José do Carmo Francisco, escritor e colaborador da Gazeta das Caldas, integra o grupo de 34 poetas convidados pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanistas da Universidade de Coimbra para uma homenagem a Vasco Graça Moura, em forma de livro.
A antologia intitula-se “a vista desarmada – o tempo largo” foi organizada por Teresa Carvalho e Maria do Céu Fialho e publicada pela Editora Quetzal.
Além de José do Carmo Francisco, integram este livro de homenagem outros autores ligados ao Oeste, como Armando Silva Carvalho (Olho Marinho), Jaime Rocha (Nazaré), Levi Condinho (Bárrio) e Hélia Correia (Mafra).
Os restantes autores são Manuel Alegre, Ana Luísa Amaral, Carlos André, Maria Andresen, Amadeu Baptista, João Luís Barreto Guimarães, José do Carmo Francisco, Luís Filipe Castro Mendes, Yvette Centeno, Levi Condinho, Hélia Correia, António Carlos Cortez, Gastão Cruz, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, José Jorge Letria, Ana Marques Gastão, Albano Martins, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Pinto do Amaral, A. M. Pires Cabral, Luís Quintais, João Rasteiro, Jaime Rocha, António Salvado, Maria Alzira Seixo, Armando Silva Carvalho, Jorge Sousa Braga, Rita Taborda Duarte, José Carlos de Vasconcelos, José Manuel de Vasconcelos e Ruy Ventura.
N.N.
Valério Romão (n. 1974) é tradutor (Beckett e Virgínia Woolf), dramaturgo (autor de Posse e A mala) e contista (revistas Magma e Construções Portuárias) estreando-se no romance com esta obra de 353 páginas na qual o autismo é o protagonista. Rogério, Marta e Henrique (pai, mãe e filho) vivem todos esta doença: «E não consigo sair disto, a desordem, as mãos na boca, os saltos no mesmo sítio, o olhar vazio, a confusão, o silêncio, os guinchos, toda a parafernália que é o fogo-de-artifício pelo qual o autismo se anuncia e esconde a criança.»
Henrique é uma criança diferente («O miúdo era especial, essa malfadada palavra que não quer dizer nada até ser trocada pelos cêntimos da realidade a que corresponde») ou, dito de outra maneira, «deixara de ser uma criança normal com peculiaridades para passar a ser uma criança especial com aspectos comuns a todas as crianças.»
Comum aos três está a dor: «A dor tudo muda, mesmo as convicções mais enquistadas na consciência. A dor é o grande revolucionário pelo qual são feitas as revoluções mais sangrentas do interior de cada um e é pela dor que se conhecem presencialmente as várias personagens que ocupam o palco do teatro contínuo do eu.» Mas o autismo envolve também os avós maternos (Abílio e Amélia) e os paternos cujo nome não aparece – ele está detido numa prisão e ela numa aldeia do Norte. Num misto de bruxedo africano e de misantropia, Abílio afirma: «Às vezes dava por mim a abrir os olhos, no lusco-fusco de uma irradiação de candeeiro de rua que parasitava as paredes do quarto e via a sombra da minha mulher estendida , enorme colina adiposa a suar encosta abaixo o desconforto do Verão lisboeta, misto de sol, de poluição e de um ar que carrega no dorso o cheiro a sardinha assada e a mijo».
Numa escrita que lembra Nuno Bragança, um dia a criança sofre um atropelamento e vai para o Hospital («Ele está mal, ele está muito mal, ele vai morrer») e ninguém comunica com os pais dentro da urgência. Às vezes, no desespero, procuram aldrabões: um que veio do Brasil, uma que veio da Alemanha e um tal Dr. Miguel Relvas. Apenas uma coincidência…
(Editora: Abysmo, Ilustrações: Alex Gozblau, Revisão: Raul Henriques)
José do Carmo Francisco
Pedro Tamen (n. 1934) publica poesia desde 1956 («Poema para todos os dias») e a sua obra está editada em diversos países: Itália, França, Hungria, Bulgária, Inglaterra, Espanha e Brasil. Num tempo que exige juventude, eficácia e rapidez o sapateiro (como o poeta) vive contra a corrente: seus valores são a sabedoria, a paciência e a lentidão. Organizado em 49 fragmentos (7×7) vejamos o poema nº 7: «Meia sola é meia sola. / Será por isso que a cola / me cheira tanto a vinagre? / Mas meia sola é milagre. / E eis o que ninguém sabe: / que neste cantinho cabe / na penumbra da oficina / na casca do caracol / esta pequena aspirina / que é a largueza do sol».
O ponto de partida é o lugar: «Sentado no curto escabelo que me deram / espreito aqui da cave pela janela alta / as pessoas que passam.»
O caminho é o erro e o engano: «Incham-me os olhos: / não chorei o bastante / os caminhos barrados / os dias que vivi por estes dedos / martelados por engano e erro / anos a fio / noites confundidas / com a cave onde trabalha / o coração real».
