«A viagem do Tangomau» de Mário Beja Santos

Publicado a 17 de Novembro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

São «Memórias da Guerra Colonial que não se apagam» e há, neste livro de 518 páginas, uma viagem entre dois mundos (Europa e África, guerra e paz) e entre dois tempos: 1968 (Mafra, Ponta Delgada, Amadora) e 2010 (o território complexo e o mosaico humano da Guiné). Presente em toda a viagem, a literatura acompanha o militar como contraponto à  realidade que o envolve: Ruy Belo, Sophia, Pedro Tamen, Ruy Cinatti e Herberto Helder mas também Amândio César, Tomaz de Figueiredo, Curzio Malaparte, Kafka e Saint-John Perse. Mais tarde lê Sartre, Conan Doyle, Kerouac, Hemingway, Graham Greene, Steinbeck e Moravia.
Muito antes de descobrir que o aerogramas eram mentiras generalizadas já o militar se debatia entre o juramento de bandeira («Juro ser fiel à minha Pátria e estar pronto a lutar e a dar a vida por ela»)e a guerra de guerrilha: «É para esmagar esta subversão que precisamos de atiradores hábeis». Percebeu que descolonização era inevitável («o que estudara sobre a presença portuguesa em África deixara-o desenganado quanto à chamada guerra justa») e nas aulas de Mafra ouve «críticas ferocíssimas sobretudo quanto às mentiras ou lógica de pechisbeque porque se defendia o Portugal Imperial, agora Ultramarino.»
Quando volta em 2010 aos lugares da sua guerra, o militar sabe que «não se faz uma viagem ao passado para amaldiçoar o presente» e o seu discurso aos antigos comandados é elucidativo: «Quase menino e moço saí de casa de minha Mãe para me fazer soldado como vós. Os primeiros contactos foram difíceis, nada sabia sobre os vossos usos e costumes, aqui cheguei de barco e cedo me empolguei por este pedaço de terra dos negros que me coube por missão ou dever por carta de perdão. Fiz-me homem entre vós. Venho suplicar-vos que não percam a vossa nobreza, a vossa postura senhorial a despeito de tanta agrura. O Deus misericordioso, que nos comtempla, se exulte com a nossa alegria e me perdoe as faltas e me conceda junto de vós, alcançar a vida eterna. Porque o vosso e o meu Deus ditam o mesmo mandamento, amarmo-nos uns aos outros como Ele nos amou».
(Edição: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: José Antunes, Revisão: Pedro Ernesto Ferreira)

José do Carmo Francisco

«África – frente e verso» de Urbano Bettencourt

Publicado a 4 de Novembro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Autor de 6 volumes de ensaio e de 9 livros de poesia e narrativa, Urbano Bettencourt (n. 1949) assina neste seu 16º título uma revisitação de África onde cumpriu uma comissão de serviço entre 1972 e 1974. O título propõe uma dupla inscrição mas nem no Natal o poema sugere alegria: «sem nozes nem lâmpadas / sem presépio nem padres finalmente / o natal escorre de saudade pelos olhos do soldado / agarrado à breda remuniciada.»
O tom geral é a raiz de mágoa, título do primeiro livro do autor em 1972: «o Pedro morreu com 22 anos, tinha x metros de altura, pesava n quilos, a mina arrancou-lhe as pernas, procurei os restos e reuni-os debaixo de um mangueiro, (…) eu bebi whisky puro toda a tarde.» A alma e o corpo ocupam lugares diferentes: «Do corpo jamais se soube o que foi feito (…) mas a alma, essa mesma que foi enterrada junto ao poilão, é que continua multiplicada e enorme por dentro das noites a assombrar as bolanhas e as florestas, os riso e os poços.»
O poema pode falar dos mortos em geral: «Deixem aos mortos o vinho amargo do silêncio, a taça onde uma flor de sangue aos poucos se desfolha: a paz de pinho que lhes coube é apenas a face iluminada do engano». Ou de um certo morto como o Marques: «O Marques falava demoradamente, o olhar sobre a quietação do rio. É a saturação de tudo. A caserna, o pessoal, a gritaria. Os gestos e as vozes, o rumor das armas, o cheiro e o toque dos corpos.»
Na dupla inscrição a «frente» de África pode ser o poema «Não recordo o número de homens / esqueci o recorte dos ombros / contra a luz do regresso. / Apenas soube guardar de um deles o último pavor / e os seus dedos na minha carne, uma herança de sangue e morte.» Mas o «verso» pode ser esta prosa: «Se calhar, ainda te vais lembrar do tempo de África. Das gentes que viveram um pouco melhor graças a ti. Caminhos, estradas, casas, água potável. Mas a sombra das pessoas que destroçaste há-de seguir-te como um cão açoitado. E as casas a que deitaste fogo vão continuar a arder nos teus olhos.»
(Editora: Letras Lavadas, Foto: Magda Medina, Capa e Grafismo: Urbano)

