas, nunca a toda a Academia. Depois de 25 de Abril de 1974, uma vez que saímos de Portugal em 1976, não pudemos, como é lógico, seguir atentamente todos os movimentos estudantis dos alunos lusitanos, mas duvidamos sinceramente, até pela falta de cultura democrática do povo português, que alguma greve académica fosse além dos «nossos» alguns dias. Se estamos equivocados, pedimos as nossas desculpas, mas não cremos!
Este é mais um dos elevados custos de viver numa democracia velha de várias gerações, onde os governos estão habituados a lidar com este tipo de situações, resultantes das lutas dos trabalhadores ou dos legítimos anseios da classe estudantil. A forças policiais estão no entanto, diariamente e em grande número nas ruas das nossas cidades, no sentido de evitar males maiores, como actos de vandalismo nos edifícios públicos, nas vitrinas dos nossos comércios, ou outros desmandos da autoria dos jovens adultos.
O nosso actual Primeiro Ministro (para quem está menos familiarizado com o funcionamento deste país, nunca é demais repetir que, o ensino, sendo de domínio provincial, é gerido a partir da cidade de Québec, capital da província, e não de Otava, capital do Canadá) velha raposa da política, ao não aceder desde o princípio da crise, aos pedidos dos estudantes, esperava obviamente que estes acabassem por se cansar, e,  com o aproximar do final do ano lectivo, decidissem voltar às salas de aulas. Só que os estudantes, assembleia após assembleia, e através dum sistema de votos por braço no ar, numa época em que todos os jovens possuem computador pessoal e telefone celular, a inexistência de voto secreto acabou por causar algum receio nos alunos que, por diversas razões, se opõem a esta greve. As três organizações representativas da quase totalidade dos estudantes, podem assim, continuar a considerar as suas acções como sendo legítimas. É esta forma arcaica de votação, digna dos velhos partidos comunistas do século XIX, que coloca a maioria da população contra os dirigentes estudantis, e o governo, consciente disso,  pouco ou nada tem feito para resolver o problema.
Neste momento, já se coloca a hipótese de, pura e simplesmente anular a sessão académica, pois o prolongamento da mesma para finais de Junho irá colidir com os direitos dos professores e outros funcionários, às férias de Verão. Para não falarmos dos custos astronómicos para todos nós, contribuintes, que tal ocasionaria, com todos os funcionários dos estabelecimentos de ensino a trabalharem em época normal de férias.
O Governo já deu no entanto alguns sinais de abertura, estando disposto a mudar alguns dos pressupostos inicialmente estabelecidos para o aumento gradual das propinas, que deveriam ser implementadas ao longo de cinco anos, prazo este que foi entretanto alargado para sete anos. Não foi no entanto o suficiente para que a organização estudantil mais radical, mostrasse disposição para aceitar a proposta da ministra da educação, que desde o início tem demonstrado alguma abertura, ao contrário do seu chefe, o Primeiro Ministro, que é reconhecido pela sua inflexibilidade negocial. Nesta altura está já, aliás, a dar alguns sinais de impaciência, e poderá eventualmente solicitar eleições gerais antecipadas na província, sabendo à priori que sairá delas com um governo consolidado, pois todas as previsões apontam no sentido de ser de novo o seu partido, o Partido Liberal do Québec, a ser chamado para governar, o que, a suceder, lhe daria um poder ainda mais forte.
A população duvida no entanto que isso resolva o quer que seja. É que depois de uma greve que já ninguém entende, e em que, hoje em dia as pessoas já não tentam perceber qual das partes tem ou não razão, se os estudantes, se o Governo. Hoje apenas todos se perguntam o porquê, de, após 11 longas semanas de greve geral académica ilimitada, com manifestações de rua quase diárias, esta situação se mantém, com a generalidade dos Campus Universitários da Província do Québec a viver na maior confusão, e em que é normal verem-se piquetes de greve à entrada de algumas escolas mais radicais, na sua habitual função de  impedir a entrada de algum estudante mais afoito, no interior dos diversos estabelecimentos de ensino superior quebequenses.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

