Mais de 70 dias de greve académica

Publicado a 4 de Maio de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Quando no dia 9 do passado mês de Março, falávamos aqui das razões que mantinham os  estudantes do Ensino Superior e Colegial do Québec, numa greve geral, que na altura durava já há cerca de duas semanas, estávamos longe de imaginar que nos finais de Abril, numa altura em que por norma, a chamada Sessão Escolar de Inverno (esta vai de Janeiro a Maio, a outra, de Outono, vai de Agosto a Dezembro) termina, voltássemos ao tema.
Assim e pela primeira vez na história da nossa Província (logo aqui, onde a história é tão mal tratada), uma greve geral académica perdura há mais de 70 dias. Nas nossas velhas recordações das experiências do género em Portugal, quando frequentávamos os bancos da escola, normalmente as greves, com cavalaria (que nada tinha a ver com a Real Polícia Montada Canadiana), e polícia de choque à mistura, não ultrapassavam alguns dias, e circunscreviam-se a escolas específicas, nunca a toda a Academia. Depois de 25 de Abril de 1974, uma vez que saímos de Portugal em 1976, não pudemos, como é lógico, seguir atentamente todos os movimentos estudantis dos alunos lusitanos, mas duvidamos sinceramente, até pela falta de cultura democrática do povo português, que alguma greve académica fosse além dos «nossos» alguns dias. Se estamos equivocados, pedimos as nossas desculpas, mas não cremos!
Este é mais um dos elevados custos de viver numa democracia velha de várias gerações, onde os governos estão habituados a lidar com este tipo de situações, resultantes das lutas dos trabalhadores ou dos legítimos anseios da classe estudantil. A forças policiais estão no entanto, diariamente e em grande número nas ruas das nossas cidades, no sentido de evitar males maiores, como actos de vandalismo nos edifícios públicos, nas vitrinas dos nossos comércios, ou outros desmandos da autoria dos jovens adultos.
O nosso actual Primeiro Ministro (para quem está menos familiarizado com o funcionamento deste país, nunca é demais repetir que, o ensino, sendo de domínio provincial, é gerido a partir da cidade de Québec, capital da província, e não de Otava, capital do Canadá) velha raposa da política, ao não aceder desde o princípio da crise, aos pedidos dos estudantes, esperava obviamente que estes acabassem por se cansar, e,  com o aproximar do final do ano lectivo, decidissem voltar às salas de aulas. Só que os estudantes, assembleia após assembleia, e através dum sistema de votos por braço no ar, numa época em que todos os jovens possuem computador pessoal e telefone celular, a inexistência de voto secreto acabou por causar algum receio nos alunos que, por diversas razões, se opõem a esta greve. As três organizações representativas da quase totalidade dos estudantes, podem assim, continuar a considerar as suas acções como sendo legítimas. É esta forma arcaica de votação, digna dos velhos partidos comunistas do século XIX, que coloca a maioria da população contra os dirigentes estudantis, e o governo, consciente disso,  pouco ou nada tem feito para resolver o problema.
Neste momento, já se coloca a hipótese de, pura e simplesmente anular a sessão académica, pois o prolongamento da mesma para finais de Junho irá colidir com os direitos dos professores e outros funcionários, às férias de Verão. Para não falarmos dos custos astronómicos para todos nós, contribuintes, que tal ocasionaria, com todos os funcionários dos estabelecimentos de ensino a trabalharem em época normal de férias.
O Governo já deu no entanto alguns sinais de abertura, estando disposto a mudar alguns dos pressupostos inicialmente estabelecidos para o aumento gradual das propinas, que deveriam ser implementadas ao longo de cinco anos, prazo este que foi entretanto alargado para sete anos. Não foi no entanto o suficiente para que a organização estudantil mais radical, mostrasse disposição para aceitar a proposta da ministra da educação, que desde o início tem demonstrado alguma abertura, ao contrário do seu chefe, o Primeiro Ministro, que é reconhecido pela sua inflexibilidade negocial. Nesta altura está já, aliás, a dar alguns sinais de impaciência, e poderá eventualmente solicitar eleições gerais antecipadas na província, sabendo à priori que sairá delas com um governo consolidado, pois todas as previsões apontam no sentido de ser de novo o seu partido, o Partido Liberal do Québec, a ser chamado para governar, o que, a suceder, lhe daria um poder ainda mais forte.
A população duvida no entanto que isso resolva o quer que seja. É que depois de uma greve que já ninguém entende, e em que, hoje em dia as pessoas já não tentam perceber qual das partes tem ou não razão, se os estudantes, se o Governo. Hoje apenas todos se perguntam o porquê, de, após 11 longas semanas de greve geral académica ilimitada, com manifestações de rua quase diárias, esta situação se mantém, com a generalidade dos Campus Universitários da Província do Québec a viver na maior confusão, e em que é normal verem-se piquetes de greve à entrada de algumas escolas mais radicais, na sua habitual função de  impedir a entrada de algum estudante mais afoito, no interior dos diversos estabelecimentos de ensino superior quebequenses.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