José do Carmo Francisco

«Fernando Pessoa uma quase-autobiografia» de José Paulo Cavalcanti Filho

Publicado a 28 de Outubro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

O autor (n. 1948) conheceu Fernando Pessoa pela voz de João Villaret em 1966 e calcula que os 30 mil papéis do poeta davam para 60 livros de 500 páginas. Mas não se intimidou no seu projecto: «o livro não é o que Pessoa disse, ao tempo em que o disse; é o que quero dizer, por palavras dele». Com 710 páginas para ler e descobrir, fica um excerto como convite à leitura:
«Dois factos marcaram a vida de Pessoa. Revelou-se um político, quando, no início do Estado Novo português, em numerosos textos, apoiou um governo de direita, angariando a antipatia dos intelectuais comprometidos com a democracia. Depois, rebelou-se contra Salazar, para ganhar, também, a reação dos conservadores de todos os costados. O outro facto está ligado aos costumes, porque, em mais de uma ocasião, se pôs ao lado de poetas notoriamente homossexuais.  Sem contar com a defesa que fez da escravatura, ou as críticas ao comunismo e ao cristianismo. Provavelmente por conta dessas atitudes nada convencionais, foi, durante bastante tempo, sempre mais estimado fora que dentro de Portugal. Ou, talvez, como em conversa me disse Teresa Rita Lopes, isso tenha acontecido por Portugal ser um país pequenino, onde os intelectuais se tocam nos cotovelos e todos têm inveja uns dos outros. Apenas refiro esses factos, sem ânimo (ou razão) para análises detalhadas, mas observo que talvez não por acaso, apenas o primeiro dos seus biógrafos, João Gaspar Simões, nasceu em Portugal – os demais são, na sequência dos livros, um espanhol (Crespo), um francês (Bréchon), um americano (Zenith). Certo é que só com o tempo e uma melhor compreensão do contexto histórico da sua presença, se abrem as portas, entre os seus também, para a admiração sem limites que merece. No Brasil, sobretudo, onde revela um prestígio não igualado por nenhum outro poeta português».
(Editora: Porto Editora, Capa: Almada Negreiros, Design: Leonardo Iaccarino)

José do Carmo Francisco

«Antes que o sol acabasse» de Mário Machado Fraião

Publicado a 21 de Outubro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Este nono trabalho literário individual de Mário Machado Fraião (1952-2010) é o primeiro livro póstumo e foi escrito no tempo em que o autor trabalhou no volume colectivo «Manuel Teixeira Gomes, ofício de viver» (Tinta da China, 2010). No poema que dá título ao conjunto se recorda Portimão: «Aqui as igrejas estão caiadas / com suas barras azuis / e amarelas / outras envelhecem / para sempre esquecidas frente ao sol».
Nascido à beira do porto da Horta, o autor foi um infatigável viajante que passou por Évora: «eterno aprendiz / de feiticeiro / subindo a Rua de Machede / Ocultava / seguramente uma grave acusação / além de um ser estranho / pessoa / de fora / o frio de Janeiro percorrendo os ossos todos do meu corpo». Mas as melhores viagens são as dos barcos: «Os nomes oscilam sobre o cais / o Martim Moniz o Pedro Nunes / o Seixalense / Pequenos grupos / ou pequenas multidões / incessantemente / atravessam os longos corredores metálicos / sobre as águas / ínfimas parcelas no largo firmamento que nos cobre».
Entre a terra e o mar, o barco escreve o amor: «E enquanto as madeiras rangem / pode haver / nas tábuas do casco / uma flor / o nome da mulher amada / uma estrela na proa».  E a paz pode ser o outro nome do amor: «Mas se finalmente / nos decidimos a descer / procurando o vento / uma brisa aqui tão quente / com sabor a pêssegos / amêijoas / amêndoas / logo encontraremos as ondas / verdes / a espuma bravia / e uma paz imorredoira percorrerá os nosso corpos / nessa imensa água grande / onde os dois mares se confundem / e assim atravessando o Verão eternamente».
(Edição: O Telégrapho – Horta, Prefácio: Victor Rui Dores, Fotografias: Renato Monteiro)

