ANNUS MIRABILIS – Mais e melhor sociedade

Publicado a 29 de Julho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Defendi, em artigo anterior, a existência de um Estado mais legítimo e sustentável, assim como de melhor serviço público, não necessariamente estatal. Reclamei, também, que os cidadãos se tornem, por direito e obrigação, mais livres, confiantes, solidários, cultos, dinâmicos e conscientes, ou seja, que haja mais e melhor sociedade. Fi-lo, não por estritos preconceitos ideológicos, mas porque entendo que esse é o caminho para construirmos uma sociedade mais justa e feliz. O que há, então, a fazer? Em que domínios actuar? Quem deve fazê-lo? Desde logo, é necessário agir no plano do conhecimento, definindo a agenda pública que interessa, abrindo o debate a todas as categorias sociais, transmitindo perspectivas inovadoras, partilhando informação objectiva e dando exemplo pessoal e institucional daquilo que se propõe para a sociedade. Isto tem sido feito? Não, não tem: distrai-se com o secundário e fantasioso, esconde-se e inventa-se informação, limita-se e enviesa-se o debate e age-se em contradição com o que publicamente se defende.

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ANNUS MIRABILIS – O público e o privado

Publicado a 15 de Julho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Uma das facetas da vida contemporânea que causa mais perplexidade, é a atitude de muitas pessoas face ao público e ao privado, ou, mais concretamente, à compreensão e distinção que fazem entre aquilo que é do domínio público, estatal, privado e social. Confunde-se, amiúde, serviço com propriedade, pensando-se que o serviço público só é (ou tem de ser) prestado por entidades pertencentes ao Estado, o que não é verdade. Abundam os exemplos de bom serviço público prestado por entidades privadas ou do sector social (também conhecido por terceiro sector), muitas vezes melhor do que o prestado por repartições ou empresas públicas (ou seja, do Estado). Como se constata, a semântica da palavra “público” favorece esta confusão, mas há motivos ideológicos que a reforçam e interesses espúrios que a defendem, tendo-se criado um emaranhado de dependências do Estado que não é fácil de desembaraçar.
Por ignorância, genuína ou fingida, tenta-se fazer crer que o que vem do Estado é bom e o que tem o cunho privado é mau. Despudoradamente, exploram-se mitos e agitam-se espantalhos. Mas, então, não é cada um de nós “privado”? Não é o comércio, pequeno e grande, privado? Não são os alimentos que compramos e introduzimos no nosso corpo, privados e vitais? Não é a informação e opinião que consumimos e introduzimos na nossa mente, privada e essencial? Sejamos claros: antes do Estado aparecer, já cá nós andávamos há muito tempo. O Estado, que custa muito dinheiro e é por todos nós suportado com grande sacrifício, surgiu para tornar mais eficiente a vida em sociedade, regulando-a, dinamizando-a, equilibrando-a e representando-a. Por princípio e natureza, o Estado não existe para competir com formas de organização baseadas na iniciativa individual ou colectiva dos cidadãos, e muito menos para se substituir a elas.
Cada cidadão, cada família, cada comunidade, deve cuidar de si o melhor que puder e souber, com sentido de responsabilidade, visão, iniciativa e organização. Ao Estado, compete facilitar esta dinâmica, com isenção, justiça, transparência, qualidade e eficiência, numa óptica de serviço e de prestação de contas aos cidadãos. Não o contrário, isto é, deixar-se apropriar por grupos de interesses que dele pretendem servir-se, abusando do poder e fazendo crer que o Estado tem uma importância que realmente não tem. Nem deve ter, para não limitar o espaço que pertence, por direito e obrigação, ao cidadão. O mito do “Estado Social”, tratado mais como um artifício de linguagem ou figura de retórica do que como importante função social do Estado, contribui na prática para a desresponsabilização individual e colectiva dos cidadãos, que pouco cuidam de poupar e de investir na sua educação, saúde e reforma, desprezando o interesse associativo e mutualista. Precisamos de Estado, sim, sobretudo de bom Estado, mas precisamos muitíssimo mais daquilo que infelizmente nos tem faltado: Sociedade. Isto é, de uma comunidade de cidadãos livres, cultos, solidários, dinâmicos e conscientes.