O resultado é a moral da história: «Não sai de mim afinal / outra coisa além do jeito / com que modelo e aceito / o que resulta do sal / com que tempero a natura / que em minha mão se acoitou. / Ela me faz o que sou / e ao fazer-me a faço impura. / Deste bico do sapato / bebo eu a vida inteira: / aqui fechado reato / caminhos de que ribeira / montes e flores onde exacto / encontro a minha maneira».
(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte)
José do Carmo
Francisco
No seu 16º título Inácio Rebelo de Andrade (n.1935) retoma um tema anterior: «Quando o Huambo era Nova Lisboa» de 1998. São 81 fotos comentadas com a cronologia e o glossário.
A partir da memória do clima («Não há céu como o do Huambo: tão azul, tão luminoso, tão belo!») alcança o fundador da cidade em 1912: «Norton de Matos, visionário, criava uma cidade no meio do mato, criticado pela imprensa da época pelo arrojo e pela insensatez».
Armando Silva Carvalho (n.1938, Olho Marinho) revisita o tempo e a vida de Antero de Quental a partir dum seu poema publicado na Revista Colóquio-Letras nº 173 e da leitura das Cartas de Antero na edição de Ana Maria Almeida Martins.
Era Ruben A. para a ficção, Ruben Andresen Leitão para o jornalismo e para os livros de História. O segundo nome (Alfredo) surge apenas em documentos oficiais. Embora os Andresen se tenham fixado no Porto, Ruben vem nasce em Lisboa em 1920 no nº 25 do Príncipe Real que «tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa». Com 7 anos vai viver com a avó materna para o Porto (Campo Alegre) ao lado de Sophia, prima direita: «Vivemos e brincámos juntos nas mesmas casas, nos mesmos jardins». Desta época é o seu primeiro texto: «Minha querida mãe, já sei escrever só e gosto muito». Com 9 anos assiste ao naufrágio do navio Deister na Foz do Douro: «Vi que a morte era o desaparecimento, a impotência, a crueldade». Em 1933 cria o jornal O Falcão de Prata mas só em 1946 se inicia nos grandes jornais: Jornal de Notícias, Diário Popular e Expresso. Em 1942 reprova três vezes a Psicologia e vai para Coimbra depois de um professor declarar que «não recebia lições dos alunos e que o reprovaria sempre». Quando ensina numa Escola Comercial, Ruben descobre um logro: «os de História ensinavam Francês, os de Francês ensinavam Geografia e os de Geografia não ensinavam». Em 1947 emigra para Londres e trabalha no King´s College com Charles Boxer: «Quarteirões inteiros cheios de mortos, sítios que foram casas, meia dúzia de tijolos, pedras abandonadas pela guerra, atenção às minas». Salazar surge como crítico («No livro Páginas II explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco. O autor não pode representar Portugal nem ensinar português») embora mais tarde reconsidere e escreva: «o maluco do homem tem habilidade e competência para o cargo». Ruben A. definia-se como «geógrafo falhado» mas foi sempre um cultivador de amizades; segundo Sophia «o Ruben tinha o dom da amizade».
(Editora: Assírio & Alvim, Prefácio: Mário Soares, Poema: David Mourão-Ferreira)
José do Carmo Francisco
Romance sobre o tempo e a vida de Duarte Pacheco, ministro das Obras Públicas do Estado Novo, este livro mostra uma visão poliédrica deste homem especial que «Via para além do que olhava» e era avesso a favores: «Duarte não concedia favores: Não ficava, ele próprio, a dever ao Estado».
De um lado o país («O nosso país será pobre mas isso não é desgraça. Desgraça será o atraso») do outro lado Salazar, o padreca sem coroa: «Artigos no jornal Novidades. Palestras no Centro Católico. As suas lições de cátedra, na Universidade».
Homem diferente, especial e veloz, respondeu um dia sobre o casamento: «E alguma vez eu tive tempo para isso?» Um dia em 1942 descobre que «Numa emergência ninguém podia descolar de Lisboa. Dependia-se dos hidroaviões, do rio» logo propõe o novo aeroporto (ou seja «um campo destinado à aviação civil») e a resposta é «Autorizo. Construa-se». A sua paixão pela velocidade faz com que nas grandes obras «já havia máquinas a betumar e ainda por lá andavam galinhas». As mesmas galinhas que Carminha, a sua irmã referia a propósito do amor: «Observando a capoeira, concluíra que até as aves ficam deprimidas depois da galadura». Para uns era o homem «Providencial» e capaz de hipnotizar os companheiros, para outros o vencedor de uma teia de obstáculos: «rotina, burocracia, bajulação, falta de quadros técnicos, de apoios, de verbas, de compreensão». Morreu no automóvel de serviço perto de Vendas Novas no desnível da estrada a que chamam a cova do lagarto.