José do Carmo Francisco

«A Companhia dos corvos» de Joaquim do Nascimento

Publicado a 14 de Outubro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Depois das memórias da aldeia de Pereiros («Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro» e «A casa e as sombras») e da revisitação ao inquérito do Ministro do Reino em 1758, Joaquim do Nascimento escreve a memória de um tempo (1963-1966) entre dois lugares – Lisboa e Inhaminga «uma vila de ferroviários localizada a cerca de 200 quilómetros da cidade da Beira na linha que, do seu porto, levava à Niassalândia».  Partiram de Lisboa no Niassa: «Para Angola rapidamente e em força disse o cabrão do chefe, mas não criou condições para navegar, o filho da puta, com perdão da mãezinha dele!». Iam no Niassa «rapazes tontos, é verdade, mas foi sobre os nosso ombros que os bonzos do regime depositaram a responsabilidade de lhes guardar o Império e nós, convencidos, inchávamos o peito e fingíamos que acreditávamos».
Escrita em 2008, esta viagem ao passado não se escreve contra ninguém, limita-se a ser «uma mistura de imagens e de sentimentos que vêm à cabeça como acontece quando desfolhamos velhos álbuns de fotografias». Mas não esquece o amor das mulheres («trarão nos corpos um perfume forte a feno molhado e a flores de acácia e vão trocar connosco a alegria intensa de quem se quis, só por se querer, pois elas sabem e nós sabemos que o tempo urge e o dia seguinte pode ser o último«) nem a morte dos rapazes: «O camarada que decidiu acabar com a vida ficou sepultado em Inhaminga e ainda hoje me pergunto que razões o terão levado a suicidar-se assim na força da vida». De um lado o medo («Eu senti a cor do medo algumas vezes») do outra lado os aerogramas: «a comida podia inventar-se, podia esquecer-se, as palavras não, dos pais, das noivas, das namoradas, das madrinhas de guerra, dos amigos, da família, as palavras por nada deste mundo podiam ser substituídas ou adiadas, eram elas que nos ligavam aos afectos e ao mundo.» De um lado as rações de combate («o crânio que as inventou devia comer rações de combate durante toda a vida») do outro lado os corvos que dão título ao livro: «E não é que o sacana do corvo, com umas pedras de sal por cima, um pouco de piripiri, umas gotas de azeite, assado no ponto certo, me soube melhor que o arroz de cavala, sempre arroz de cavala que há muitos dias se comia no acampamento?»
(Editora Padrões Culturais, Capa: Stekloduv Fotolia, Paginação: Mário Andrade)

José do Carmo Francisco

«Uma vara de medir o sol» de Graça Pires

Publicado a 5 de Outubro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Graça Pires (n.1946) estreou-se em 1990 com «Poemas» (Prémio Revelação A.P.E. 1988) sendo este «Uma vara de medir o sol» o seu 13º título publicado. Os poemas deste volume situam-se entre a Natureza e a Cultura: «Envelhecemos com uma vara / de medir o sol na linha do olhar./ Não entendemos os sinais inscritos / nas margens do abismo.»
O ponto de partida é um regresso («Regressei com a lentidão de quem vem de longe / do mar com pedras na boca para cuspir nos lugares / onde o vento envolve a gruta das nascentes.») mas o regresso é o tempo da infância: «Os rituais da infância não nos deixam esquecer: / Era verde a sombra das árvores no pátio da escola. / Eram verdes os trigais pejados de papoilas.»
Esse era um tempo de harmonia, um paraíso entretanto perdido: «Antes do homem havia a terra: / geografia mágica, sagrada / que, na luz e na treva, explodiu / de espanto e guardou milenarmente / os mistérios da vida e da morte. / Depois da terra veio o homem.  / E o homem tornou-se um morador incauto / e perdeu o paraíso onde agora os deuses / quando passam, desviam o olhar.»
No Mundo onde as aves procuram lugares para morrer, só o Amor pode responder à Morte: «Vem, meu amor. / Não tarda aí o fim do dia / e ainda não plantámos as avencas / junto do ribeiro para que o rosto / da terra resplandeça nos prados. / Repara: já há amoras no muro de pedra / onde prendemos as raízes da sede.»
(Editora: Intermeios, Capa: Rai Lopes Pereira, Foto: Ana Pires, Colecção: Margens)