O novo par de sapatos de Jim Flaherty

Publicado a 5 de Abril de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

No início da última semana do mês de Março, todas as televisões do Canadá seguiam atentamente o momento em que o nosso Ministro das Finanças do governo federal se dirigiria à  sapataria da sua preferência, no acto solene de comprar um novo par de sapatos. Diz a tradição que, para apresentação do orçamento do governo canadiano, é de bom tom, calçar um par de sapatos novinhos em folha. A mensagem que o ministro passou cá para fora, no interior da sapataria, era  a de que iríamos ser contemplados com um novo ano fiscal de poupança, e de grande contenção da despesa. O membro do governo apenas tirara do seu porta moedas a módica quantia de 135.00$ dólares, com os quais adquiriu um modestíssimo par de sapatos de qualidade duvidosa, já que aquele montante, equivale ao custo mínimo duns sapatos novos neste país.
Foi assim sem surpresas, que no passado dia 29, o país acolheu algumas novidades, nem todas muito agradáveis. Numa tentativa de abandonarmos o défice, que afecta as contas públicas canadianas desde que a crise se instalou no grande vizinho do Sul e depois na Europa, a partir do ano fiscal de 2015-2016, o actual governo prevê que o Canadá volte de novo a uma situação equilibrada, com o saldo das contas da grande nação canadiana a ser de novo escrito a preto.
A redução na despesa dos vários ministérios será este ano da ordem dos 5,2 mil milhões de dólares,ou seja, o equivalente a cerca de 0.2 % do PIB do Canadá para 2016-2017.
A notícia com mais impacto e a que mais vai afectar directamente a maioria de todos nós, foi no entanto, a que se refere à da alteração da idade, a partir da qual todos os canadianos por nascimento ou por opção, bem como todos os  residentes permanentes (imigrantes) deste país, passarão a ter direito ao recebimento da pensão federal. Convém realçar que as nossas pensões são constituídas, regra geral, por dois cheques. Um do governo federal e outro da província na qual habitamos. Evidentemente, a partir do momento em que o governo de Otava altera a idade da reforma dos canadianos, as províncias modificam igualmente as suas pensões. Esta alteração da idade da reforma de todos nós, apenas se pode considerar como uma meia surpresa, pois de algum tempo a esta parte as mensagens que nos chegavam da capital federal iam todas nesse sentido. Não estamos a fazer mais afinal, do que a Alemanha já fez há algum tempo e os próprios franceses, se preparam para fazer. Não conhecemos bem a intenção do governo de Lisboa neste capítulo, mas imaginamos que, como políticos responsáveis que são, tanto os actuais como os anteriores locatários do Palácio de São Bento, têm vindo paulatinamente a preparar os portugueses para esta inevitabilidade, de forma  a que, quando tal acontecer, todos os nossos amigos desse pequeno cantinho, num dos intervalos das discussões sobre o grau de honestidade  dos árbitros da bola, possam pouco a pouco começar a mentalizar-se para esta nova realidade.
Imaginamos igualmente que, tal como aqui, o actual governo do PSD/CDS bem como o anterior do PS, têm feito diariamente, um trabalho de sensibilização e de mentalização das pessoas para a problemática da baixa natalidade, e dos fraquíssimos rendimentos dos mercados de capitais nestes últimos anos, os quais, aliados ao aumento gradual da esperança média de vida das populações, irão pôr em causa a sustentabilidade dos fundos de pensões para as gerações vindoiras, que não deverão em caso algum, ser penalizadas pelas políticas do nosso tempo.
Para impedir que tal aconteça, o Canadá legislou, e já se sabe que as pessoas nascidas a partir de Março de 1958 apenas começarão a receber as suas reformas depois da data em que perfazem 66 anos, e todos aqueles que nasceram depois de Fevereiro de 1962 começarão a receber as suas pensões a partir do dia em que perfazem 67 anos. Além disso, todos os que optarem por continuar a trabalhar até aos 70 anos, verão o seu cheque mensal federal, aumentado em cerca de 30%. Trata-se de uma reviravolta de 180 graus, relativamente ao que até há pouco tempo se pedia, com todos a aspirarem ao direito de reforma a partir dos 55 anos. Mas quando se sabe que, cada vez mais se vive para além do centenário, não é preciso possuir grandes conhecimentos de actuariado para compreender esta nova problemática. Cabe aos responsáveis políticos, alertarem as populações para tal.
Tratando-se de uma medida definitivamente impopular, foi no entanto facilmente aceite por todos os quadrantes políticos canadianos, e até o partido Os Verdes, normalmente mais à esquerda,  a aceita como inevitável.  Imaginamos seguramente, que os membros do nosso Partido Comunista do Canadá, não estarão de acordo, mas como também não têm  representação na Cãmara dos Comuns, não somos obrigados, tal como aí, a ouvir as suas cassetes, repetidamente e até à exaustão, com  as mesmas vozes de contestação, que foram importantes  em determinadas alturas da história dos povos de diversos países, e de Portugal em particular , mas que já não se justificam após 40 anos de vida democrática. A democracia acabará no entanto por fazer o seu trabalho, como o fez noutras grandes nações da Europa, e aqui, estamo-nos a lembrar do grande  PC  francês de Georges Marchais da crise de Maio de 68, e dos anos que a ela se seguiram. Agora, e para além dos historiadores, quem se lembra deles? O mesmo acabará por suceder em Portugal, pois os partidos,  como tudo o resto aliás, nascem, crescem e  desaparecem!