O novo par de sapatos de Jim Flaherty

Publicado a 5 de Abril de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

No início da última semana do mês de Março, todas as televisões do Canadá seguiam atentamente o momento em que o nosso Ministro das Finanças do governo federal se dirigiria à  sapataria da sua preferência, no acto solene de comprar um novo par de sapatos. Diz a tradição que, para apresentação do orçamento do governo canadiano, é de bom tom, calçar um par de sapatos novinhos em folha. A mensagem que o ministro passou cá para fora, no interior da sapataria, era  a de que iríamos ser contemplados com um novo ano fiscal de poupança, e de grande contenção da despesa. O membro do governo apenas tirara do seu porta moedas a módica quantia de 135.00$ dólares, com os quais adquiriu um modestíssimo par de sapatos de qualidade duvidosa, já que aquele montante, equivale ao custo mínimo duns sapatos novos neste país.
Foi assim sem surpresas, que no passado dia 29, o país acolheu algumas novidades, nem todas muito agradáveis. Numa tentativa de abandonarmos o défice, que afecta as contas públicas canadianas desde que a crise se instalou no grande vizinho do Sul e depois na Europa, a partir do ano fiscal de 2015-2016, o actual governo prevê que o Canadá volte de novo a uma situação equilibrada, com o saldo das contas da grande nação canadiana a ser de novo escrito a preto.
A redução na despesa dos vários ministérios será este ano da ordem dos 5,2 mil milhões de dólares,ou seja, o equivalente a cerca de 0.2 % do PIB do Canadá para 2016-2017.
A notícia com mais impacto e a que mais vai afectar directamente a maioria de todos nós, foi no entanto, a que se refere à da alteração da idade, a partir da qual todos os canadianos por nascimento ou por opção, bem como todos os  residentes permanentes (imigrantes) deste país, passarão a ter direito ao recebimento da pensão federal. Convém realçar que as nossas pensões são constituídas, regra geral, por dois cheques. Um do governo federal e outro da província na qual habitamos. Evidentemente, a partir do momento em que o governo de Otava altera a idade da reforma dos canadianos, as províncias modificam igualmente as suas pensões. Esta alteração da idade da reforma de todos nós, apenas se pode considerar como uma meia surpresa, pois de algum tempo a esta parte as mensagens que nos chegavam da capital federal iam todas nesse sentido. Não estamos a fazer mais afinal, do que a Alemanha já fez há algum tempo e os próprios franceses, se preparam para fazer. Não conhecemos bem a intenção do governo de Lisboa neste capítulo, mas imaginamos que, como políticos responsáveis que são, tanto os actuais como os anteriores locatários do Palácio de São Bento, têm vindo paulatinamente a preparar os portugueses para esta inevitabilidade, de forma  a que, quando tal acontecer, todos os nossos amigos desse pequeno cantinho, num dos intervalos das discussões sobre o grau de honestidade  dos árbitros da bola, possam pouco a pouco começar a mentalizar-se para esta nova realidade.
Imaginamos igualmente que, tal como aqui, o actual governo do PSD/CDS bem como o anterior do PS, têm feito diariamente, um trabalho de sensibilização e de mentalização das pessoas para a problemática da baixa natalidade, e dos fraquíssimos rendimentos dos mercados de capitais nestes últimos anos, os quais, aliados ao aumento gradual da esperança média de vida das populações, irão pôr em causa a sustentabilidade dos fundos de pensões para as gerações vindoiras, que não deverão em caso algum, ser penalizadas pelas políticas do nosso tempo.
Para impedir que tal aconteça, o Canadá legislou, e já se sabe que as pessoas nascidas a partir de Março de 1958 apenas começarão a receber as suas reformas depois da data em que perfazem 66 anos, e todos aqueles que nasceram depois de Fevereiro de 1962 começarão a receber as suas pensões a partir do dia em que perfazem 67 anos. Além disso, todos os que optarem por continuar a trabalhar até aos 70 anos, verão o seu cheque mensal federal, aumentado em cerca de 30%. Trata-se de uma reviravolta de 180 graus, relativamente ao que até há pouco tempo se pedia, com todos a aspirarem ao direito de reforma a partir dos 55 anos. Mas quando se sabe que, cada vez mais se vive para além do centenário, não é preciso possuir grandes conhecimentos de actuariado para compreender esta nova problemática. Cabe aos responsáveis políticos, alertarem as populações para tal.
Tratando-se de uma medida definitivamente impopular, foi no entanto facilmente aceite por todos os quadrantes políticos canadianos, e até o partido Os Verdes, normalmente mais à esquerda,  a aceita como inevitável.  Imaginamos seguramente, que os membros do nosso Partido Comunista do Canadá, não estarão de acordo, mas como também não têm  representação na Cãmara dos Comuns, não somos obrigados, tal como aí, a ouvir as suas cassetes, repetidamente e até à exaustão, com  as mesmas vozes de contestação, que foram importantes  em determinadas alturas da história dos povos de diversos países, e de Portugal em particular , mas que já não se justificam após 40 anos de vida democrática. A democracia acabará no entanto por fazer o seu trabalho, como o fez noutras grandes nações da Europa, e aqui, estamo-nos a lembrar do grande  PC  francês de Georges Marchais da crise de Maio de 68, e dos anos que a ela se seguiram. Agora, e para além dos historiadores, quem se lembra deles? O mesmo acabará por suceder em Portugal, pois os partidos,  como tudo o resto aliás, nascem, crescem e  desaparecem!

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Quebec – A inadaptação e a deportação