José do Carmo Francisco

«Adeus até ao meu regresso» de Mário Beja Santos

Publicado a 28 de Setembro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Depois de dedicar à Guiné três livros (Na terra dos Soncó, O tigre vadio e Mulher grande) Mário Beja Santos assina este volume de 408 páginas nas quais estuda, interpreta e situa vários livros sobre a Guiné em diversos géneros: romances, contos, memórias, ensaios, poesia, reportagem, história e diários. Entre outros, são aqui recenseados livros de: João de Melo, Armor Pires Mota, Álvaro Guerra, José Martins Garcia, Joana Ruas, Salgueiro Maia, Álamo Oliveira, Vasco Lourenço e Amândio César.
Como convite à leitura um excerto de O capitão Nemo e Eu de Álvaro Guerra: «Por lá chafurdei na lama das lalas, debati-me no turbilhão dos tornados, derreti-me na fornalha de um sol quase invisível, dissolvi-me na chuva quase vertical e amei como um danado aquela terra que me injectou a febre, me secou, me expulsou a tiro. Nunca o preço do amor é excessivo nem a presença da morte o pode aniquilar».
O segundo excerto é de Vasco Lourenço em No regresso vinham todos: «Descubro a existência de uma rede de informações do PAIGC. Nós estávamos em Cuntina e detectei uma rede de informações dirigida por um soldado milícia. Através dessa rede, todas as nossas movimentações eram transmitidas para o Senegal. E aconteceu que precisamente o milícia que dirigia essa rede de informações, acabou por morrer numa operação, ao meu lado, a dois metros de mim. Comecei a pensar: mas que raio de guerra é esta? Onde é que eu estou metido? O que é que se passa aqui? O que é que faz estes tipos lutar? O que é que faz com que se coloquem em situações em que acabam por ser mortos pelos próprios amigos? Pelos próprios companheiros de luta? E cheguei a esta conclusão: não tenho nada a ver com esta guerra, esta guerra não é minha, esta guerra não tem sentido. A guerra para mim acabou».
(Editora: Âncora, Capa: José Maria Ribeirinho, Colecção: Guerra Colonial)

José do Carmo Francisco

«Os sítios sem resposta» de Joel Neto

Publicado a 21 de Setembro de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

Para Joel Neto (n. 1974) também a Geografia é mais importante do que a História. Miguel Barcelos, o herói deste romance, resolve mudar de clube («num dia de Novembro») e passa do Sporting para o Benfica durante um processo de zelo e sobressalto como «um cristão-novo na aprendizagem do pai-nosso». O enredo é absurdo, insólito e estranho mas repete, afinal, a troca que em 1961 foi feita por Eusébio quando virou costa ao Sporting de Lourenço Marques e veio para o SLB. Rejeitado pelo Desportivo e acarinhado pelos «leões» de Moçambique, Eusébio (n.1942) chegou ao Benfica por duas razões: era menor ao tempo e a mãe recebeu «dinheiro grande». Ele não seguiu o destino de «Juca», Mário Wilson e Hilário, notáveis jogadores moçambicanos que reforçaram os «leões» de Lisboa.
Voltando à mudança de clube, o autor usa-a como pretexto para mostrar o esplendor da solidão de Miguel Barcelos. Solidão depois da chuva sobre Lisboa: «a cidade desatina, soçobrando em poucos minutos perante um turbilhão de engarrafamentos, inundações e neurose colectiva.» Solidão na freguesia açoriana onde nasceu: «a lavoura nos Açores é milhares de pessoas a receberem dinheiro para não fazerem nada, a não ser embebedarem-se pelos botequins bem caladinhas.» Solidão mesmo quando uma mulher misteriosa o visita e lhe deixa 200 euros depois de um fim de tarde de sexo: «Aquela mulher estava a comprar-me. Mais do que comprar-me: estava a prostituir-me. Duzentos euros era quanto eu valia.»
No regresso a Lisboa o herói traz a memória da infância («Não sei se cheguei a amar o Lusitânia como vim a amar o Sporting») ao lado do tempo atmosférico: «As nuvens, muito baixas, formavam por cima de nós uma barriga redonda e urgente, como que preparadas para lançar sobre a ilha o seu habitual caldo de dilúvio, neurastenia e literatura».
(Edição: Porto Editora, Capa: Alex Gozblau, Foto: Pedro Loureiro)

José do Carmo Francisco

«Portugal Luz e Sombra – O País depois de Orlando Ribeiro» de Duarte Belo

Publicado a 14 de Setembro de 2012 . Na categoria: Diversos . Seja o primeiro a comentar este artigo.

