Estrada de Macadame – «O livro do sapateiro» de Pedro Tamen

Publicado a 28 de Outubro de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Pedro Tamen (n. 1934) publica poesia desde 1956 («Poema para todos os dias») e a sua obra está editada em diversos países: Itália, França, Hungria, Bulgária, Inglaterra, Espanha e Brasil. Num tempo que exige juventude, eficácia e rapidez o sapateiro (como o poeta) vive contra a corrente: seus valores são a sabedoria, a paciência e a lentidão. Organizado em 49 fragmentos (7×7) vejamos o poema nº 7: «Meia sola é meia sola. / Será por isso que a cola / me cheira tanto a vinagre? / Mas meia sola é milagre. / E eis o que ninguém sabe: / que neste cantinho cabe / na penumbra da oficina / na casca do caracol / esta pequena aspirina / que é a largueza do sol».
O ponto de partida é o lugar: «Sentado no curto escabelo que me deram / espreito aqui da cave pela janela alta / as pessoas que passam.»
O caminho é o erro e o engano: «Incham-me os olhos: / não chorei o bastante / os caminhos barrados / os dias que vivi por estes dedos / martelados por engano e erro / anos a fio / noites confundidas / com a cave onde trabalha / o coração real».
O resultado é a moral da história: «Não sai de mim afinal / outra coisa além do jeito / com que modelo e aceito / o que resulta do sal / com que tempero a natura / que em minha mão se acoitou. / Ela me faz o que sou / e ao fazer-me a faço impura. / Deste bico do sapato / bebo eu a vida inteira: / aqui fechado reato / caminhos de que ribeira / montes e flores onde exacto / encontro a minha maneira».
(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte)

José do Carmo
Francisco

Um Livro Por Semana 236 – «Ficava em Angola e chamava-se Nova Lisboa» de Inácio Rebelo de Andrade

Publicado a 7 de Outubro de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

No seu 16º título Inácio Rebelo de Andrade (n.1935) retoma um tema anterior: «Quando o Huambo era Nova Lisboa» de 1998. São 81 fotos comentadas com a cronologia e o glossário.
A partir da memória do clima («Não há céu como o do Huambo: tão azul, tão luminoso, tão belo!») alcança o fundador da cidade em 1912: «Norton de Matos, visionário, criava uma cidade no meio do mato, criticado pela imprensa da época pelo arrojo e pela insensatez».

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Um Livro Por Semana 227 – «Anthero Areia & Água» de Armando Silva Carvalho

Publicado a 5 de Agosto de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Armando Silva Carvalho (n.1938, Olho Marinho) revisita o tempo e a vida de Antero de Quental a partir dum seu poema publicado na Revista Colóquio-Letras nº 173 e da leitura das Cartas de Antero na edição de Ana Maria Almeida Martins.

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Um Livro Por Semana 226

Publicado a 29 de Julho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Era Ruben A. para a ficção, Ruben Andresen Leitão para o jornalismo e para os livros de História. O segundo nome (Alfredo) surge apenas em documentos oficiais. Embora os Andresen se tenham fixado no Porto, Ruben vem nasce em Lisboa em 1920 no nº 25 do Príncipe Real que «tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa». Com 7 anos vai viver com a avó materna para o Porto (Campo Alegre) ao lado de Sophia, prima direita: «Vivemos e brincámos juntos nas mesmas casas, nos mesmos jardins». Desta época é o seu primeiro texto: «Minha querida mãe, já sei escrever só e gosto muito». Com 9 anos assiste ao naufrágio do navio Deister na Foz do Douro: «Vi que a morte era o desaparecimento, a impotência, a crueldade». Em 1933 cria o jornal O Falcão de Prata mas só em 1946 se inicia nos grandes jornais: Jornal de Notícias, Diário Popular e Expresso. Em 1942 reprova três vezes a Psicologia e vai para Coimbra depois de um professor declarar que «não recebia lições dos alunos e que o reprovaria sempre». Quando ensina numa Escola Comercial, Ruben descobre um logro: «os de História ensinavam Francês, os de Francês ensinavam Geografia e os de Geografia não ensinavam». Em 1947 emigra para Londres e trabalha no King´s College com Charles Boxer: «Quarteirões inteiros cheios de mortos, sítios que foram casas, meia dúzia de tijolos, pedras abandonadas pela guerra, atenção às minas». Salazar surge como crítico («No livro Páginas II explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco. O autor não pode representar Portugal nem ensinar português») embora mais tarde reconsidere e escreva: «o maluco do homem tem habilidade e competência para o cargo».  Ruben A. definia-se como «geógrafo falhado» mas foi sempre um cultivador de amizades; segundo Sophia «o Ruben tinha o dom da amizade».
(Editora: Assírio & Alvim, Prefácio: Mário Soares, Poema: David Mourão-Ferreira)