Publicado a 6 de Janeiro de 2012 . Na categoria: Actuais Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Com o aparecimento da internet e consequente liberalização das comunicações, as distâncias entre os países e os povos, são cada vez mais curtas. Apesar disso, sempre que falamos com os nossos contactos em Portugal, (o aparecimento destas crónicas vem dum desses diálogos) nota-se da parte dos nossos interlocutores um quase total desconhecimento da sociedade canadiana. Somos sempre imaginados como alguém que vive lá para cima dos Estados Unidos, perdidos algures no meio dos esquimós, entre a grande nação americana e os gelos eternos do Pólo Norte. No entanto, os pontos de convergência entre os dois mais ricos países do continente americano são residuais.
A sociedade canadiana é muito liberal, mas extremamente ciosa do respeito e do cumprimento das suas leis. Devido à forte presença do Estado em todos os domínios, desde a saúde até ao ensino, passando pelo apoio à pequena infância, é praticamente impossível viver ilegalmente neste país. O recente caso da deportação da família Sebastião para os Açores,  confirma tudo o que acabamos de mencionar. Tinham partido de São Miguel, da pequena aldeia de Rabo de Peixe, há cerca de 10 anos, numa altura em que ainda não se falava de crise em Portugal, mas, para os habitantes dos Açores, situados a meio caminho entre a América e a Europa, a opção da partida para o Novo Mundo está sempre presente. Diríamos mesmo que não há familia açoreana que não tenha parentes do outro lado do Oceano. Para o povo açoreano, independentemente do seu nível de escolaridade, emigrar é a coisa mais natural, e muitos deles, ao fim de poucos anos, e ao contrário dos continentais, cortam totalmente os laços afectivos com as Ilhas.
Agora, mais do que nunca, é dificil obter-se o estatuto de imigrante no Canadá. A actual presença em Otava dum governo conservador, apenas aumenta o grau de dificuldade àqueles que pensam estabelecer-se neste maravilhoso país. Ainda há pouco tempo, o nosso Primeiro Ministro Federal, senhor Stephen Harper, anunciava na reunião do G20 em Cannes, na Côte d‘Azur, e depois de saber que a China tinha aberto a sua moeda às naturais flutuações dos mercados cambiais, que  os contribuintes canadianos  não estavam disponíveis (palavras suas) para ajudar a Europa a sair da grave situação em que se encontra . A crise por que está a passar o Velho Continente nesta altura é em tudo similar àquela por que passou o Canadá no início dos anos noventa do último século, e foi através de duras medidas de carácter económico (o sector público aqui como aí foi o mais penalizado) que o país ultrapassou essa fase difícil. Por isso, é opinião do  nosso governo, bem como dos restantes membros do G20, de que devem ser os países ricos da Europa, a Alemanha e a França, a apoiar os povos dos países limítrofes, conduzidos para uma situação de autêntico caos financeiro pelas sucessivas irresponsabilidades dos seus últimos governantes.
Voltando ao título desta crónica, e para todos aqueles que são tentados a abandonar Portugal, no meio duma conjuntura que cada vez mais se assemelha àquela que nós vivemos em 1975/1976, e que, ou por razões familiares ou outras, optam pelo Canadá, somos da opinião que a melhor forma de obter o visto de imigrante, que permite o estabelecimento nestas paragens, é através do cumprimento de todos os regulamentos que são impostos desde o início da aventura. Sabendo que o Canadá não exige visto para os turistas portugueses, a pior coisa a fazer é, uma vez chegados, e depois de expirado o normal prazo de seis meses para «visitar» Toronto, Montreal ou outra grande cidade, se irem deixando ficar e entregarem a sua situação nas mãos dos chamados «advogados de imigração».
Em vez disso devem optar por tentar obter junto de algum comércio do local onde estejam, o necessário contrato de trabalho em profissões específicas ligadas à comunidade de que fazem parte. No caso dos nossos compatriotas, sabemos que especialistas em pastelaria (todos os canadianos gostam de pasteis de nata), charcutaria, ou cozinha típica portuguesa, continuam a ser requisitados, devido à escassez destes profissionais. Uma vez na posse deste documento, há que regressar ao país de origem, deixando aqui algum amigo ou familiar que vá dando seguimento ao processo, e sabemos por experiência própria que ao fim de algum tempo o necessário visto de entrada é obtido. Depois vem a parte mais dificil, sobretudo para nós, continentais, que é o habituar-se a um clima e a um modo de vida que estão nos antípodas daquilo a que hoje, a grande maioria dos habitantes de Portugal estão habituados. Uma vida de trabalho e de poupança, com uma visão a longo termo, totalmente diferente da vida na Europa. Os casos de potenciais emigrantes que aqui chegam todos os dias, e que ao fim de alguns meses, dois ou três em média, voltam aos seus países, desiludidos, ou porque o clima é muito duro, ou porque o café da esquina não tem o mesmo ambiente que lá na «terra», ou até,  porque o maldito patrão pensa que somos escravos, fazem parte do nosso dia a dia, e lidamos com eles mais do que seria normal esperar. Até, aquelas e aqueles que parecem mais seguros de si à chegada, por vezes nos surpreendem com a decisão de abandonar uma aventura, que poderia ser maravilhosa, bastando para que tal aconteça, uma pequena dose de coragem para enfrentar os primeiros escolhos da caminhada.
Trata-se tão sómente das dificuldades iniciais, derivadas da adaptação a novos costumes, novas línguas, novas formas de viver. Parafraseando um chefe da diplomacia portuguesa em Paris que, há pouco tempo, interpelado por um jovem luso que não entendia o porquê dum povo descendente de Vasco da Gama e  Cabral, ser obrigado a passar ciclicamente por tantas dificuldades, respondeu:
-os portugueses descendentes de Gama e Cabral ficaram espalhados pelo Mundo. Os outros nunca partiram. Concluindo, qualquer um, numa fase dificil da vida, pode pensar em emigrar, mas não são todos, que se tornam emigrantes!

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Québec (Canadá) – Em busca duma cerveja numa tarde de Domingo

Publicado a 27 de Outubro de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . há uma resposta a este artigo.