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com

ANNUS MIRABILIS – Notas de viagem

Publicado a 1 de Julho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Faz bem viajar. Quando o fazemos a diferentes locais ou, de tempos a tempos, ao mesmo local, podemos observar as diferenças e reflectir sobre a diversidade e as tendências  deste mundo caleidoscópico. Estive recentemente em três capitais europeias – Roma, Londres e Paris – tendo percorrido diferentes zonas urbanas, das mais ricas e cuidadas às mais pobres e degradadas. Retirei destas visitas algumas notas breves, que partilho com os leitores:
- Esta Europa é cada vez mais diversa e composta por micro-sociedades, determinadas principalmente pela origem nacional e étnico-religiosa, as quais tendem a incorporar as características das sociedades de acolhimento, designadamente em matéria de organização comunitária e civismo, percebendo-se bem onde a cultura é mais consistente e existem políticas sérias de integração e valorização dos imigrantes;
- As populações imigrantes de origem africana, oriental e latino-americana que habitam sobretudo os bairros periféricos e os subúrbios daquelas grandes capitais, vêm preencher o vazio demográfico e laboral originado pela decisão dos nativos europeus de não se reproduzirem suficientemente e de não aceitarem trabalhos difíceis ou mal remunerados (vão-se queixando, mas não abdicam das vantagens que essas escolhas lhes proporcionam);
- Outra fractura clara verifica-se entre aqueles que demonstram uma atitude  dinâmica, inovadora, educada e gentil, e outros (demasiados) que vivem à custa dos que trabalham e criam riqueza, por vias legais ou criminosas, gerando um sentimento crescente de insegurança e hostilidade, com inevitáveis consequências políticas nos planos interno e externo;
- Ao nível da qualidade dos serviços e do atendimento, a realidade é muito semelhante à portuguesa, em alguns casos até com vantagens para a nossa oferta, sobretudo em matéria de hospitalidade, havendo no entanto muito a fazer em termos de eficiência e eficácia para aumentar os índices de satisfação dos clientes, em especial de turistas e visitantes, tanto nacionais como estrangeiros;
-A centralidade dos países que visitei, bem como a sua importância histórica e geopolítica, facilitam claramente o intercâmbio de pessoas e mercadorias, tanto das regiões limítrofes como das mais distantes, o que não significa que, por cá, não possamos fazer muito melhor em termos de internacionalização da economia e captação de turismo estrangeiro, adoptando políticas adequadas, mais eficazes e ambiciosas, baseadas nas nossas tradições e nas nossas naturais, ou construídas, vantagens competitivas;
-O investimento público e privado na cultura (incluindo a gastronomia) é extremamente importante, sendo esta uma indústria poderosíssima em termos do posicionamento internacional dos países e de incremento dos fluxos turísticos e financeiros, sendo indispensável a existência de um programa nacional integrado de grandes eventos com forte poder de atracção, abrangendo as principais cidades do país e muito bem comunicado;
-Finalmente, percebe-se que as diferenças entre Portugal e os outros países europeus (mesmo a nível das cidades periféricas) em termos de qualidade de vida  e realização pessoal e familiar, não são hoje significativas, sendo até comum uma parte da paisagem urbana, com as mesmas insígnias comerciais e de serviços, já para não falar do papel da internet no esbatimento dessas diferenças. Obviamente que continua a ser muito atractiva a ideia de trabalhar em países onde podem ser auferidos maiores salários, desde que os gastos sejam contidos e se sacrifique temporariamente a qualidade de vida à poupança.
Destas breves notas, decorrem várias lições que podemos e devemos aproveitar para desenvolver o nosso país e a nossa cidade. O potencial é enorme, bastando em muitos casos pôr-se mãos à obra, com muito mais criatividade do que dinheiro, compreendendo bem as preferências dos consumidores, agarrando com firmeza as oportunidades, partilhando solidariamente os recursos e cooperando com vantagens mútuas. Nesse processo, devem ser plenamente envolvidos os actuais e futuros imigrantes, integrando e valorizando a crescente diversidade social.