O geógrafo Orlando Ribeiro (1911-1997), autor do célebre estudo geográfico «Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico», comprou a sua Leica em 1937 e durante 48 anos viajou e fotografou um Portugal diferente daquele que o Poder (Salazar) julgava vislumbrar quando autorizou Keil do Amaral a fazer o levantamento da arquitectura portuguesa . O facto é que não há uma casa portuguesa, não existe a casa típica de Portugal.
Segundo Duarte Belo (n.1968) que revisitou 252 fotografias de Orlando Ribeiro, do Norte ao Sul de Portugal Continental, elas «são o relato de um olhar inebriado e fascinado por um país, por si calcorreado, nas suas dimensões mais desconcertantes e de uma extraordinária multiplicidade de formas civilizacionais».
De Alcácer do Sal e Alferrarede a Tourém e Vila Nova de Milfontes, há nestas 318 páginas sucessivos encontros de fotos a cores com as fotos a preto e branco mas Duarte Belo juntou às fotos em confronto as palavras originais de Orlando Ribeiro. Como no caso das Salinas da Fonte da Bica em Rio Maior: «As massas de sal-gema, ou mais provavelmente os leitos intercalados com outros de gesso, dão origem a uma exploração artesanal desde o século XII por meio de fontes e bombagens, no Verão, com uma curiosa paisagem de talhos de água saturada e brancos montículos ao ar livre».
(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: Duarte Belo, Apoio: INATEL e Turismo de Portugal)

José do Carmo Francisco

«Poesia reunida 1956-2011» de Liberto Cruz

Publicado a 31 de Agosto de 2012 . Na categoria: Breves Opinião Rubricas Semanais . Seja o primeiro a comentar este artigo.

São dez livros reeditados mais três poemas inéditos de Liberto Cruz (n. 1935) num volume compacto de 556 páginas com novo prefácio de Eugénio Lisboa e anteriores prefácios de Haroldo de Campos, João Fernandes, Fernando J.B. Martinho e do mesmo Eugénio Lisboa.
Numa nota breve focamos apenas dois aspectos. Primeiro: o autor esteve na guerra de Angola entre 1962 e 1964. Os poemas são contra a retórica do Poder. Seja na fala de um primeiro- cabo enfermeiro: «Em Portugal andam a pedir dinheiro para ambulâncias em Angola./ Então eles não sabem que aqui não há estradas?» Seja uma fala do poeta/militar: «Uma coisa é fazer a guerra como quem vive / E outra é fazer a guerra como quem morre». Segundo: ao assinar o livro «Gramática Histórica» em 1971 como Álvaro Neto, Liberto Cruz integrou-se na Poesia Experimental Portuguesa pois os poemas deste livro são inseparáveis da sua visualidade. E também da irreverência como em «Plebeísmos vulgares»: «Um gajo sem cunhas pediu uma Bolsa. Nicles, claro! Dizem que ficou com uma grande cachola. Que artolas!»
Como nota final registemos um soneto do livro «Caderno de encargos» de 1994:«Passamos todos depressa / Pela vida galopante / E é mesmo por um triz / Que de repente a deixamos. / Alguns fazem maratona: / São corredores de fundo. / Outros na velocidade / Encontram a sua via. / Outros há andando lentos / Em silêncio sem alarde / Como se a vida ganhasse / Quem só é para morrer. / E sem sermos campeões / Chegamos todos à meta.» Mais conhecido como especialista nas obras de Blaise Cendrars, Sade, Júlio Dinis, António José da Silva, Ruben A. e Cardoso Pires, neste livro se revela a total dimensão do Poeta.
(Editora: Palimage, Capa: António Viana/Rita Neves, Foto: Raul Cruz, Prefácio Eugénio Lisboa)

José do Carmo Francisco


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