De novo e uma vez mais de volta a este magnífico país, depois duma rápida visita de sete dias ao oeste lusitano, e não havendo nada de especial a dizer, no que, ao nosso país de acolhimento diz respeito, mas não querendo também, ser mais um dos muitos arautos da desgraça que aparecem por aí em todas as tribunas, lembrámo-nos de mais uma caricata situação por que passámos na véspera da viagem de regresso, e que serve apenas para acentuar a amplitude das diferenças nas formas de estar, de viver e de funcionar, das duas sociedades que melhor conhecemos.
Uma que peca eventualmente pelo excesso de zelo, de organização (como tanto gosta de repetir a nossa companheira) e de hábitos de trabalho dos seus habitantes e outra que, apesar dos apelos constantes da camada dirigente, insiste em guardar vícios antigos, que se reflectem na repetição de múltiplas oportunidades perdidas e sempre acompanhadas por renovadas promessas de não se permitir no futuro, (quanto mais distante melhor…), o que de errado se fez no passado recente. Promessas ocas afinal.
Voltemos então àquele fim de manhã de Domingo, do dia 2 de Outubro. Enquanto se fechavam as malas para a longa viagem transatlântica do dia seguinte, é-nos proposto pela nossa companheira, aproveitarmos o magnífico dia de Sol, na pachorrenta calma do amplo terraço do apartamento no centro das Caldas, e em vez de irmos almoçar entre a confusão domingueira dos restaurantes da zona, como prevíramos na véspera, prepararmos uma refeição simples e rápida que degustaríamos na calma do nosso pequeno e silencioso espaço caldense.
Adoptámos a sugestão de imediato, mas um pequeno problema surgiu. Como o frigorifico já estava a descongelar desde a noite anterior, prevendo vários meses de inactividade, e como a temperatura ambiente ultrapassava alegremente os 30 graus centígrados, a refeição teria obrigatoriamente de ser acompanhada por uma boa cerveja fresquinha, que não tínhamos. Estando já mentalmente a caminho de Montreal, de imediato decidimos dar um salto à loja da esquina para comprar a bebida, como fazemos desde há cerca de 35 anos em situação similar, no nosso país de adopção.
Olvidando que o nosso espaço físico ainda era Caldas da Rainha, descemos as escadas do prédio e dirigimo-nos calmamente a um dos supermercados da ampla alameda, excepcionalmente livre de carros, que termina na estação dos comboios, quando os há, e que já nos servira algumas vezes durante as nossas diversas estadias na cidade. Depois de um curto passeio de alguns minutos a pé, ao chegarmos à porta do estabelecimento, encontrámos a mesma encerrada. Decepcionados, ficámos uns segundos mirando o interior, calmo e escuro e sem qualquer movimento. Era óbvio que ainda não estávamos em Montreal, ou na nossa pequena cidade de Longueuil, onde a qualquer hora do dia ou da noite, este género de pequena necessidade se satisfaz rapidamente, sem qualquer esforço, e no respeito dos direitos de todos.
Mas afinal o hiper-mercado estava mesmo ali ao lado, e se tivéssemos vindo de viatura, em menos de três minutos estaríamos lá. Voltámos ao nosso prédio, agora com o passo um pouco mais apressado, pegámos no carro, e fomos até à grande loja, que felizmente estava aberta, e dispunha da tal cervejinha bem fresquinha, que iria acompanhar o nosso almoço de Domingo.
Uma vez à mesa, o tema da conversa, como não poderia deixar de ser, foi a pequena aventura que constitui a compra de uma simples cerveja fresca nas Caldas numa tarde de Domingo de Outubro, com um Sol abrasador, que mais adequado seria ao pretérito mês de Agosto. No Canadá, a satisfação deste tipo de necessidade, pode ser realizada numa das chamadas lojas de conveniência, ou dépanneur, como aqui se diz, nos quais o serviço nos é facultado por apenas um ou uma funcionária, geralmente um dos proprietários do espaço, ou por um jovem estudante que vai ganhando uns trocos para as despesas pessoais. Pode até estar aberto 24 horas por dia, ou, como aí, num grande espaço comercial que funciona até às 23 horas diariamente. Estes, a partir de determinadas horas e em dias feriados, ou Sábados e Domingos, funcionam obrigatoriamente com pessoal reduzido, exactamente para não afectarem em demasia a actividade dos pequenos comércios.
Em Portugal, tudo se passa exactamente ao contrário. Os pequenos espaços, numa atitude de desrespeito pelos clientes, encerram as portas, e os grandes espaços funcionam normalmente. Será que, da próxima vez que necessitarmos de uma cerveja ou doutra coisa qualquer, voltamos a pensar na pequena loja vizinha da nossa casa, ou decidimos pegar de imediato na viatura, e nos dirigimos ao hiper-mercado. Cremos que levantar a questão, é responder-lhe.
Numa altura em que a crise económica se faz sentir de forma premente, não haveria forma de manter este tipo de mercados abertos ao Domingo, criando com isso mais alguns postos de trabalho, mas racionalizando obviamente os custos de operação, apenas com a presença dum número mínimo de funcionários, que poderiam, tal como aqui, ser jovens estudantes, (ou será que estes, como no nosso tempo, continuam a gozar anualmente três meses de férias grandes?) necessários à satisfação das necessidades básicas dos clientes? Ou vamos continuar a lutar por causas antecipadamente perdidas, acompanhadas por muitas manifestações de rua, com apelos que soam muito bem, mas ninguém ouve? Honestamente, sendo conhecedores dos hábitos dos povos ibéricos, vamos pela segunda opção.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Québec (Canadá) – Mélissa et Marie

Publicado a 16 de Setembro de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Falámos na última crónica, do passado dia 2 de Setembro, da atracção que os grandes espaços do Québec exercem sobre os jovens de além Pirenéus, mas não prevíamos que estávamos em vias de podermos apreciar de tão perto, o enorme brilhozinho nos olhos de duas belas jovens, que decidem abandonar o conforto e a segurança do lar materno para uma pequena, ou talvez não, aventura deste lado do grande mar oceano.

Mais sobre Crónica do Québec (…)

Crónica do Québec (Canadá) – «Montréal, ville de festivals»

Publicado a 5 de Agosto de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Como escrevíamos há duas semanas, estamos em pleno Verão. Com a chegada dos primeiros dias  de Agosto entramos na fase final do, curto mas intensamente vivido Verão de Montreal.  Toda esta época festiva tem o seu início,  se assim se pode dizer, com a corrida de Fórmula Um na ilha artifical de Notre-Dame, edificada entre as águas  do rio São Lourenço, com a terra retirada do mesmo nos anos sessenta do século passado, aquando da construção do túnel que liga a grande metrópole à margem Sul. Uma das obras mais emblemáticas da Expo 67. Assim,  durante o segundo fim de semana de Junho de cada ano, o grande circo dos automóveis assenta arraiais na cidade, que de um momento para o outro é invadida pelo Jet Set internacional, para gáudio do comércio local, sobretudo da indústria hoteleira.
Ainda o roncar agressivo mas melódico  dos motores está presente nos nossos ouvidos, quando logo a seguir, entre finais de Junho e os primeiros dez dias de Julho, são outros os sons que fazem vibrar as gentes da terra. Entramos no chamado Festival de Jazz de Montreal, considerado por muitos o maior festival musical, a nível mundial, da actualidade. Durante  duas semanas, os espectáculos sucedem-se ininterruptamente. Muitos em palcos exteriores, nas diversas artérias, para o efeito fechadas à circulação automóvel, da cidade, onde artistas oriundos dos cinco continentes oferecem as suas prestações com entradas livres para todos. Outros há, que se produzem nas inúmeras salas locais. De entre estas,  e pela importância que reveste para a nossa cidade, somos obrigados a mencionar, a Place des Arts de Montreal. Verdadeiro palácio dedicado às artes, ao teatro e à música,  situado em pleno centro da grande cidade e composto por inúmeras salas de espectáculos, edificado ao longo dos anos sessenta do século XX, é ainda hoje o maior complexo artístico e cultural do Québec e do Canadá.