José do Carmo Francisco

Um Livro Por Semana 225 – «A cova do lagarto» de Filomena Marona Beja

Publicado a 22 de Julho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Romance sobre o tempo e a vida de Duarte Pacheco, ministro das Obras Públicas do Estado Novo, este livro mostra uma visão poliédrica deste homem especial que «Via para além do que olhava» e era avesso a favores: «Duarte não concedia favores: Não ficava, ele próprio, a dever ao Estado».
De um lado o país («O nosso país será pobre mas isso não é desgraça. Desgraça será o atraso») do outro lado Salazar, o padreca sem coroa: «Artigos no jornal Novidades. Palestras no Centro Católico. As suas lições de cátedra, na Universidade».
Homem diferente, especial e veloz, respondeu um dia sobre o casamento: «E alguma vez eu tive tempo para isso?» Um dia em 1942 descobre que «Numa emergência ninguém podia descolar de Lisboa. Dependia-se dos hidroaviões, do rio» logo propõe o novo aeroporto (ou seja «um campo destinado à aviação civil») e a resposta é «Autorizo. Construa-se». A sua paixão pela velocidade faz com que nas grandes obras «já havia máquinas a betumar e ainda por lá andavam galinhas». As mesmas galinhas que Carminha, a sua irmã referia a propósito do amor: «Observando a capoeira, concluíra que até as aves ficam deprimidas depois da galadura». Para uns era o homem «Providencial» e capaz de hipnotizar os companheiros, para outros o vencedor de uma teia de obstáculos: «rotina, burocracia, bajulação, falta de quadros técnicos, de apoios, de verbas, de compreensão». Morreu no automóvel de serviço perto de Vendas Novas no desnível da estrada a que chamam a cova do lagarto.
(Sextante Editora, Capa: Henrique Cayatte/Susana Cruz, Nota: Miguel Real)

José do Carmo Francisco

Um Livro Por Semana 224 – «Antologia de poemas de Armando Côrtes-Rodrigues»

Publicado a 15 de Julho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Com selecção e prefácio de Eduíno de Jesus, este livro pode ser um bom ponto de partida para celebrar os 120 anos do autor que nasceu em 28-2-1891. Colaborador das revistas literárias do seu tempo como «Águia», «Presença», «Ocidente», «Atlântico», «Portucale» e «Orpheu», estreou-se no 1º volume desta mesma revista em 1915: «O mar da minha vida não tem longes / É tudo água só! E o horizonte / Funde-se no céu. Por sobre a ponte / Marcha, sinistra, a procissão dos monges.»
No número 2 da revista «Orpheu» assina com o heterónimo Violante de Cysneiros:
«Ouço passos que não são / Os mesmos de quem caminha / Passos que comigo vão / Sempre que eu ando sozinha.»
Com «Louvor da humildade» de 1924 surge o regresso às coisas simples da terra, como o pucarinho de barro («O meu lindo pucarinho / Que tanta sede me mata! / Gosto mais dele pobrinho / Do que se fosse de prata!») ou como a viola – «Hoje aqui a Chamarrita / Amanhã a Bela Aurora / Há festa num lugarejo ? / Rapazes, vamos embora!»
Etnógrafo e autor de peças de teatro como «Quando o mar galgou a terra» (1938), Armando Côrtes-Rodrigues toda a sua vida foi poeta: «Canção de vida entoada / Neste coro do universo / Sou a nota prolongada / No eco breve dum verso».
Sem se desligar do «Orpheu» (visitava em Lisboa os seus amigos Almada Negreiros e Alfredo Guisado) deu novas direcções à sua poesia: «Quero dizer o meu sonho / Só com palavras pequenas / Singelas, simples, comuns/ Com duas rimas apenas»
(Edição: Instituto Cultural de Ponta Delgada, Retrato: Domingos Rebelo, Cronologia, notícia crítica e biográfica: Eduíno de Jesus)