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com

“Só se consegue inovar com objectivos claros e motivação” diz Luiz Brandão Rodrigues

Publicado a 9 de Junho de 2011 . Na categoria: Economia Painel . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Para promover a inovação numa empresa, uma boa liderança deve ter objectivos claros e encorajar e motivar os seus funcionários, proporcionando-lhes recursos e liberdade de acção.
Estas ideias foram defendidas pelo consultor Luiz Brandão Rodrigues numa sessão sobre este tema que decorreu a 26 de Maio no bar que tem como nome “Inovação”.
Desde o final de Maio que está a decorrer neste estabelecimento comercial na rua D. João II uma iniciativa intitulada “19-21 Lucky Hour”, que pretende ser um espaço de reflexão e ponto de encontro entre empresários.

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ANNUS MIRABILIS – Mudar sem medo

Publicado a 3 de Junho de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

É um tema recorrente, simplesmente porque a mudança é inerente à vida. Não há vida, humana ou outra, sem mudança. Nasce-se, evolui-se, entra-se em declínio e, a prazo, morre-se, cumprindo-se um ciclo de vida inexorável, cujo valor reside na contribuição dada à espécie, incluindo o do exemplo de capacidades e virtudes individuais que testam os limites conhecidos, e de excepcionais resultados colectivos alcançados por inesperadas ou deliberadas dinâmicas de grupo. No mundo global e mediático em que vivemos, todos os dias conhecemos novos exemplos de pessoas, grupos e sociedades que se superam, em múltiplos domínios da vida humana. Não faltam, assim, referências para que cada um de nós faça as opções que, em consciência, entende serem as melhores para si próprio e os outros.
Na sua obra “A Vida Imita o Xadrez” o ex-campeão do mundo Garry Kasparov afirma que é essencial termos objectivos de longo prazo e um plano para os alcançar, desafiando permanentemente as suposições dominantes com uma simples pergunta: “Porquê?”. A mudança decorre, então, da avaliação racional, temperada de intuição, de que as vantagens e benefícios de mudar são superiores às inevitáveis desvantagens ou prejuízos, não sendo aceitável que se mude ou deixe de mudar por motivos irracionais, de resignação ou de baixo autocontrolo. Por outro lado, diz o maior xadrezista de todos os tempos que não basta ter talento e trabalhar-se arduamente, precisamos também de nos aperceber intimamente dos métodos que utilizamos para tomarmos as nossas decisões, sendo essa consciência fundamental para conseguirmos combinar os nossos conhecimentos, experiência e talento, de forma a obtermos o máximo rendimento.
O Papa João Paulo II, Karol Wojtyla, deu a todos os crentes e não-crentes uma lição de vida quando os exortou a não terem medo e a abrirem os seus corações. “Não tenhais medo!” ficou, assim, gravado na memória de todos como símbolo de um pontificado corajoso, humanista e profundamente espiritual, que inspira as actuais gerações. No momento em que Portugal e os portugueses passam por dificuldades e desafios extraordinários, originados pela falência dos modelos políticos, económicos e sociais que prevaleceram nas últimas décadas, e pelo aproveitamento oportunista de uma personalidade desviante a quem a História jamais perdoará, importa perguntar “Porquê?”, pôr em causa e mudar o que for preciso. Como? Assumindo uma atitude racional e corajosa, definindo objectivos claros de médio e longo prazo, reflectindo sobre os critérios e métodos de decisão, e impondo democraticamente a vontade da maioria aos grupos de interesses que se apropriaram do poder do Estado para satisfazerem os seus interesses particulares, em detrimento dos interesses, actuais e futuros, de Portugal e dos portugueses.