Mais sobre Crónica do Québec (…)

Crónica do Québec (Canadá) – De novo no país dos castores

Publicado a 24 de Junho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Depois de na última crónica termos falado duma forma sucinta da curta estadia de duas semanas por terras luso-oestinas, eis-nos de novo na nossa outra pátria. Hoje em dia, e com com uma vida repartida em partes praticamente iguais entre Portugal e o Québec, não faz sentido dizer se esta ou aquela sociedade representam a primeira ou a nossa segunda pátria, nem quando, ou se pensamos voltar. Voltar para onde e porquê ? Somos  neste momento o resultado do cruzamento de duas culturas distintas. Adoramos o Sol, a cozinha e a luminosidade dessa parte ocidental da Europa, como nos consideramos priveligiados por fazermos parte integrante duma das sociedades ocidentais mais desenvolvidas e respeitadoras dos direitos individuais dos seus habitantes.
A viagem de regresso a Montreal, que deveria ter sido efectuada no passado dia 30 de Maio, foi retardada de 21 horas devido a um problema técnico do avião da Air Transat que nos deveria transportar.  Pelo menos essa foi a informação oficial que nos foi transmitida.  Nada a que não estejamos sobejamente habituados. Apesar de se tratar duma companhia de voos charter, providenciaram no entanto o alojamento para todos os passageiros num conhecido hotel lisboeta  de, imagine-se, 5 estrelas.  Tempo até, para alguns tirarem algumas fotografias das instalações.  Não se pedia tanto, e assim todos os clientes da companhia ficaram satisfeitos com a decisão, adocicada ainda com o recebimento dum cupão de 150 dólares canadianos para uma próxima viagem. Esta é uma das razões por que temos horror às, de todos conhecidas, Low Cost Airlines, que em casos semelhantes, optam normalmente por deixar os seus passageiros/clientes , « confortavelmente»  instalados nos quentes sofás dos aeroportos.
Na viagem de regresso das Caldas para Lisboa, optamos normalmente por fazer o trajecto automóvel pela A8, e claro, mais uma vez tal não se passou sem presenciarmos um aparatoso acidente com um camião na zona de Loures, que, não fora o providencial atraso do nosso voo, que íamos seguindo através das informações que o nosso telefone portátil nos dava,  e essa meia dúzia de quilómetros que nos separavam da Portela, seriam passados na maior das angústias. É que, apesar de termos partido bem cedo das Caldas, teríamos certamente chegado atrasados ao aeroporto.
De novo nas nossas rotinas, quando no dia 13 deste mês de Junho, ao darmos uma rápida vista de olhos pela edição online dum dos diários portuguese somos interpelados por um fait divers em Favões, Marco de Canaveses. Dizia a notícia que, um menino de 12 anos, no dia do seu aniversário natalício, e com a pressa natural da criança em ir ao encontro dos seus, ao sair do autocarro escolar, quando atravessou a rua foi atropelado mortalmente por um veículo pesado de mercadorias.  Sempre que alguém morre desta maneira, naquelas que são, das estradas mais perigosas da Europa, e sobretudo quando se trata duma criança, maior é a dificulade que temos em compreender por que motivo os portugueses continuam a conduzir da forma que o fazem, com índices de sinistralidade que nos deixam estupefactos. Pior ainda quando, a propósito do acidente mencionado, alguns comentários referem a «falta de cuidado e atenção da criança» que seria para esses comentadores, a única culpada por ter atravessado a via no local errado à hora errada.
No nosso tempo de estudante em Portugal, este tipo de acidentes não se produziam, pois o volume de veículos era muito inferior ao de hoje, mas também ainda não havia, salvo raríssimas excepções, autocarros para transporte exclusivo de estudantes.  À imagem do que se passa em todo território da  América do Norte, não seria já hoje possível em Portugal, pintar todos estes veículos com a berrante cor amarelo torrado, dos famosos School Bus ou Écoliers, como aqui se chamam, todos os autocarros de transporte de estudantes, desde a pré-escola  até ao fim do secundário?    Não se pense no entanto que tal medida seria suficiente para amedrontar alguns Fangios frustrados lusitanos !  Vivemos igualmente numa sociedade latina, de sangue quente como se costuma dizer, e se desde há longos anos os típicos School Bus que todos conhecemos do cinema, rolam nas estradas do Canadá, tal não impedia, na província  que conhecemos melhor, que condutores inconscientes continuassem a ceifar vidas inocentes. Até que, há relativamente pouco tempo, foi decidido colocar ao lado da janela do condutor, um enorme sinal de Stop, que aqui se chama de Arrêt, que, enquanto o autocarro afrouxa e até arrancar de novo, se abre para o exterior, qual grande aba, capaz de embater no pára brisas dos mais distraídos, e infeliz  daquele que não se imobiliza completamente atrás do autocarro, enquanto a miudagem entra ou sai do seu meio de transporte colectivo.
Uma ultrapassagem dum School Bus enquanto o tal sinal Stop está aberto, equivale a, além de pesada multa, à perca automática da carta de condução durante  tempo suficiente para resfriar os ânimos mais exaltados. Medida simples de aplicar e que tem salvo imensas vidas. Até lá, as crianças portuguesas continuarão a ser acusadas de atravessar as ruas nos locais errados, pois os habitantes do país que me viu nascer, podem geralmente não ter pressa, mas na estrada, e por motivos que temos dificuldade em descortinar, andam, de forma geral, sempre extremamente apressados. E  pobre daquela ou daquele que, por desconhecimento do local onde está, hesita uns segundos na sua condução. Tem apitadela terceiro-mundista garantida.