José do Carmo Francisco

Poetas da região em antologia literária espanhola

Publicado a 1 de Julho de 2011 . Na categoria: Cultura . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Henrique Fialho e José do Carmo Francisco, poetas de Rio Maior e das Caldas, respectivamente, estão presentes na antologia literária “Baluerna – cuadernos del viajero”, trabalho organizado por Eduardo Hernández para oferecer aos utilizadores da rede de autocarros de Cáceres.
O volume – editado pela Estación de Autobuses da Cáceres e patrocinado pela Junta de Extremadura e pela CEPSA – inclui poemas de vários autores espanhóis e de cinco poetas portugueses.
Além dos caldenses, participam também nesta antologia António Salvado (Castelo Branco), João Candeias (Lisboa) e Nicolau Saião (Portalegre).
Segundo José do Carmo Francisco, os poemas são oferecidos também ao passageiros dos «expressos» em Castelo Branco e em Évora.
Henrique Fialho, que reside nas Caldas da Rainha, é licenciado em Filosofia e publicou, entre outros, os livros antologia do esquecimento (2003), Estórias Domésticas & Outros Problemas (2006) e O Meu Cinzeiro Azul (2007). José do Carmo Francisco tem dezenas de obras publicadas e é colaborador da Gazeta das Caldas.

N.N.

Um Livro Por Semana 222

Publicado a . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Cristino Cortes (n. 1953) é conhecido como autor de dez livros de poemas mas a sua obra engloba também quatro livros de prosa e duas antologias. Nestas páginas de memórias «fala de si, dos seus próprios dias de amigo e cultor da Poesia, das experiências, dos pensamentos e factos no corre-corre do tempo» como refere Vítor Wladimiro Ferreira no prefácio. O ponto de partida é a aldeia: «Muito cedo daqui abalei, ou em rigor me levaram, como a Bernardim, em busca de melhores dias – e foi o melhor que fizeram os meus pais». O ponto de chegada é a cidade de Lisboa: «De repente acho-me perante um jardim público, rodeado de casinhas baixas mais ou menos recuperadas, um largo central chamado Rossio (de Palma), equipado com estendais públicos, a ausência de tráfego automóvel e meia dúzia de estabelecimentos comerciais, alguns fechados». Entre a aldeia e a cidade, surge a Poesia: «Não há aqui lugar para o mesquinho cálculo, o esperto esquema, a meia intenção, a reserva mental. A Poesia é outra coisa» Para conhecer a Literatura ao autor, na Biblioteca Nacional, recorda: «Foi no espólio de Casais Monteiro que li, pela primeira vez, uma carta de João Gaspar Simões». Mas nem tudo são rosas e, na casa da memória, há coisas erradas: «Começo a desconfiar que esta mediocridade, este provincianismo saloio mal disfarçado, nos está na massa do sangue e, se calhar, muito dificilmente poderá ser extirpado». Fica uma nota final afirmativa: «Hoje a individualidade de um povo é sobretudo a língua e a forma suprema e última por que ela se manifesta e transcende é a Poesia.»
(Editora: Papiro, Capa: Graça Rita, Prefácio: Vítor Wladimiro Ferreira)

José do Carmo Francisco

Um Livro Por Semana 218 – «A dança das feridas» de Henrique Manuel Bento Fialho

Publicado a 3 de Junho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

O ponto de partida é Alexandre O´ Neill («O amor é o amor – e depois?»), o poeta do adeus português a Nora Mitrani: «O meu amor partiu para uma noite gótica / partiu a uivar aos mortos / bebendo directamente das veias / o sangue que nos corre até ao coração desarmado».
Entre canção e reflexão a poesia é o lugar do encontro. Para dançar são precisos dois – como Fred Astaire e Ginger Rogers: «Pode ser difícil de acreditar / mas a dança chegou-me / muito antes da coreografia / do corpo cadenciado ao ritmo da voz / dos passos marcados pela mágica de um sorriso».
Para perceber melhor as feridas do amor juntam-se Ernesto Sampaio e Fernanda Alves: «Não sei quem és. Não sabes quem sou / Somos apenas alguém à espera / fantasiando o absurdo da vida / crentes de que um dia o nada de onde viemos / possa tornar-se o tudo para onde vamos».
Jorge de Sena poderia ter dito a Mécia de Sena («Esta noite sonhei contigo») enquanto Fellini poderia ter dito a Giulietta Masina – «Ninguém dá flores às flores. / O que eu quero é um ramo de poemas / para oferecer à minha flor».
Não o sabendo de certeza, o poema aventura-se a adivinhar as palavras trocadas entre amantes lendários como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Rainer Maria Rilke e Lou Andréas-Salomé, Ulisses e Penélope, Sylvia Plath e Ted Hughes ou Humphrey Bogart e Lauren Bacall de onde vem o título do livro: «Não digas que foi um erro ficarmos / um dentro do outro / durante todo o fim-de-semana. / Não digas que em redor das nossas desavenças / se apagaram todas as lâmpadas».
(Colecção Insónia, Capa: Maria João Lopes Fernandes, Composição: Pedro Serpa, Impressão: DPI Cromotipo)