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Quebec – A inadaptação e a deportação

Publicado a 6 de Janeiro de 2012 . Na categoria: Actuais Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Com o aparecimento da internet e consequente liberalização das comunicações, as distâncias entre os países e os povos, são cada vez mais curtas. Apesar disso, sempre que falamos com os nossos contactos em Portugal, (o aparecimento destas crónicas vem dum desses diálogos) nota-se da parte dos nossos interlocutores um quase total desconhecimento da sociedade canadiana. Somos sempre imaginados como alguém que vive lá para cima dos Estados Unidos, perdidos algures no meio dos esquimós, entre a grande nação americana e os gelos eternos do Pólo Norte. No entanto, os pontos de convergência entre os dois mais ricos países do continente americano são residuais.
A sociedade canadiana é muito liberal, mas extremamente ciosa do respeito e do cumprimento das suas leis. Devido à forte presença do Estado em todos os domínios, desde a saúde até ao ensino, passando pelo apoio à pequena infância, é praticamente impossível viver ilegalmente neste país. O recente caso da deportação da família Sebastião para os Açores,  confirma tudo o que acabamos de mencionar. Tinham partido de São Miguel, da pequena aldeia de Rabo de Peixe, há cerca de 10 anos, numa altura em que ainda não se falava de crise em Portugal, mas, para os habitantes dos Açores, situados a meio caminho entre a América e a Europa, a opção da partida para o Novo Mundo está sempre presente. Diríamos mesmo que não há familia açoreana que não tenha parentes do outro lado do Oceano. Para o povo açoreano, independentemente do seu nível de escolaridade, emigrar é a coisa mais natural, e muitos deles, ao fim de poucos anos, e ao contrário dos continentais, cortam totalmente os laços afectivos com as Ilhas.
Agora, mais do que nunca, é dificil obter-se o estatuto de imigrante no Canadá. A actual presença em Otava dum governo conservador, apenas aumenta o grau de dificuldade àqueles que pensam estabelecer-se neste maravilhoso país. Ainda há pouco tempo, o nosso Primeiro Ministro Federal, senhor Stephen Harper, anunciava na reunião do G20 em Cannes, na Côte d‘Azur, e depois de saber que a China tinha aberto a sua moeda às naturais flutuações dos mercados cambiais, que  os contribuintes canadianos  não estavam disponíveis (palavras suas) para ajudar a Europa a sair da grave situação em que se encontra . A crise por que está a passar o Velho Continente nesta altura é em tudo similar àquela por que passou o Canadá no início dos anos noventa do último século, e foi através de duras medidas de carácter económico (o sector público aqui como aí foi o mais penalizado) que o país ultrapassou essa fase difícil. Por isso, é opinião do  nosso governo, bem como dos restantes membros do G20, de que devem ser os países ricos da Europa, a Alemanha e a França, a apoiar os povos dos países limítrofes, conduzidos para uma situação de autêntico caos financeiro pelas sucessivas irresponsabilidades dos seus últimos governantes.