J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Quando escrevemos a crónica da semana passada, quizemos passar a ideia de que havia a possibilidade, mas apenas isso, do partido mais à esquerda (se excluirmos os pequenos partidos, incluindo os comunistas, sem expressão nacional) do Canadá formar a nova Oposição Oficial em Otava. Sentia-se no ar um ambiente que nos fazia lembrar a primeira vitória do Partido Quebequense nas eleições provinciais do longínquo ano de 1976. Na nossa província, dir-se-ia que as pessoas estavam cansadas do statu quo, que se mantinha desde que o Partido do Bloco Quebequense fora criado há cerca de vinte anos.
Este partido tinha por adquirida a vitória no Québec, mas como não possuía representaçâo no resto do Canadá, nem era esse o seu objectivo, não lutava pela maioria na Câmara dos Comuns, para utilizar a expressão anglo-saxónica que por aqui se usa. Antes das últimas eleições do dia 2 de Maio contava com 47 deputados na Assembleia, num total de 75 que a nossa província elege, entre a totalidade de deputados federais canadianos de 308.
A anterior Oposição Oficial  era formada pelo centenário Partido Liberal do grande Pierre E. Trudeau dos anos sessenta do século XX, que, sentia-se, sofria do problema da falta de carisma do seu chefe, senhor Michael Ignatief, que imediatamente depois das eleições e não tendo conseguido ser reeleito, apresentou a demissão do posto de Chefe de Partido,  e voltou para onde estava há dois ou três atrás. O ensino Universitário.
A equipa laranja social democrata do NPD,  apesar de nunca ter eleito mais do que um deputado na nossa província, conseguiu com imensas dificuladades apresentar candidatos em todos os círculos eleitorais do país. O seu chefe, senhor Jack Layton, dotado dum discurso fácil e fluente nas duas línguas oficiais, e sempre apoiado na sua mística bengala dos tempos em que lutava contra a doença, estava em todas as tribunas, e distribuía promessas a raiar o populismo, que eventualmente nunca se concretizarão, mas que os eleitores gostam de ouvir. O Partido Conservador, que governava minoritariamente há vários anos, ia fazendo a campanha a que desde sempre nos habituou.  Stephen Harper, autêntico «animal da politica» prometia continuar a governar como o vem fazendo desde Janeiro de 2006. Redução dos impostos e diminuição da presença do Estado em tudo o que está sob jurisdição federal. Pela primeira vez na história do Canadá o Partido Conservador ia vencer as eleições 3 vezes seguidas e, apesar de como os outros, ter sofrido pesada derrota no Québec, perdendo vários deputados  ministeriáveis, com os votos conseguidos no Ontário (normalmente votam no partido vencedor) e nas províncias do Oeste, passou a dispor duma grupo maioritário na nova Assembleia, com 167 deputados eleitos num total de 308 assentos.
No Québec, os grandes derrotados foram os Liberais, mas sobretudo, o Bloco Quebequense, que passou, imaginem,  dos anteriores 47 para apenas 4 deputados (o próprio chefe, com assento na Assembleia há mais de 14 anos não foi reeleito, e demitiu-se logo na noite das eleições) o que lhes retira as condições exigidas para continuarem a ser considerados como um Partido Político oficial face à lei do país, pondo assim em causa a sua sobrevivência. Os grandes beneficiados desta enorme vaga que ninguém viu vir, foram os candidatos do NPD (Novo Partido Democrático) que num total dos 75 lugares disponíveis no Québec, elegeram 58 deputados entre os 102 que obtiveram nas outras províncias canadianas. No entanto uma vaga desta amplitude e a médio prazo, pode acabar por ser prejudicial ao grupo que dela agora beneficia, porquanto alguns destes anteriores candidatos a deputado, e ao bonito salário anual de $175,000.00 dólares que esse estatuto lhes confere durante 4 anos, candidataram-se, imaginem, na expectativa de não serem eleitos. O caso mais caricato passou-se com uma jovem de apenas 27 anos, unilingue anglófona, e empregada dum PUB numa pequena cidade perto de Otava que se apresentou num círculo eleitoral no interior profundo da nossa província, local onde a única língua em que se comunica é o francês. Durante a campanha não apareceu uma única vez aos seus eleitores, e na véspera das eleições partiu de férias para Las Vegas, pois o patrão do PUB apenas lhas podia dar  naquela altura. Imaginem a aflição da bela loura Ruth-Ellen Brosseau, ao constatar, eventualmente entre duas partidas de pocker num dos vários casinos da cidade do jogo, que os quebequenses lhe tinham dado a maioria dos votos, e era a partir daquela noita a legítima representante duma região que não conhecia, onde nunca estivera,  e num meio onde, devido à sua insuficiência linguística, não poderia no imediato dialogar com os seus eleitores.
Hoje esta situação é objecto das mais variadas piadas jocosas nos foruns da internet, e os seus patrões do partido, o melhor que conseguem fazer para explicar o seu actual «desaparecimento» é que está a seguir um curso intensivo de língua francesa. Isto prova que, quando um povo decide alterar algo que, no seu imaginário, está errado, podem acontecer situações que desafiam qualquer noção de bom senso. Foi o que nos aconteceu no Québec na noite do passado dia 2 de Maio. Não votámos na esquerda nem na direita, votámos contra o statu quo. Será que  Portugal no próximo dia 5 de Junho,  num acto de revolta similar, vai ser capaz de alterar a actual situação política que já dura há demasiado tempo e é incapaz de se regenerar interiormente, devendo os seus actores,  e sem entrarmos na habitual dicotomia esquerda, direita, ser substituídos por sangue novo ?  Apesar da  confiança manifestada recentemente pelo chefe do  CSD/PP  na tal grande surpresa que lhe vai ser oferecida pelo eleitorado lusitano, honestamente, não cremos que tal possa vir a acontecer.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Québec (Canadá) – As séries eliminatórias da L.N.H.