José Rafael Nascimento
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ANNUS MIRABILIS – Sobreviver com sorte

Publicado a 1 de Abril de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Vivemos um tempo em que a sorte é a única realidade admissível para este sofrido país, não havendo espaço para o azar. Pura e simplesmente, esgotou-se a margem para errar, perder, falhar, malbaratar. No entanto, a crise que vivemos deve ser vista como uma oportunidade e não como uma ameaça. Uma oportunidade para corrigir objectivos utópicos, opções fantasiosas e caminhos errados, mesmo que isso implique, transitoriamente, o agravar das dificuldades – quem sofre de coisa grave, ir à faca pode ser a maneira de se salvar. Quem cá anda, como nação, há mais de oito séculos, tendo já penado em mil adversidades, não se assusta facilmente. Nem se deixa condicionar por cânticos de sereias, atitudes esquizofrénicas, ou mesmo condutas sociopatas.
Contudo, nunca a sorte nos saiu tão cara e nos foi tão exigente. Sobreviver a este tempo complexo requer a mobilização de capacidades extraordinárias que, sabe-se bem, existem dentro de nós. Desde logo, obriga-nos a termos uma percepção realista da situação – nada é tão fácil, nem tão difícil, quanto parece! – e das nossas próprias capacidades – utilizamos apenas uma parte das nossas forças físicas, psíquicas e mentais, tanto das actuais como das potenciais. Depois, a sermos previdentes, cautelosos, responsáveis, organizados, metódicos e assertivos, não esperando a perfeição inalcançável, antes buscando o equilíbrio proporcionado pela maturidade e pelo bom senso. Finalmente, levando uma vida saudável e diversificada, praticando exercício físico e descanso apropriado.
Quando o stress da vida sobe, temos de saber gerir o nosso ser interior e a relação com o ambiente que nos rodeia. Interiormente, há que limpar a mente de ideias negativas, substituindo-as por pensamentos positivos: coisas que nos alegrem e nos motivem, experiências realizadoras e bem sucedidas, exercícios de respiração e energização do corpo, conforto e relaxamento adequados. Exteriormente, devemos rodear-nos de pessoas e coisas positivas, que nos transmitam boas influências e emoções: a natureza, o património, os eventos, as pessoas, as conversas, os ambientes e as actividades que estimulem, com maior ou menor intensidade, todos os nossos sentidos, de uma maneira agradável e conforme as preferências de cada um. Precisamos, ainda, de nos impormos desafios e objectivos mobilizadores que estejam ao nosso alcance, com empenho, optimismo e, já agora, um cafezinho estimulante!

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com

ANNUS MIRABILIS – Optimismo

Publicado a 11 de Março de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Diz um velho provérbio que “se à noite te sentires cansado como um cão, é porque andaste a ladrar o dia inteiro”. Eu não sei se as pessoas que passam o tempo a lamentar-se da vida e a dizer mal de tudo e de todos, sentem realmente esse cansaço canino, mas não tenho qualquer dúvida em concordar com o impagável Sir Winston Churchill, homem de indiscutível inteligência prática, quando afirmava “sou um optimista, pois não me parece que valha a pena ser qualquer outra coisa”. A opção pelo optimismo e confiança, em detrimento da atitude pessimista e céptica, depende, em última análise, da vontade do indivíduo, por muito que isso lhe custe ou requeira, até, apoio externo.
Afirmada em momento de lucidez e reforçada ao longo do tempo, a atitude positiva acaba por produzir resultados positivos altamente gratificantes, despertando nos outros a atitude que temos para com eles. A realidade é, em grande medida, aquilo que nós quisermos que ela seja, bastando mudar a perspectiva para que o mundo seja imediatamente diferente. O novelista francês Alphonse Karr dizia que “algumas pessoas queixam-se de que as rosas têm espinhos, mas eu congratulo-me com o facto de os espinhos terem rosas”. Na prática, contudo, as coisas tornam-se difíceis, pelo facto de o atalho negativista manter o indivíduo mentalmente sequestrado, muitas vezes sem se dar conta disso.
Na cultura oriental, diz-se que quem guarda uma árvore frondosa no coração, acolhe um ninho de pássaros cantores. Assume-se, assim, que o destino está mais nas mãos de cada um do que geralmente se pensa. A vontade de ganhar concorre para metade do sucesso, tal como a de perder para metade do fracasso. Onde o pessimista vê (ou imagina) barreiras intransponíveis, o optimista vê obstáculos a vencer. Na Confraria dos Sortudos, o optimismo é um valor que se defende e preserva, pela enorme vantagem que ele proporciona aos seus membros e a todos aqueles que os rodeiam. Aos negativistas, porém, deixa-se uma palavra de esperança e confiança, pela voz de Oswaldo Montenegro na sua bela canção Metade: “Que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também”. Força, descubram o optimismo que há dentro de vós!