(Sextante Editora, Capa: Henrique Cayatte/Susana Cruz, Nota: Miguel Real)
José do Carmo Francisco
Com selecção e prefácio de Eduíno de Jesus, este livro pode ser um bom ponto de partida para celebrar os 120 anos do autor que nasceu em 28-2-1891. Colaborador das revistas literárias do seu tempo como «Águia», «Presença», «Ocidente», «Atlântico», «Portucale» e «Orpheu», estreou-se no 1º volume desta mesma revista em 1915: «O mar da minha vida não tem longes / É tudo água só! E o horizonte / Funde-se no céu. Por sobre a ponte / Marcha, sinistra, a procissão dos monges.»
No número 2 da revista «Orpheu» assina com o heterónimo Violante de Cysneiros:
«Ouço passos que não são / Os mesmos de quem caminha / Passos que comigo vão / Sempre que eu ando sozinha.»
Com «Louvor da humildade» de 1924 surge o regresso às coisas simples da terra, como o pucarinho de barro («O meu lindo pucarinho / Que tanta sede me mata! / Gosto mais dele pobrinho / Do que se fosse de prata!») ou como a viola – «Hoje aqui a Chamarrita / Amanhã a Bela Aurora / Há festa num lugarejo ? / Rapazes, vamos embora!»
Etnógrafo e autor de peças de teatro como «Quando o mar galgou a terra» (1938), Armando Côrtes-Rodrigues toda a sua vida foi poeta: «Canção de vida entoada / Neste coro do universo / Sou a nota prolongada / No eco breve dum verso».
Sem se desligar do «Orpheu» (visitava em Lisboa os seus amigos Almada Negreiros e Alfredo Guisado) deu novas direcções à sua poesia: «Quero dizer o meu sonho / Só com palavras pequenas / Singelas, simples, comuns/ Com duas rimas apenas»
(Edição: Instituto Cultural de Ponta Delgada, Retrato: Domingos Rebelo, Cronologia, notícia crítica e biográfica: Eduíno de Jesus)
José do Carmo Francisco
Henrique Fialho e José do Carmo Francisco, poetas de Rio Maior e das Caldas, respectivamente, estão presentes na antologia literária “Baluerna – cuadernos del viajero”, trabalho organizado por Eduardo Hernández para oferecer aos utilizadores da rede de autocarros de Cáceres.
O volume – editado pela Estación de Autobuses da Cáceres e patrocinado pela Junta de Extremadura e pela CEPSA – inclui poemas de vários autores espanhóis e de cinco poetas portugueses.
Além dos caldenses, participam também nesta antologia António Salvado (Castelo Branco), João Candeias (Lisboa) e Nicolau Saião (Portalegre).
Segundo José do Carmo Francisco, os poemas são oferecidos também ao passageiros dos «expressos» em Castelo Branco e em Évora.
Henrique Fialho, que reside nas Caldas da Rainha, é licenciado em Filosofia e publicou, entre outros, os livros antologia do esquecimento (2003), Estórias Domésticas & Outros Problemas (2006) e O Meu Cinzeiro Azul (2007). José do Carmo Francisco tem dezenas de obras publicadas e é colaborador da Gazeta das Caldas.
N.N.
Cristino Cortes (n. 1953) é conhecido como autor de dez livros de poemas mas a sua obra engloba também quatro livros de prosa e duas antologias. Nestas páginas de memórias «fala de si, dos seus próprios dias de amigo e cultor da Poesia, das experiências, dos pensamentos e factos no corre-corre do tempo» como refere Vítor Wladimiro Ferreira no prefácio. O ponto de partida é a aldeia: «Muito cedo daqui abalei, ou em rigor me levaram, como a Bernardim, em busca de melhores dias – e foi o melhor que fizeram os meus pais». O ponto de chegada é a cidade de Lisboa: «De repente acho-me perante um jardim público, rodeado de casinhas baixas mais ou menos recuperadas, um largo central chamado Rossio (de Palma), equipado com estendais públicos, a ausência de tráfego automóvel e meia dúzia de estabelecimentos comerciais, alguns fechados». Entre a aldeia e a cidade, surge a Poesia: «Não há aqui lugar para o mesquinho cálculo, o esperto esquema, a meia intenção, a reserva mental. A Poesia é outra coisa» Para conhecer a Literatura ao autor, na Biblioteca Nacional, recorda: «Foi no espólio de Casais Monteiro que li, pela primeira vez, uma carta de João Gaspar Simões». Mas nem tudo são rosas e, na casa da memória, há coisas erradas: «Começo a desconfiar que esta mediocridade, este provincianismo saloio mal disfarçado, nos está na massa do sangue e, se calhar, muito dificilmente poderá ser extirpado». Fica uma nota final afirmativa: «Hoje a individualidade de um povo é sobretudo a língua e a forma suprema e última por que ela se manifesta e transcende é a Poesia.»
(Editora: Papiro, Capa: Graça Rita, Prefácio: Vítor Wladimiro Ferreira)
José do Carmo Francisco