Publicado a 6 de Maio de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Na altura em que escrevemos esta crónica vivem-se  os momentos mais intensos da Liga Nacional de Hóquei. Sobre o gelo, claro. Depois la longa época regular que começou em Outubro, as equipas que ficaram nos  lugares cimeiros das diversas divisôes voltam a encontrar-se ,  para decidir o vencedor da Taça Stanley.  Como sucede com todos os desportos profissionais na América do Norte, depois das várias equipas dos dois países, Estados Unidos e Canadá, se terem defrontado múltiplas  vezes entre si, no caso do hóquei, tratando-se do desporto nacional do Canadá, é a  partir do mês de Abril que tudo se torna mais sério . Nós, como muitos outros, apenas a partir desta fase lhe dedicamos alguma atenção.  Sendo os Canadiens de  Montreal uma das equipas mais antigas e com maior historial em termos de vitórias, pois num passado já algo distante tinham direito de preferência na contratação dos jogadores canadianos franceses, sendo desde sempre nativos do Québec  alguns dos  melhores praticantes da modalidade , é com algum desprendimento  que  assistimos a uma autêntica febre de hóquei  que invade  a  nossa província. Nesta eliminatória a equipa adversária são os Boston Bruins, e para se ter uma ideia da atenção que se dá por cá a esta competição lembramos apenas que há dias, o debate televisivo entre os chefes dos nossos quatro maiores partidos políticos federais, com as  eleições marcadas para o dia 2 de Maio, optaram por alterar a data inicialmente prevista para o mesmo, pois coincidia com a hora da realização dum jogo Des Canadiens.
Sem chegarmos aos exageros das televisões portuguesas,  que, numa altura  em  que a troika,  (novo vocábulo para alguns, muitos,  portugueses  e deliciosas recordações para uns tantos da nossa geração) tenta encontrar uma solução que resolva  os graves  problemas que andaram a ser escamoteados aos habitantes da nação lusitana, depois da recente final da Taça de Portugal em futebol, os jornalistas das diversas TVs  entenderam que o melhor seria  abrir todos os telejornais com as peripécias da dita futebolada.
Esta crónica é no entanto sobre hóquei e é de hóquei que vamos continuar a falar. As equipas estão divididas por duas  divisões,  Este e Oeste. Cada uma destas zonas geográficas engloba  quinze organizações. A divisão Este está sub-dividida em 3 zonas,  Nordeste, Atlântica e Sudeste.  A divisão Oeste divide-se em, zona Central,  Noroeste e do Pacífico. Estas sub-divisões são constituídas  por cinco equipas cada, que jogam muitas vezes entre si  durante a época regular. As  equipas de divisões diferentes encontram-se menos vezes do que as que são da mesma divisão ou de diferentes zonas da mesma divisão.
Note-se que aqui,  o termo divisão não tem o mesmo significado que na Europa. O facto de uma equipa ficar no último lugar da sua divisão não equivale à despromoção, como se usa em Portugal e na Europa em geral.  Aqui, o direito de fazer parte duma liga profissional compra-se com muitos milhões de dólares, mas o risco de serem sempre os mesmos a ganhar não se põe, pois existe a chamada  repescagem.  Trata-se do direito de opção, que é concedido aos últimos classificados de cada época,  na escolha dos melhores jogadores jovens dessa mesma  época.   Este direito não se circunscreve geograficamente apenas à América do Norte, mas igualmente aos diversos campeonatos europeus, donde  vêm alguns dos nossos melhores praticantes da actualidade,  sobretudo da Suécia, Finlândia, Rússia e República Checa.  Está assim garantida, uma salutar e regular alternância no nome das equipas vencedoras.
Outro pormenor que devemos salientar é a presença  de quatro árbitros, profissionais,  de campo, que no caso de dúvida solicitam a ajuda dos meios electrónicos,  e no espaço de alguns segundos clarificam se a pequena  rodela de borracha que viaja a velocidades extremas,  ultrapassou ou não a fatídica linha de baliza.   Outra diferença relativamente ao soccer é que,  as eliminatórias até ao último jogo da grande final, não se resolvem em apenas dois jogos  mas sim no melhor de sete partidas, e muitas vezes apenas ao sétimo encontro,  se encontra o vencedor. No caso presente a equipa de Montreal que tinha ganho os dois primeiros encontros em Boston, perdeu de seguida os dois que disputou em casa, e neste quinto desafio  que se  está de novo a disputar em  Boston, após o tempo regulamentar de três períodos úteis de vinte minutos cada,  o resultado era um empate. No desempate,  por iguais periodos de vinte minutos, tudo termina quando uma equipa marca um golo. Desta vez a sorte coube à equipa de Boston. A série está agora,  3-2 a favor dos americanos.  Dentro de 72 horas, tudo poderá ficar decidido, ou talvez não. Se Montreal vencer teremos um sétimo e derradeiro  match.  As equipas encontram-se três a quatro vezes na mesma semana, e tudo isto terá o seu epílogo no final de Maio, mas normalmente  já em Junho, dependendo da duração de cada eliminatória.
Escusado será dizer que os diferentes anfiteatros cobertos, onde tudo isto se passa,  têm capacidade para cerca de vinte mil espectadores,  que o barulho ambiente é simplesmente ensurdecedor, e todos os jogos são disputados com a totalidade dos bilhetes antecipadamente vendidos. As equipas normalmente são propriedade de grupos económicos ou de grandes investidores individuais,  sendo de salientar que até à época passada o proprietário do Clube de Hóquei Les Canadiens de Montreal  era o americano George Nield  Gillet, simultaneamente proprietário do clube de futebol  Liverpool da Premier League . Entretanto desfez-se destes dois activos, que guardou cerca de três a quatro anos e no caso da nossa equipa de hóquei obteve mais-valias fabulosas pois comprara-a  numa altura em que o nosso dólar valia cerca de setenta cêntimos do dólar US e vendeu com as duas moedas em paridade. Razão tiveram os nossos governantes  na altura,  quando resistiram a enormes  pressões para que adoptássemos o dólar americano. Hoje a questão nem se pôe, e todos concordam que a independência dum povo, passa pela posse duma moeda própria e flutuante.
Quando este crónica for publicada já uma das equipas,  Montreal ou Boston,  que neste momento se defrontam,  terá ficado pelo caminho, mas a tarefa dos vencedores  terá sido tudo menos fácil. Para os leitores que têm em Portugal  acesso aos canais de desporto, aconselhamos  sinceramente que acompanhem as séries da Stanley Cup até à final, pois o espectáculo vale a pena, e vai muito além da violência aparente e real dos protagonistas. Bon Match!