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com

ANNUS MIRABILIS – Dose e circunstância

Publicado a 4 de Março de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Diz um amigo que a diferença entre um medicamento e um veneno, depende apenas da dose. Na verdade, qualquer medicamento tomado de forma exagerada, pode ser prejudicial à saúde, ou mesmo fatal. Eu acrescentaria, à dose, a circunstância, lembrando que um medicamento tomado em momento e de forma errada, ainda que na dose certa para o indivíduo, pode ser contra-indicado e danoso. O mesmo ocorre com a sorte e o azar: os factores que determinam a sorte podem resultar em azar, se a dose e a circunstância não forem as apropriadas. Fácil? Não, muito difícil, porque é da natureza humana ter uma visão distorcida da realidade, ora reduzindo ora aumentando as suas proporções.
Esta é a razão pela qual a Confraria dos Sortudos estabelece que a adequação, o equilíbrio e o alinhamento, são condições essenciais de admissão na comunidade das pessoas bem sucedidas. Ao contrário, o exagero, o desajustamento e a precipitação, impedem a pertença à Confraria, até mesmo de gente boa e voluntariosa que, não querendo ou não conseguindo corrigir-se, jamais alcançará o estatuto de Confrade Sortudo. Como se percebe, sortudos e azarentos podem possuir os mesmos recursos e capacidades, mas está nas suas mãos usá-los de forma correcta e apropriada, confirmando o velho provérbio “a todos são dadas as chaves do céu, mas as mesmas chaves abrem as portas do inferno”.
A relação entre a sorte (ou o azar) e os factores que a determinam, deve ser considerada e respeitada por todos, sendo mais um problema de consciência e lembrança – mas também de interesse e aceitação – do que de conhecimento ou saber. Por outras palavras, quando se juntam determinados ingredientes de atitude e comportamento, o resultado mais provável, ou mesmo inevitável, será a sorte ou o azar, da mesma forma que um mais um é inevitavelmente dois. Na canção “A História do Mamute”, os brasileiros El Bando recordam esta relação de causa-efeito, cantando: “O mamute pequenino queria beber/tentava e tentava e não podia beber/um urso seu amigo tentou resolver/e seis litros de whisky fez ele beber…/(o que aconteceu a mamute?)/Cirrose, no mamute deu cirrose/Cirrose, no mamute deu cirrose”. Pois é, todos os dias vemos mamutes com azar.