Voltando ao título desta crónica, e para todos aqueles que são tentados a abandonar Portugal, no meio duma conjuntura que cada vez mais se assemelha àquela que nós vivemos em 1975/1976, e que, ou por razões familiares ou outras, optam pelo Canadá, somos da opinião que a melhor forma de obter o visto de imigrante, que permite o estabelecimento nestas paragens, é através do cumprimento de todos os regulamentos que são impostos desde o início da aventura. Sabendo que o Canadá não exige visto para os turistas portugueses, a pior coisa a fazer é, uma vez chegados, e depois de expirado o normal prazo de seis meses para «visitar» Toronto, Montreal ou outra grande cidade, se irem deixando ficar e entregarem a sua situação nas mãos dos chamados «advogados de imigração».
Em vez disso devem optar por tentar obter junto de algum comércio do local onde estejam, o necessário contrato de trabalho em profissões específicas ligadas à comunidade de que fazem parte. No caso dos nossos compatriotas, sabemos que especialistas em pastelaria (todos os canadianos gostam de pasteis de nata), charcutaria, ou cozinha típica portuguesa, continuam a ser requisitados, devido à escassez destes profissionais. Uma vez na posse deste documento, há que regressar ao país de origem, deixando aqui algum amigo ou familiar que vá dando seguimento ao processo, e sabemos por experiência própria que ao fim de algum tempo o necessário visto de entrada é obtido. Depois vem a parte mais dificil, sobretudo para nós, continentais, que é o habituar-se a um clima e a um modo de vida que estão nos antípodas daquilo a que hoje, a grande maioria dos habitantes de Portugal estão habituados. Uma vida de trabalho e de poupança, com uma visão a longo termo, totalmente diferente da vida na Europa. Os casos de potenciais emigrantes que aqui chegam todos os dias, e que ao fim de alguns meses, dois ou três em média, voltam aos seus países, desiludidos, ou porque o clima é muito duro, ou porque o café da esquina não tem o mesmo ambiente que lá na «terra», ou até,  porque o maldito patrão pensa que somos escravos, fazem parte do nosso dia a dia, e lidamos com eles mais do que seria normal esperar. Até, aquelas e aqueles que parecem mais seguros de si à chegada, por vezes nos surpreendem com a decisão de abandonar uma aventura, que poderia ser maravilhosa, bastando para que tal aconteça, uma pequena dose de coragem para enfrentar os primeiros escolhos da caminhada.
Trata-se tão sómente das dificuldades iniciais, derivadas da adaptação a novos costumes, novas línguas, novas formas de viver. Parafraseando um chefe da diplomacia portuguesa em Paris que, há pouco tempo, interpelado por um jovem luso que não entendia o porquê dum povo descendente de Vasco da Gama e  Cabral, ser obrigado a passar ciclicamente por tantas dificuldades, respondeu:
-os portugueses descendentes de Gama e Cabral ficaram espalhados pelo Mundo. Os outros nunca partiram. Concluindo, qualquer um, numa fase dificil da vida, pode pensar em emigrar, mas não são todos, que se tornam emigrantes!

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca


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