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca

Crónica do Québec (Canadá) – Este Inverno que não quer partir

Publicado a 29 de Abril de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Normalmente com a mudança da hora no último fim de semana de Março e com a chegada do mês de Abril começamo-nos a preparar para temperaturas mais agradáveis. Alguns vizinhos aproveitam todos os momentos livres para, armados de pesadas pás de metal, partir os restos de blocos de gelo que teimosamente resistem às temperaturas finalmente positivas, conseguindo com esta  actividade antecipar a visão da relva do jardim, escondida desde finais de Novembro, e ganhar alguns dias àqueles que, como nós, entendem que o melhor é esperar calmamente, que a natureza faça o seu trabalho.
É a ilusão de que a Primavera, como acontece noutras latitudes começa a 21 de Março de cada ano. Mas quando no fim da segunda semana de Abril olhamos para as árvores totalmente despidas de verdura, realizamos, ano após ano afinal, que por aqui Primavera é uma estação que praticamente não chegamos a conhecer. Regularmente, apenas após os meados de Maio e numa explosão de cores e odores fechamos os aquecimentos das nossas residências, e dois ou três dias depois são já os sistemas de ar condicionado que entram em funcionamento. Hoje, dia 16 de Abril, enquanto lá fora o termómetro se balança entre o positivo e o negativo, todas as televisões repetiam até à exaustão, que se a região metropolitana de Montreal escapou a mais uma tempestade de neve, algures, a cerca de uma hora de viagem estão a cair mais trinta centímetros dum tipo de brancura que muitos portugueses conhecem de visitar a Serra da Estrela em Janeiro. Neve pesada, húmida e fria que não tem nada a ver com os graciosos, leves e frágeis farrapos de  algodão dos nosssos Invernos.
Será eventualmente o último sobressalto de mais um longo e duro período invernal que teima em ditar as suas leis, e para o qual, nunca a maioria dos quebequenses está preparada. Ano após ano, Inverno após Inverno, ouvimos as mesmas recriminações contra o nosso clima. Os nativos ainda reagem com mais raiva e vigor, e é da boca deles que ouvimos as maiores imprecações. Os outros, que como nós andam por cá, porque escolheram este local de motu proprio, dir-se-ia que aceitamos com maior resignação as agruras e inclemências das nossas condições climatéricas.
Por isso já em anteriores crónicas mencionámos que, abandonar a terra onde se nasce, muitas vezes dotada de climas temperados, com muitas e belas praias, é uma decisão fácil de tomar, mas de difícil realização. Se a isto juntarmos o facto de que a maioria dos expatriados, domina mal ou pura e simplesmente não domina, a língua dos países de acolhimento, é sempre com um misto de respeito e admiração que, sempre que vemos chegar ao nosso escritório um jovem de qualquer nacionalidade que nos menciona ter deixado recentemente o seu país, que pode dar pelo nome de Portugal, França, Marrocos, ou outro qualquer, nunca o deixamos partir sem lhe endereçarmos uma palavra de encorajamento, dizendo-lhe que escolheu um dos melhores locais da terra para viver, mas que a empresa não será fácil. Antes de partirem,  ainda os relembramos de que como a todos acontece, salvo raríssimas execpções, os primeiros vinte anos de adaptação são os mais difíceis. E como nos repetem constantemente os nossos amigos cubanos depois de ouvirem as nossas sempiternas queixas sobre o Inverno canadiano. No si puede tener todo,  amigo.  Eles lá em Varadero ou num dos muitos pueblos dispersos pelos vários cayos, têm o clima e as praias que nós não temos. Mas como costumam dizer, não têm mais nada, e depois de terem visto na televisão da sala comunal a neve das nossas montanhas, esperam ansiosamente pela liberalização do sistema político do país, para poderem como nós, partir para outros destinos, libertando-se definitivamente do medo e da repressão que fazem parte do seu dia a dia.
Com os problemas que observamos hoje um pouco por todo o lado, ampliados pelas comunicações instantâneas de que dispomos, consideramo-nos privilegiados por sermos membros de pleno direito dum país chamado Canadá. E se, como quando há algumas horas apenas, um dos nossos amigos do Chão da Parada, nos lembrava da terrível crise que Portugal atravessa, com FMI s e outros interessados, e o país á beirinha da bancarrota, onde os mais ricos são cada vez mais ricos e os pobres estão cada vez mais na mesma. Replicamos que o nosso velho país do Ocidente da Europa, está apenas a enfrentar mais uma situação que ciclicamente tem de viver e para a qual há-de encontrar soluções. A única diferença é que esta crise de 2010/2011, é do conhecimento de todos, e os malditos mercados, como alguns gostam de os apelidar, amplificam-na ao máximo em beneficio próprio, fazendo uso de  meios de comunicação disponíveis para todos,  mas dos quais, apenas uma ínfima parte tem capacidade para tirar proveito.
Nos finais do nossos estudos de Contabilidade em 1973, em que, duma forma puramente académica e com um outro colega finalista nos começámos a interessar por estas coisas, quando saía uma notícia com algum impacto económico, apenas os insiders dela podiam beneficiar, e com o tempo todo à sua disposição. Esta situação manteve-se até finais do século XX. Hoje, costumamos dizer, que quando a notícia sai já é tarde para agir.  Os verdadeiros líderes em qualquer actividade que seja, política ou outra, definem-se pela capacidade de prever as situações e os problemas, para atempadamente  encontrarem as respectivas soluções, versus, os que vivem em permanente situação de reacção perante factos consumados.

J.L. Reboleira Alexandre
jose.alexandre@videotron.ca


Breves
Pequenos artistas de Óbidos expõem na Casa do Pelourinho

“Da janela dos meus olhos, um caleidoscópio para o universo da pintura” dá título à [...]

«A escrita a postos» de Júlio Conrado

Júlio Conrado (n.1936) além de crítico literário é romancista, poeta e dramaturgo. Publica desde 1963 [...]

Banda de Alcobaça fica em 2º lugar em concurso nacional

A Banda de Alcobaça voltou a obter bons resultados no Concurso de Bandas do Ateneu [...]

Lesões ligadas ao trabalho

Actividade profissional pode afectar sistema musculoesquelético

As Lesões Musculoesqueléticas Ligadas ao Trabalho são doenças relacionadas com [...]

Velharias no Cadaval ao quarto sábado de cada mês

Realizou-se a 28 de Abril a primeira edição da Feira de Artesanato, Velharias e Coleccionismo [...]

Pais de Valado dos Frades querem juntar miúdos e graúdos à volta dos livros

Um clube de leitura onde crianças e adultos se entregam à magia das histórias e [...]

OCORRÊNCIAS POLICIAIS – Jovens com droga e suspeitos de furtos em automóveis

Dois jovens, com 16 e 17 anos, foram identificados pela PSP das Caldas, às 8h30 [...]

Orfeão Caldense

Em conformidade com o determinado pelo art. 25 dos Estatutos, convoca-se a Assembleia Geral do [...]


Actuais
Edição impressa
capa da edição4912Capa da Edição #4912capa da edição4912Download Adobe PDF Reader
Crónicas
 
 
 

2010 Gazeta das Caldas | Desenvolvido por Janela Digital