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com

ANNUS MIRABILIS – Alinhar com a realidade

Publicado a 25 de Fevereiro de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Uma das perspectivas mais interessantes que a Confraria dos Sortudos defende, é a necessidade de se estar permanentemente alinhado com a realidade. Na verdade, nunca se está, pois o contexto em que nos encontramos, bem como nós próprios, muda constantemente. O alinhamento é, nesse sentido, uma “dança” sem fim de desalinhamento e realinhamento sucessivo. Surpreendentemente ou não (sabemos há muito que “Deus escreve direito por linhas tortas”), é também o que se passa com a trajectória de um avião ou automóvel entre a origem e o destino, o qual segue fora de rota durante quase todo o percurso, num ziguezaguear constante de realinhamento, devido aos múltiplos factores que o afastam do objectivo final.
Os investigadores ao serviço da prestigiada Confraria, revelaram que as pessoas com sorte procuram conhecer bem a realidade, em todas as suas vertentes, quer do ponto de vista holístico (ou global), quer na abordagem aos inúmeros detalhes que a compõem. Por outro lado, as pessoas com sorte definem e gerem bem as suas expectativas, evitando embarcar em fantasias que não colam com a realidade. Na verdade, o optimismo, a abertura e a confiança, revelados pelos sortudos, não podem ser confundidos com a ingenuidade, a ignorância e a imaturidade dos azarentos, estando estas frequentemente na origem do seu fracasso e insucesso. Ter os pés bem assentes na terra e não esperar mais do que se deve, são, pois, qualidades essenciais para que a sorte nos sorria.
Sendo realistas, as pessoas com sorte sabem que tudo está em permanente transformação, pelo que é essencial estar-se atento às mudanças e adaptar-se a elas. Camões lembrou-o em “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, frisando que “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”. A par da diversidade espacial, o tempo caracteriza também uma realidade mutante, importando estar-se sempre no tempo certo – quem se antecipa ou atrasa à realidade, sofre o azar ou, no mínimo, perde a oportunidade de ter sorte. Nesse sentido, o sortudo é aquele que avança no tempo ao ritmo que este passa, com a consciência de que a perda de uma oportunidade não é o fim da sorte, pois “atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir” (Fausto).

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com

ANNUS MIRABILIS – O azar dos pecadores

Publicado a 18 de Fevereiro de 2011 . Na categoria: Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Na semana passada, as Caldas da Rainha foram notícia nos meios de comunicação social nacionais, por uma razão dramática e lamentável: faleceram três pessoas num incêndio doméstico, provocado por uma vela deixada acesa sem os cuidados devidos. Como ensina a experiência da vida, bem traduzida nas famosas leis de Murphy, se alguma coisa puder correr mal, ela irá correr mal de certeza, a não ser que sejam tomadas as indispensáveis medidas preventivas. Foi o que aconteceu neste caso, rapidamente explicado pelos intervenientes como uma consequência do azar. Sorte teria sido não morrer ninguém ou até não haver incêndio, mas então talvez poucos tivessem pensado nela. De facto, quando não ocorre um acidente, esquece-se que isso se deve frequentemente ao facto de não se ter verificado pelo menos uma das condições do conjunto fatal que o determina, condição essa suficiente para evitá-lo.
Fica assim claro que, para se ter sorte – esta entendida como ausência de azar – não é preciso geralmente fazer muito, bastando que se faça alguma coisa. Ainda assim, o que na realidade se faz é pouco ou nada, possibilitando que o “cocktail perfeito” do azar aconteça. No incêndio das Caldas, a vela existia, não era essencial, estava acesa, colocada em sítio errado, a horas de dormir, a pessoa distraiu-se, estava só em casa, o material era muito inflamável, tentou apagar o fogo sozinha, não se lembrou do extintor, os vizinhos não foram acordados a tempo, etc., etc. Bastava que apenas um destes aspectos tivesse sido diferente para a história ser outra, ou mesmo não haver história nenhuma. Obviamente, também seria legítimo especular-se que tudo poderia ter sido pior, com mais mortes e prejuízos materiais, ardendo toda a zona histórica da cidade e por aí além, naquilo que ficaria conhecido como o “Grande Incêndio das Caldas”(!).
Aliás, foi o que provavelmente pensaram muitos portugueses, ao lerem as primeiras páginas dos jornais nacionais: as Caldas da Rainha estão a arder! O sensacionalismo procurado por alguma comunicação social, com o intuito de atrair audiências e vender mais jornais, colocou as Caldas no centro dos noticiários, pelos motivos mais negativos e deprimentes, dando até a ideia de que as responsabilidades não se limitariam à descuidada inquilina e ao inadimplente proprietário. Creio que todos preferiríamos ver as Caldas da Rainha a abrir os noticiários nacionais e internacionais por factos e iniciativas de grande valor social, cultural ou económico, pois, na verdade, os grandes incêndios sempre foram de triste memória e dos incêndiozinhos não reza a história. Mas cada um tem o calor (ou sorte) que merece, pelo menos no que de si depende, tendo os justos que pagar, infelizmente, pelos incêndios (ou azar) dos pecadores.

José Rafael Nascimento
jn.gazeta@gmail.com


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