José do Carmo Francisco

CCXXVII – «Bendito e louvado seja ou memória de um velho Natal»

Publicado a 21 de Abril de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

No tempo da «estrada de macadame», na minha terra natal (Santa Catarina) havia o hábito de as pessoas cantarem o «Bendito» sempre que não havia músicos no coro da igreja paroquial. A Filarmónica Catarinense tinha um grupo de instrumentistas que tocavam e cantavam nas missas solenes mas, umas vezes porque estavam fora, outras porque não era possível reunir o grupo completo, não tocavam nem cantavam lá no alto do coro. A chamada «Missa do Galo» apanhava-me sempre com muito sono e quando era pequeno ainda mais do que hoje. Felizmente a casa dos meus avós maternos (hoje em ruínas) era muito perto da igreja e havia sempre uma cama disponível para mim. Tenho uma memória muito viva do presépio: além de colocado em socalcos com os bonecos colocados em cima do musgo trazido do Cabeço Castelo e de uma gruta de cortiça onde estava o Menino Jesus, havia um barril de cinco litros cheio de água, disfarçado na verdura do presépio que, a um toque do meu tio Álvaro do Carmo Almeida, começava a despejar água num rio de cortiça dirigindo a mesma água a uma azenha onde a roda ostentava quatro bugalhos sem miolo. A água, veloz, ao cair dentro do buraco dos bugalhos projectava na roda uma velocidade enorme que só parava quando o barril com a água se esgotava por completo. Agora que o meu tio morreu não sei se alguém faz o presépio como ele mas penso que aquele presépio com o barril de cinco litros nunca mais se vai repetir. Comprei aqui em Lisboa (onde vivo desde 1966 e onde escrevo estas crónicas) um postal da Irmandade do Santíssimo Sacramento na igreja da Calçada do Sacramento e lembrei-me logo do «Bendito» que se cantava na igreja da minha terra no tempo da «estrada de macadame».

A vida é um mistério, não é um negócio. O sacristão de Santa Catarina morreu mas continua à espera da carrinha dos Capristanos. A encomenda de 400 partículas para a missa campal não veio na carreira das sete e vinte; foi preciso o Vítor trazê-la de propósito. Vem na curva da Forca. Nas Caldas o Guimarães marca os desdobramentos para Peniche e Atouguia da Baleia. Se a vida fosse um negócio e não um mistério, o Álvaro teria trocado a sua pela do filho Zé Carlos em 1989 naquela manhã de domingo. Fui eu o padrinho que na pia baptismal lhe segurei a caixa dos santos óleos, tal como já antes tinha segurado ao Luís e ao Fernando. O Zé Carlos teria hoje 41 anos, poderia ter emigrado para a Suíça como o Luís ou vendido arcas congeladoras como o Fernando, poderia ter casado e continuado a ser aquilo que todos nós somos mesma quando não parece – navalheiros numa terra de oficinas de cutelaria. A Milu que agora cantou na missa de corpo presente foi a mesma que lhe fez as últimas contas do empregado Zé Carlos em 1989. Presidiu o padre Joaquim Nazaré e concelebrou o padre Maximino mas não vi os padres da nossa terra que ele tanto ajudou a preparar as missas novas nos anos 60. Mas vi o Henrique do Carvalhal. A vida é um mistério, não é um negócio Sei que o Álvaro tem andado às quartas de milho de casa em casa, saco cheio, na tulha vai subindo devagar mas há quem dê sete e quinhentos em vez do milho. Quando os fregueses dão dinheiro o sacristão fica a perder porque cada quarta de milho são oito escudos. Na sexta-feira doirada pelo sol, o pão de milho que comi na Taberna do Manelvina sabia ao milho das quartas da côngrua do sacristão de Santa Catarina.

José do Carmo Francisco


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